Arte como código
de comunicação
terapêutica
‘‘Não existe a loucura. O que existe são pessoas que se fragilizam e que acabam tendo surtos e alucinações’’. É com esta afirmação que a arte-terapeuta e artista plástica Stela Schuchovski fala sobre o trabalho que desenvolveu durante dois meses no Complexo Médico Penal de Piraquara, na Região Metropolitana de Curitiba.
‘‘Fui convidada para dar aula para os internos com comprometimento mental e que cometeram algum tipo de delito’’, explica a artista. ‘‘Isso surgiu depois que estudei psicanálise durante sete anos. Pude concluir que realmente não existe loucura e que a arte pode sim ajudar na expressão destas pessoas.’’
Stela explica que a arte servia como uma forma de extravazar a energia contida, principalmente para os pacientes que não tinham muito contato com a fala e a escrita. Uma forma de descobrir novos códigos de comunicação. ‘‘É a linguagem da imagem’’, conta. ‘‘Jogando imagens, aqueles pacientes estavam falando da vida deles. E o ideal é que isso seja um processo contínuo, para evitar que eles voltem, com as paradas, para o fundo do poço’’.
Um exemplo, conforme lembra a artista, é de um dos pacientes detido por ter cometido um crime hediondo durante um de seus surtos. Estudante do segundo ano de agronomia, ele matou o pai depois de ter misturado o remédio do tratamento psicológico com uma bebida alcoólica. O quadro, pintado por ele durante a arte-terapia traz cores fortes como o vermelho, o amarelo e o azul, e duas garrafas: uma do remédio e outra do álcool, com uma caveira sobre ela.
‘‘Ele é um menino muito puro e doce’’, explica Stela. ‘‘E nunca conseguiu falar do crime na terapia. O quadro ajudou a entender o que estava acontecendo. Ele colocou a dor no desenho’’.
BISPO - Para a terapeuta, que também esteve na exposição do Bispo, em Curitiba, as obras mostraram muito mais do que arte, revelando uma forma de pensamento. ‘‘Achei que elas eram de uma grande clareza’’, lembra. ‘‘E nas horas em que ele não tinha surtos ele conseguia realmente desenvolver tudo aquilo. Acho que se a pessoa é acompanhada e medicada por um médico, e tem o remédio cortado na hora em que está bem, pode desenvolver coisas maravilhosas. Esses doentes tinham que ser mais ouvidos e menos dopados’’, conclui. (V.A.)

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