ALFABETO VISUAL Arte como instrumento de luta Rubens Pileggi Sá De Londrina Especial para Folha2 ReproduçãoDetalhe da instalação 111, de 1992, de Nuno Ramos, feita em memória dos detentos mortos na Casa de Detenção do Carandiru, em São Paulo Foi Walter Benjamin que definiu em seu famoso ensaio ‘‘A obra de arte na época de sua reprodutibilidade técnica’’ a transformação operada na função da arte na era tecnológica, pois esta deixava a ligação com o sentimento místico e religioso - como se portasse uma aura e estivesse ligada à transcendência espiritual - para se tornar política e crítica, já que seu processo de realização e a possibilidade de reprodução seriada se tornaram mais importantes do que seu valor como peça única em nossa sociedade de consumo. Desde então, com a crise das ideologias, da instituição da nova ordem mundial e do fenômeno da globalização, a idéia de uma arte engajada, muitas vezes esteve ligada às discussões políticas do momento - sejam questões raciais, das minorias, das mulheres, etc - que tentam dar à arte uma função panfletária, querendo utilizá-la como propaganda ideológica. Foi assim com Hitler, com Stálin e é assim com muitos ‘‘revolucionários’’ da macropolítica que possuem uma visão muito mais reacionária da arte do que muitos conservadores. Não é à toa que hoje, na política, as posições entre esquerda e direita parecem não comportar mais tantas diferenças. O exercício da arte já é político por si, sem precisar defender nenhuma causa a princípio. Claro que esses temas não devem ficar de fora. As questões locais, a violência, a ecologia, a distribuição da terra, a religião e tudo o que seja parte da realidade em que vivemos, é matéria de nossas inquietações, mas não se deve perder de vista, em nenhum momento, a função poética da arte, sua capacidade de surpreender, de causar questionamentos, de deslocar as certezas do senso comum. É preciso entender que ela atua dentro de territórios de ação limitados a uma consciência dos desejos, que seu resultado é perceptível na cultura não por hierarquias de poder, verticais, mas através do conhecimento e do reconhecimento do outro, de maneira horizontal, subjetivamente, sem imposições. O artista deve saber colocar as questões ideológicas em seu trabalho, mas seguindo códigos formais definidos pela história da arte. Sua visão de mundo deve ir além das fronteiras ideológicas, tocando o sensível de cada um.

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