Arte e aromas para eternizar memórias
Artista visual Chico Santos criou relicários com essências extraídas de árvores retiradas da floresta onde foi construída a Usina Mauá e os enviou em cartas anônimas a moradores da região desmatada
PUBLICAÇÃO
sábado, 03 de julho de 2021
Artista visual Chico Santos criou relicários com essências extraídas de árvores retiradas da floresta onde foi construída a Usina Mauá e os enviou em cartas anônimas a moradores da região desmatada
Marcos Roman - Grupo Folha 

Há cerca de dois meses, moradores do entorno da bacia do Rio Tibagi receberam cartas anônimas. Dentro das correspondências havia relicários produzidos com um aroma bastante familiar a cada um dos destinatários. O cheiro das árvores desmatadas durante a construção da Usina Mauá foi sentido novamente por quem havia morado nas vizinhanças das áreas desapropriadas para a construção da represa. O responsável pelo envio da mensagem aromática foi o artista visual londrinense Chico Santos.
“Queria devolver a eles os restos santos da floresta que existia próximo às suas residências”, afirma Santos ao revelar como surgiu a ideia de produzir o trabalho artístico batizado de “Carta Essência”. “Recebi madeiras de 47 árvores nativas daquela região. O material foi entregue a mim porque me propus a presentear o Jardim Botânico de Londrina com uma xiloteca produzida com amostras daquelas plantas florestais. Após meses produzindo essências aromáticas extraídas das árvores, tive a ideia de criar os relicários com o cheiro da floresta que fazia parte da rotina das pessoas que viviam nas proximidades daquela área”, diz o artista londrinense.
Santos comenta que os relicários foram produzidos com uma essência que mistura o aroma de mais 40 espécies de árvores. “Para produzir o óleo essencial, fervi e deixei decantar a serragem da madeira de cada árvore. Depois desse processo, misturei cera de abelha - que também ter a ver com a floresta - e o pó de serra extraído da madeira”, detalha.
O artista londrinense destaca que a inspiração para o trabalho surgiu pelo poder que o aroma tem de despertar emoções. “É como se através dos relicários, um pedaço da floresta desmatada estivesse sendo devolvido para aquelas pessoas que tiveram a vida afetada pela construção da usina”, afirma. Ele relata que enviou 40 relicários a moradores de diversos municípios localizados entre a Reserva Apucaraninha e a cidade de Telêmaco Borba. “Pesquisei os endereços aleatoriamente pelo Google Maps e enviei as correspondências anonimamente, sem a expectativa de receber nenhum feedback”, conclui.
ESCULTURAS AROMÁTICAS
Habituado a produzir esculturas desde que se graduou no curso de Artes Visuais da Universidade Estadual de Londrina (UEL) em 2008, Chico Santos afirma que a experiência vivida durante a produção da “Carta Essência” deve mudar a concepção de seus trabalhos futuros. “Eu sempre me questionei sobre a forma com que minhas obras dialogavam com as pessoas. Sentia a necessidade de produzir algo que provocasse algum impacto mais direto na vida delas. Acho que consegui ao trabalhar com as essências das árvores. Devo trazer essa referência olfativa para outros projetos. Uma outra obra dentro desse conceito foi uma escultura de dois metros montada na garagem da minha casa e que exala um cheiro muito forte e envolvente produzido com óleos essenciais”, relata o artista que já teve obras expostas em mostras de arte realizadas na França, Austrália e Japão.

INSPIRAÇÃO OLFATIVA
A memória aguçada por aromas presentes em exposições de arte visitadas pelo mundo afora serviram de inspiração para Chico Santos produzir obras que têm essências aromáticas como um dos elementos centrais. “Nunca tive uma sensibilidade olfativa acima da média. Mas recentemente percebi que minhas grandes memórias tinham relação com o cheiro. Toda vez que penso nos espaços artísticos que havia visitado o cheiro das telas produzidas com tinta óleo, da parafina de trabalhos feitos com velas e de outros materiais usados por artistas estão muito presentes em minhas lembranças. Por isso resolvi trazer essa referência do olfato para o meu trabalho”, diz o artista.
USINA MAUÁ
Localizada entre os municípios paranaenses de Telêmaco Borba e Ortigueira, a Usina Mauá foi inaugurada em 2012. Durante as obras do empreendimento, 191 áreas rurais foram alagadas. Estima-se que 2,7 mil hectares de vegetação florestal tenham sido suprimidos para a construção da represa. A execução do projeto que desviou curso do Rio Tibagi gerou polêmica entre ambientalistas, que chegaram a acionar a Justiça para interromper a obra. Entretanto, uma decisão da Justiça Federal permitiu a retomada das operações que garantiram a conclusão da obra.
RELAÇÃO ENTRE A ARTE E OS PERFUMES
Há dois anos, o Museu do Louvre convocou os melhores perfumistas da França para uma missão especial: criar perfumes inspirados em oito obras-primas que integram o acervo da instituição.
A direção do museu localizado em Paris deu carta branca para que os perfumistas desenvolvessem aromas ligados ao trabalho de alguns dos maiores artistas de todos os tempos. As obras escolhidas foram: “A Banhista de Valpinçon” e “A Grande Odalisca”, de Jean-Auguste-Dominique Ingres; “Conversation in a Park”, de Thomas Gainsborough; “The Lock”, de Jean-Honoré; “Joseph the Carpenter”, pintura religiosa de Georges de La Tour. Também selecionaram as esculturas "Ninfa de Lorenzo Bartolini”, “Vênus de Milo” e “Vitória de Samotrácia”, que ganharam suas próprias fragrâncias.
Renomadas marcas de perfume, como Givaudan, Robertet e Symrise participaram da iniciativa que previa a comercialização durante o período de um ano das essências inspiradas em obras de arte.
CHEIROS POLÊMICOS
Dentre diversos artistas contemporâneos que trabalham com aromas em suas obras, um dos mais polêmicos é Peter De Cupere. Há mais de 20 anos inserindo aromas em seus trabalhos, o artista belga já produziu instalações artísticas que misturam cheiro de esgoto, suor, peixe podre, cigarros, desodorizadores sanitários, grama, pasta de dente, doces, flores e sabonete.
Pesquisadores afirmam que o olfato tem o poder de ativar um ponto no cérebro onde as lembranças ficam armazenadas. De Cupere tem usado esse recurso para causar polêmicas e reações adversas no público. Um exemplo são estátuas da Virgem Maria produzidas por ele há alguns anos com desodorizadores de banheiro, água benta e secreções corporais.


