Arte contra a violência
Zeca Corrêa Leite
A violência que cresce a cada dia tem variadas origens, e entre elas está a televisão. Com seus programas populares, ela contribui sobremaneira para saciar a fome da brutalidade, mesmo porque é ela que atua fundamentalmente sobre a sociedade.
E o que a TV transmite ao público? O padrão de comportamento da violência física, moral, da gozação, da deturpação que a gente vê nesses programas de baixo nível. Isso claramente embrutece as pessoas.
A resposta é do diretor do Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo, José Teixeira Coelho Netto, que na semana passada esteve em Curitiba para uma palestra sobre história da arte na PUC - ele é também professor no curso de Comunicação e Artes da USP, além de crítico de arte.
Argumenta o professor que não adianta mais a gente ficar com esse discurso relativista dizendo que talvez a televisão não tenha tanta importância assim na violência. Ela tem, sim senhor. Televisão é fundamentalmente um padrão de comportamento que é passado para as pessoas.
Defensor do bom gosto do brasileiro, Coelho Netto assevera: A gente tem que acabar com essa história de que o público só gosta do que é porcaria. Isso é o que o pessoal da televisão adora fazer: Dou isso para o público, porque é disso que ele gosta. Mentira, mentira mesmo. A gente tem obrigação de oferecer uma alternativa.
A opção que ele aponta, neste caso, é a arte. Ela poderia ser um dos antídotos mais eficazes para combater o embrutecimento, pois é comprovadamente fator de sensibilização das pessoas. Mas, apesar disso, para que houvesse o caminho contrário ao caos, seriam necessários meios que propiciassem o encontro da arte com a população.
Ele lamenta a falta de programas afins, muito comuns na Europa e nos Estados Unidos. Aliás, uma das grandes tendências em todo o mundo é a instalação de arte pública nas ruas. O Brasil ainda é muito tímido nisso. Ainda estamos na era do crime cultural; o descaso pela arte não é só do governo, mas da sociedade como um todo: das empresas, dos executivos.
É preciso despertar para a importância que a arte e a cultura representam em nossos dias, reclama Netto. Todo mundo está sabendo que no século 21 a base da convivência, da condição de sobrevivência das nações e das pessoas será a cultura e a arte. Não tem outro caminho.
Está na hora da sociedade brasileira acordar para sua responsabilidade e não ficar esperando só do governo, insiste. Afinal, vivemos numa época em que não são mais a religião nem a ideologia os elementos aglutinadores, que aproximam as pessoas.
Para o diretor do MAC da USP, deve-se culturalizar as cidades. Curitiba talvez seja um pouco diferente, mas a maior parte das cidades do Brasil - especialmente onde moro, em São Paulo - são agressivas, feias, que convidam à violência. A gente poderia amenizar isso com a presença da arte nas ruas.
Quer dizer que a arte sensibiliza? Coelho Netto responde que sim: Ela abre um espaço para a pessoa escapar de uma vida comum e pensar em outras coisas, ter espaço para uma reflexão sobre coisas mais importantes. Sensibilidade é uma questão de exercício. Como o músculo. Se você não exercita o músculo, ele atrofia. Se você não exercita a sensibilidade, vira uma toupeira, vira bruto.
Isto significa que uma das saídas para se evitar o precipício estaria nos museus? Sobretudo nos museus, concorda o professor. Ele lembra que os Estados Unidos investiram na última década cerca de 3 ou 4 bilhões de dólares na construção de novos museus, se não me falha a memória. E emenda com uma indagação: Quando foi construído o último em São Paulo?





