A arte étnica, o orgulho negro e as posturas de afirmação da raça voltam hoje ao centro da agenda cultural da cidade com a abertura de dois eventos simultâneos.
Na Secretaria de Cultura, a ''XVI Mostra Afro-Brasileira Palmares'' reúne telas temáticas de vários artistas na sala de exposições José Antonio Theodoro. Já na Câmara de Vereadores, inicia-se a ''V Semana Zumbi dos Palmares'' com a realização da ''I Conferência Municipal dos Afro-descendentes de Londrina''.
A coletiva de pintores será aberta com coquetel às 20h30 incluindo uma apresentação de dança da escola do professor Mumú e um show acústico do músico Doni Paraná. A exposição tem curadoria do artista plástico Fernando Martinez e é organizada pelo Movimento de Estudos da Cultura Afro-Brasileira (MECAB), fundado e presidido pelo pintor Agenor Evangelista.
A novidade desse ano é que, além das obras de artistas locais, os visitantes poderão apreciar trabalhos de pintores de São Paulo e particularmente da região de Mogi das Cruzes (SP), cuja participação foi selada a partir de uma parceria entre as Secretarias de Cultura das duas cidades.
''A mostra ficou itinerante. Foi apresentada no mês passado em Mogi e agora está chegando a Londrina. Essa mescla favoreceu uma heterogeneidade e um hibridismo de estilos, diferenciando-se da edição anterior que teve um acento fortemente primitivista'' explica Martinez. Entre os artistas reunidos na Mostra figuram Waldomiro de Deus, Lúcia Bittencourt, Nerival Rodrigues, Maurício Chaer e Frutuoso.
Há ainda a participação especial do artista moçambicano Nuno Ibra Remane, da cidade de Maputo, que traz dois quadros para a exposição. Segundo Agenor Evangelista, a Mostra ganha a cada ano mais reconhecimento nacional. Prova disso, acrescenta ele, é que nesta edição ''tivemos apoio logístico da Fundação Bienal de São Paulo para a montagem dos painéis''. A Mostra fica em cartaz até o dia 16 de dezembro.
Na Câmara dos Vereadores, por sua vez, a ''I Conferência Municipal dos Afro-descendentes'' começa hoje às 19h30 e prossegue amanhã das 8 às 17h30. O tema dos debates, ''O negro na Educação e no Trabalho: um desafio constante'', será discorrido por Mancilena Garcia de Souza (do grupo Ka-naombo) e José Maurínio (Secretaria do Trabalho do Paraná).
O tema é inflamável, afinal basta uma simples consulta aos dados estatísticos para desmontar o mito da democracia racial brasileira e expor uma ferida no tecido social do país. Ao se falar em educação, os números da exclusão são espantosos.
Para se ter uma idéia da desigualdade, a Universidade de São Paulo (USP), considerada a mais importante da América Latina em ensino e pesquisa, possui 50 mil alunos, mas apenas 2% são alunos negros brasileiros. Segundo o IBGE, mais da metade dos afro-descendentes param de estudar no decorrer de sua formação escolar.
A forma desproporcional de oportunidades repete-se na questão profissional. De acordo com os dados do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), orgão do Ministério do Planejamento, estima-se que os negros brasileiros ocupem apenas 1% dos postos estratégicos do mercado de trabalho. A mesma pesquisa revela que, entre dois candidatos igualmente qualificados, o branco tem 30% mais chances de conseguir ocupação do que o negro.
O assunto, como se vê, é indigesto para quem vê o Brasil como o paraíso da harmonia social e racial. A conferência é organizada pelo Conselho Municipal da Comunidade Negra de Londrina.

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