Arte contra a censura
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 28 de março de 2018
Marian Trigueiros<br>Reportagem Local 
Além do fato em comum de serem artistas, Maikon K, Renata Carvalho, Wagner Schwartz e Elisabete Finger foram alvo de ataques durante e após a realização de suas performances, no ano de 2017, levantando questões sobre as expressões artísticas. Maikon ficou conhecido como "o homem nu da bolha", Renata, como "a travesti que interpreta Jesus", Wagner como "o homem nu do MAM" e Elisabete como "a mãe do MAM" (a mãe que permitiu que sua filha tocasse o tornozelo do homem nu). Nesta quinta-feira (29) e sexta-feira (30), os quatro reúnem-se para a apresentação inédita do espetáculo "Domínio Público", às 21h, no Teatro da Reitoria, uma coprodução do Festival de Curitiba, na Mostra 2018. O festival começou ontem e segue até o dia o dia 8 de abril na capital. A programação completa pode ser conferida no site www.festivaldecuritiba.com.br.
Neste espetáculo, os quatro se colocam diante do público sem a intermediação de plataformas digitais, telas de computador ou telefones celulares , com microfones abertos para amplificar o que sabemos sobre aquilo que as pessoas pensam. Segundo os curadores Guilherme Weber e Márcio Abreu, responsáveis por convidar os espetáculos da Mostra 2018, "é uma peça criada para abordar a onda de conservadorismo e intolerância que assolou o Brasil no ano de 2017. Dessa forma, os artistas refletem sobre as fake news, o papel da mídia, os robôs e as mensagens de ódio, Estado e religião, arte e sexo como uma resposta pública ao momento virulento que o Brasil enfrenta". Os artistas, portanto, colocam em cena a discussão sobre expressão artística, liberdade e a censura da qual se tornaram alvos de discursos radicais, com repercussão nos meios de comunicação brasileiros.

Montagem
Em entrevista concedida à FOLHA, os artistas disseram que, após receberem convite dos curadores, começaram a conversar por e-mails, videoconferência e, em seguida, houve um encontro presencial, de um mês, na Casa Líquida, em São Paulo. "Nesse espaço, criamos o texto da peça, as ações e a dramaturgia. Fizemos pesquisas na rede, em livros, filmes, músicas sobre censura, ataques que os artistas e as artes sofreram ao longo dos anos". Neste trabalho, não há uma direção geral, trata-se de uma criação coletiva em que cada artista trouxe questões de seus trabalhos e um olhar específico sobre os ataques que tiveram início em 2017. "Em um momento, entendemos que essa criação ultrapassa nossos modos de atuação usuais, criando um outro lugar para a experiência artística, que propõe um diálogo direto com o público".
Ainda não se sabe, ao certo, como se dará a apresentação: se os quatro estarão em cena ao mesmo tempo ou isoladamente. Mas o grupo adianta que a motivação é pensar em como a arte pode devolver questões nevrálgicas de forma reflexiva. "Observamos um levante de ações reacionárias que atacam explicitamente as obras de arte, ou os modos de se fazer arte, que já tem um percurso na história. Isso nos parece desconhecimento sobre os contextos em que uma obra de arte é construída e difundida. O Brasil vive uma crise econômica e política que afeta todos os setores da sociedade e a arte não ficaria de fora dessa crise. A arte faz parte das tensões sociais, as problematiza, e as incorpora, jamais passaria ilesa a uma crise dessas proporções. A grande questão é, como continuar? Uma pergunta na qual muitos brasileiros podem estar imersos, nesse momento", concluem.
Os artistas
A atriz Renata Carvalho, que estreou o espetáculo "O Evangelho Segundo Jesus, Rainha do Céu", durante a 48º FILO (Festival Internacional de Londrina), em agosto de 2016, sofreu uma série de ameaças em sua passagem pela cidade. A apresentação aconteceria na Capela Ecumênica da Universidade Estadual de Londrina (UEL), porém, movimentos cristãos e de um candidato a vereador consideraram que isso seria uma afronta à identidade de Jesus Cristo, o que levou que a reitora da instituição a alterar o local de apresentação na véspera. Em 2017, a atriz chegou a ser censurada em Jundiaí (SP), em Salvador (BA), mas foi mantida em outras cidades. Em Porto Alegre (RS), por exemplo, o juiz José Antônio Coutinho chegou a evocar o atentado ao jornal satírico francês Charles Hebdo ao negar o pedido de cancelamento de um advogado local. O texto é uma tradução da dramaturga Jo Clifford, sucesso no Reino Unido.
Em julho de 2017, Maikon K foi agredido e preso pela Polícia Militar (PM) de Brasília, durante sua performance "DNA de DAN", sob alegação de atentado ao pudor, em frente ao Museu Nacional da República. A performance fazia parte do projeto Palco Giratório, do Sesc, e foi escolhida pela artista Marina Abramovic, maior referência da performance no mundo atualmente, para integrar sua megaexposição Terra Comunal no Sesc Pompeia, em São Paulo, em 2015. Em outubro do mesmo ano, a organização da 15ª edição do Festival de Dança de Londrina trouxe o espetáculo à cidade, no qual o ator fica nu dentro de uma bolha de sete metros, enquanto seu corpo é coberto por uma substância translúcida. Por conta da nudez, a PM foi acionada após denúncias. O artista não foi levado porque o público intercedeu, formando uma barreira em torno da bolha, e não permitiu o encerramento prematuro do espetáculo.
Wagner Schwartz, ator do espetáculo "La Bête" (O Bicho), performance que dialoga com uma série de esculturas de Lygia Clark e que chegou a ser apresentada em 2016 na Mostra do Festival de Curitiba, teve seu tornozelo tocado por uma criança durante apresentação no ano passado no MAM (Museu de Arte Moderna) de São Paulo. Schwartz está nu no momento da performance e isso causou debates sobre o fato e limites da arte. Já Elisabete Finger, performer e coreógrafa, ficou conhecida popularmente como "a mãe que permitiu que sua filha tocasse o tornozelo do homem nu do MAM", embora tenha um sólido trabalho nas suas áreas de atuação. Foi artista residente na Casa Hoffmann (Curitiba, 2004), fez parte da Formação Essais no Centre National de Danse Contemporaine dAngers (França, 2005-2006), e do Programa SODA Solo/Dance/Authorship, mestrado em dança pela HZT/UdK (Berlim Alemanha, 2010-2011).
SERVIÇO
Festival de Curitiba - Domínio Público
Quando: Quinta-feira (29) e sexta-feira (30), às 21h
Onde: Teatro da Reitoria (15 de Novembro, 1299 - Curitiba)
Quanto: R$ 70 (inteira) e R$ 35 (meia)
Ingressos à venda pelo site www.festivaldecuritiba.com.br, pelo aplicativo "Festival de Curitiba 2018" e nas bilheterias oficiais do evento


