A imaginação é o limite para quem admira e pratica a arte de recortar papel, ou melhor, o kirigami. Munido de papel, tesoura e muita criatividade Ângelo César Meneghetti, 40 anos, prova com a magia dos seus recortes que o limite bidimensional de uma folha de papel é apenas a sua primeira impressão.
''Quando eu corto é um jogo de habilidade, mas quando a peça está pronta, as pessoas entram em um mundo de faz-de-conta e já remetem à figura a sua forma original. Isso aqui é uma representação de pássaro, mas elas afirmam que é um pássaro'', comentou o talentoso artista, que ontem iniciou uma série de oficinas de kirigami na Gibiteca de Londrina. Estrelas, anjinhos, jardins floridos, borboletas são apenas algumas das demonstrações do seu mundo encantado.
Autodidata, descobriu a sua habilidade para essa arte por acaso, quando em uma festa do Dia das Bruxas, de uma escola pública, foi convidado a ajudar na decoração. Formado em farmácia bioquímica, Meneghetti dava aulas de química na escola e como não havia recursos para investir na decoração, o jeito foi aproveitar o papel. ''O meu primeiro recorte foi uma bruxa montada em uma vassoura e costumo dizer que ela me deu sorte. Depois fiz as abóboras e não parei mais'', lembrou.
Um supervisora da escola, de descendência japonesa, foi a primeira pessoa que alertou o artista do que o que ele fazia era 'kirigami', arte milenar japonesa que se desenvolveu no Japão, mas é originada na China. Meneghetti nunca tinha ouvido falar desse tipo de arte e por um tempo ficou espantado ao descobrir em si mesmo um conhecimento que aflorava pela primeira vez.
Depois disso, ele começou uma intensa pesquisa sobre o assunto e foi após enfrentar um grave problema de saúde, que o levou a ficar um longo período acamado, que descobriu que o kirigami também era terapêutico: mantinha a mente alerta, concentrada e afastava o risco de entrar em depressão. A dedicação exclusiva à arte de recortar papel veio nos últimos seis anos. As aulas de química agora foram substituídas pelas de kirigami, mas engana-se quem pensa que o raciocínio lógico não é necessário. Até matemática Meneghetti cursou para se aprimorar.
''Álgebra, simetria, ângulos, raciocínio lógico, tudo isso faz parte do trabalho e é muito comum as crianças que participam das oficinas melhorarem muito nas disciplinas de cálculo. Aqui elas podem visualizar, e principalmente, aprender a criar as figuras geométricas que são apresentadas nas escolas. Elas acabam se apropriando desse conhecimento'', destacou Meneghetti, que também comentou que um participante chegou a se desenvolver tão bem em matemática que a professora reclamou que ele estava muito além dos colegas.
O curso é bem sistematizado e dividido em três fases: básico, intermediário e avançado. No início, os alunos aprendem noções de simetria e já começam a reproduzir os moldes que durante a aula vão sendo desenvolvidos. Há dois tipos de moldes: o negativo, que é o que sobra após o recorte e o positivo, que é a figura em si recortada. Em ambos os casos, os alunos podem utilizar o molde para contornar o papel base, que será dobrado, antes do corte. Ou já tentar recortar diretamente no papel. Quem não tem muita habilidade com os desenhos figurativos, uma das opções é investir nas figuras geométricas.
É o caso do técnico em eletrônica Dalton Pio Ferreira, 36 anos, que adora fazer os recortes geométricos. Ex-aluno de Meneghetti quando ele ainda dava aulas de química, Ferreira começou a recortar enquanto se recuperava de um problema no braço e passou a observar o trabalho do ex-professor. Após consultar o fisioterapeuta, substituiu o movimento que fazia com uma bolinha de borracha pelo da tesoura. ''O benefício era o mesmo, mas outra vantagem é que com o kirigami eu ficava mais relaxado'', apontou o aluno que entre os seus trabalhos, mostra com orgulho a lanterna japonesa com a base de catavento.
A dona de casa Maria Aparecida Perin Roberto, 56 anos, também está fazendo a oficina. A oportunidade veio quando ganhou o curso em um sorteio realizado por um programa de televisão. ''Fiquei encantada quando vi o trabalho do Ângelo e estou adorando aprender isso.''
O estudante Daniel Gomes dos Santos, 9 anos, já na primeira aula estava conseguindo bons resultados com a sua tesoura e os diversos papéis coloridos. ''A minha mãe ficou sabendo do curso através de um amigo dela. Estou gostando muito, mas é um pouco difícil'', ele afirmou, esperançoso em poder dar continuidade ao curso. E quem não gostaria, não é mesmo?

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