ARTE DISFARÇADA EM DRIBLE
PUBLICAÇÃO
sábado, 03 de março de 2001
Zeca Corrêa Leite De Curitiba 
Mané Garrincha, o anjo embriagado dos campos de futebol, estará multiplicado em mais de 120 fotos, em entrevistas registradas em vídeo, crônicas de Ruy Castro, Armando Nogueira, Nelson Rodrigues e nas descrições dos grandes narradores do rádio brasileiro, preservadas em vinil, a partir de quarta-feira 7, no hall da Biblioteca Pública do Paraná, em Curitiba. A exposição Garrincha: Alegria do Povo busca exatamente isso mostrar para as novas gerações a face do autor de tantas alegrias, e aos mais velhos, trazer de volta essas emoções vividas em anos passados.
O material pertence ao colecionador Arlindo Ventura, paulistano de 27 anos, atualmente residindo em Curitiba, que desde a morte do lendário jogador, em janeiro de 1983, passou a se dedicar a colher todo material que encontra sobre ele. Arlindo tinha dez anos incompletos quando viu a sua volta a comoção com a perda de Garrincha. Quando li a primeira revista Placar depois da morte do Mané, acabei sentindo um amor pela arte do futebol, por ser também um garoto peladeiro, explica.
Tomado por essa admiração, nunca mais Ventura foi o mesmo. Já nos tenros dez anos de idade que tinha na época, passou a jogar pensando no drible, e não simplesmente no gol. A arte está no drible, ensina. Aprendeu rápido com seu ídolo enfim, essa era a grande arma do ponta direita do Botafogo, que deixava zonzo os adversários, antes de acabar com a brincadeira mandando a bola para a rede. Dava assim o ponto final a uma diversão, espécie de piada que contava para o público, soberano como um clown
Arlindo Ventura confessa que amarga a frustração de não ter vivido nos anos 50, para poder ver ao menos um drible só do mestre Garrincha. Seria o suficiente, afirma. Como chegou bem depois dessa fase, cuida agora de manter viva a memória do jogador. O idealismo ampara-se em outras lutas discretas, mas importantes para ele, como as de Nilton Santos e Armando Nogueira. Armando nunca esquece de Mané; Nilton fala dele até hoje. E eu, como amante do futebol arte, tenho que fazer a minha parte para que as pessoas não esqueçam esse futebol. Enquanto estiver aqui vou divulgar, mesmo que de forma simples. A mídia poderia dar uma força a esse tipo de arte, mas hoje tudo é voltado ao comercial.
Numa entrevista dada à TV Cultura de São Paulo, o repórter lembrou a Garrincha de sua decisiva participação na Copa de 62. Este, bem ao seu estilo, comentou que o espírito de Pelé tinha entrado em seu corpo. Da mesma forma que seu próprio espírito entrou em Jairzinho para ele ser o goleador na Copa de 70. A essas alturas, o lendário artista dos campos já era uma sombra de seu passado.
Garrincha, para mim, é aquilo que todo homem deveria ser íntegro, feito de simplicidade. Simplicidade no sentido mais nobre da palavra. Não é ingenuidade. Ele era tão simples, e se não fosse assim como foi, talvez eu não me rendesse a ele. A propósito, numa entrevista que deu ao Pasquim, perguntaram o que ele achava da frase Garrincha, alegria do povo . Ele respondeu: O povo é a minha alegria. Só o Mané poderia dizer isso.
Garrincha: Alegria do Povo Exposição de fotos, crônicas e vídeos de Mané Garrincha, um dos maiores jogadores brasileiros de futebol de todos os tempos. Abre dia de 7 e permanece até o dia 29 no hall da Biblioteca Pública do Paraná, Rua Cândido Lopes,133, em Curitiba. Horário de funcionamento: de segunda a sexta-feira, das 10 às 20 horas. Sábados e domingos, das 9 às 13 horas. Entrada franca.


