O circuito público de cultura de Londrina Rede da Cidadania teve início no dia 15 de outubro. Muitas oficinas já aconteceram e outras estão em andamento. Mais de 1.300 pessoas devem participar das oficinas de artesanato, capoeira, circo, dança, dança de salão, percussão, hip hop, artes plásticas e iniciação teatral.
A equipe de reportagem da Folha 2 foi conferir em alguns bairros periféricos de Londrina como estão repercutindo as oficinas, tanto para quem faz como para quem ministra. Com carga horária pequena, a proposta na primeira etapa permite apenas a iniciação e a convivência dos grupos e produtores culturais. Em função da distância dos pontos da Rede, muitos oficineiros sugeriram a viabilidade de receberem o vale-transporte, na próxima fase.
As oficinas mais procuradas foram as de capoeira, hip hop e dança de salão. O hip hop possui um circuito em seis pontos da RC. O Centro Comunitário do Conjunto Maria Cecília (zona norte) chama a atenção pelo número expressivo de garotas inscritas na oficina de hip hop. O oficineiro Sérgio Ezequiel de Souza direcionou esse trabalho para o break, um dos quatro elementos do hip hop (os outros são grafite, Dj e Mc). Para Sérgio, o Centro Comunitário é o local ideal para as 20 horas de duração da oficina.
A estudante Daniele Kelly da Cunha, 14 anos, cursa a 8 série no Colégio Estadual Ubedulha de Oliveira e participa da oficina de hip hop. ''Melhor do que ficar sem fazer nada. É legal aprender outras coisas e não tem somente hip hop. Acho válido ter oficina nesse espaço'', diz. Geralmente, durante as tardes, Daniele cuida do irmão de um ano e seis meses. Na primeira aula de break, quinze garotas aprendiam os primeiros passos.
A cultura hip hop possui representatividade, principalmente nos bairros periféricos da cidade, segundo constata o oficineiro. Sérgio se desloca de um ponto a outro da rede de ônibus e diz que os oficineiros deveriam ser atendidos por transporte. Ele recebe R$ 10,00 por hora/aula, descontado o imposto.
O bairro São Jorge (região norte), uma das localidades mais carentes de Londrina, possui uma escola municipal recém construída. Na local, a RC oferece seis oficinas. Alison Vieira da Silva ministra a oficina de construção de instrumentos musicais. Percussionista do grupo Batuque na Caixa, ele ensina crianças com idade acima de sete anos a fazer instrumentos e a ''vivenciar a música''. De uma mangueira de máquina de lavar, pode-se construir um sonoro reco-reco. Com cordas, madeira e couro de bode, as 20 crianças aprendem a fazer tambores. ''Após o término da oficina, os alunos aprendem a construir instrumentos e a tocar uns dois ritmos. Alguns até falaram em montar bandas'', afirma Alison.
O material básico para a confecção dos instrumentos veio da RC. Mas nessa oficina, parte do material foi disponibilizada apenas na quarta aula, num total de cinco. Isso, de certa forma, comprometeu a programação. Em dois bancos de madeira e uma mesa, os alunos participam do projeto num local improvisado ao ar livre. Em caso de chuva, eles utilizam o pátio coberto da escola Atanásio Leonel. ''O local ideal seria um oficina, um galpão'', constata. Uma das dificuldades enfrentadas por Alison é a distância. Para chegar até a Escola Atanásio Leonel, ele se desloca de ônibus. ''Esse começo é experimental, mas a RC poderia disponibilizar pelo menos o passe de ônibus aos oficineiros'', revela.
Na zona sul, está em fase de acabamento a edificação onde funcionará a Biblioteca Virtual, um espaço construído graças à iniciativa da Associação das Mulheres Batalhadoras do Jardim Franciscato, com ajuda financeira da Fundação Kellog, dos EUA. Quando inaugurado, deve ser um dos pontos mais importantes da sociedade organizada da região sul. No local, funciona a oficina de Artes Plásticas, em que participam 20 pessoas, entre crianças, adolescentes e adultos. A professora Regina Mello pretende trabalhar basicamente cor e forma, propondo aos integrantes da oficina que fujam do desenho convencional. Na primeira etapa, eles fizeram tintas. ''Eles estão testando a teoria da cor na prática. Mas a parte mais importante é a de percepção'', explica Regina. No último encontro do grupo, ela irá propor que trabalhem com o tema ''faço parte desse mundo''.
Regina Mello apresentou projeto na RC e solicitou o material básico (pincéis, papel kraft e sulfite, tinta látex e pigmentos). O local, apesar de ainda não estar pronto, atendeu às necessidades da oficina, segundo atestou Regina. A oficineira se locomove até o Jardim Franciscato em veículo próprio, gastando metade dos proventos em gasolina. Caso recebesse vale-transporte, usaria ônibus. ''Estamos todos empenhados em levar os projetos. Conforme as oficinas estão se desenvolvendo, a RC vai obter mais recursos'', afirma.
Uma das integrantes da oficina de Artes Plásticas, Ana Caroline de Paula Rodrigues, de 8 anos, aceitou participar da oficina a convite de uma amiga. No quarto encontro, testava as infinitas possibilidades das cores, descobrindo como chegar à tonalidade desejada do marrom. Com ares de alquimista, Ana Caroline possui uma agenda cultural lotada durante as tardes. Faz aulas de teatro, balé, artesanato e agora complementa seu aprendizado com as artes plásticas. Isso sinaliza que há um grande interesse dos moradores da periferia em ampliar horizontes por intermédio da arte e a demanda por essas atividades tende a crescer ainda mais.

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