Arte de olhar
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013
Geraldo Bessa<BR>TV Press 
Por trás da iluminação cheia de contrastes e com "cara" de cinema de "Lado a Lado", esconde-se o trabalho de Walter Carvalho. Renomado diretor de fotografia de filmes brasileiros tão diversos como "Terra Estrangeira", "Central do Brasil" e "Lavoura Arcaica", Walter se reencontrou com a tevê a convite de Dennis Carvalho, diretor de núcleo da atual novela das seis. "Estreei na teledramaturgia em 'Renascer', depois trabalhei em 'O Rei do Gado' e fiz coisas menores em séries. Até que fiquei novamente tentado a fazer novela com a proposta arrojada do Dennis", valoriza. Auxiliando o diretor da cena, o fotógrafo é o responsável pela construção do conceito da imagem. É ele que define o "design" da luz da produção, trabalho feito em parceria com toda a equipe técnica. Em tempos de câmaras digitais e de alta definição, para "Lado a Lado", Walter preocupou-se em quebrar a "dureza" da imagem captada. "Me utilizei de 'fog' e filtros que dessem leveza e suavidade ao vídeo. Também quis usar a luz que refletia em objetos e pontos específicos do cenário, sem a necessidade de usar refletores e uma iluminação tão forte no rosto dos atores", explica.
O trabalho para a novela começou em meados do ano passado. Walter viajou com a equipe de "Lado a Lado" até o centro histórico de São Luís, capital do Maranhão, onde foram gravadas as cenas iniciais do folhetim de Claudia Lage e João Ximenes Braga. Nos meses seguintes, o processo continuou nos estúdios da Globo. "Feita a concepção da luz, implantei a ideia geral nas gravações externas e no estúdio. Foram quatro meses intensos. Não seria possível acompanhar a novela toda, pois tenho outros projetos para produzir", assume. Assim que terminou o trabalho no folhetim, Walter viu-se mergulhado em outro produto televisivo, a microssérie "O Canto da Sereia", exibida no início de janeiro. "Foi um trabalho muito legal, onde, além de assinar a fotografia, também operei a câmara. Isso muda toda a estrutura do trabalho, me senti fazendo um longa-metragem. Não tenho notícia de nenhum diretor de fotografia que tenha dirigido a câmara nas produções da Globo", gaba-se.
Para Walter, o grande desafio de trabalhar na televisão é o cotidiano. Ao contrário dos longas-metragens, que são exibidos em telões e no escuro dos cinemas, onde toda a atenção do público está no filme, produções televisivas rivalizam com outras tecnologias e afazeres do dia a dia do telespectador. "O mais importante é saber como a imagem vai se comunicar com essa rotina. A técnica de cinema e tevê nesses últimos trabalhos é a mesma. A preocupação e diferença é sobre como esse trabalho interage com públicos tão diversos", analisa.
Feliz com o resultado da microssérie e da novela, Walter não quer mais ficar tão distante da televisão. É com carinho que ele lembra de sua primeira experiência no veículo, a novela "Renascer", exibida em 1993 e atualmente reprisada pelo canal Viva, onde atendeu um pedido do diretor Luiz Fernando Carvalho dobradinha também feita em "O Rei do Gado", três anos depois. "É muito bom rever o trabalho em 'Renascer', uma novela de estética solar, mas densa. Acabei emendando muitos projetos de cinema, virando diretor e a televisão ficou em segundo plano", conta Walter que, entre "O Rei do Gado" e "Lado a Lado", assinou a fotografia de alguns episódios da série "Carandiru Outras Histórias", exibida em 2005 e derivada do filme dirigido por Hector Babenco.
Dividido entre a direção de fotografia e a carreira de cineasta, Walter, ao longo dos anos, vem emendando documentários e filmes de ficção. Entre seus últimos projetos estão "Budapeste", longa baseado no livro de Chico Buarque, e "Raul - O Início, O Fim e O Meio", documentário que conta a história do controverso cantor Raul Seixas. Ávido por outros formatos, este ano, Walter prepara-se para lançar um filme que mistura ficção e estética de documentário, em um projeto com o músico e dançarino Antônio Nóbrega. "O que me interessa é a imagem narrativa, não importa se são histórias inventadas ou realistas, muito menos se é na tevê ou no cinema. É importante experimentar e mostrar meu trabalho", garante.


