Arte com portas abertas
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 23 de abril de 2003
Dib Carneiro Neto<br> Agência Estado 
Um suspiro de admiração diante dos mistérios da criação artística. Assim é como a premiada escritora Ana Maria Machado define o resultado de sua empreitada ao criar um texto com base nas pinturas de Candido Portinari. O livro é ''Portinholas'' e marca a estréia da autora na editora Mercuryo Jovem.
A personagem principal, uma menina que sonha com portinholas encantadas que a conduziriam para muitas paisagens e brincadeiras, acaba descobrindo que, ao admirar os quadros de Portinari, nenhuma porta mais será necessária para ela entrar ou sair: ''aqueles quadros é que entravam nela, numa espécie de mágica maior''.
Independentemente dos 100 anos de Portinari, você diz no início do livro que sonhava há anos com uma obra sua ilustrada pelos trabalhos dele. É o seu preferido? Qual sua ligação com a obra dele?
Não é porque seja meu preferido, é porque eu já tinha feito histórias a partir das obras de outros artistas (Volpi, em ''Era uma Vez Três'', artistas populares em ''Peleja'', Modigliani em ''Anjos Pintores'' e o catálogo infantil em áudio da mostra ''Picasso - Anos de Guerra''), já tinha traduzido e adaptado livros infantis para a Editora Salamandra sobre Monet, Van Gogh, Renoir. Como Portinari é um dos mais celebrados artistas brasileiros, e com uma obra figurativa variada, sempre achei que se prestaria a um bom trabalho para crianças.
E qual a sua ligação pessoal com as artes plásticas?
Minha ligação é total. Sempre gostei de levar filhos e sobrinhos a museus e exposições, ver arte com eles, deixar o olhar passear pela obra. Sou primordialmente uma pintora, estudei pintura alguns anos (no Museu de Arte Moderna do Rio e de Nova York), fiz exposições, pinto há mais de 40 anos, até hoje, mesmo sem expor mais. Frequento museus, acompanho exposições, gasto mais do que devia em livros de arte. De vez em quando, retomo algum estudo na área - há dois anos, por exemplo, fiz curso de desenho na Escola de Artes Visuais do Rio. Arte faz parte integral da minha vida, não dá para me imaginar sem ela.
Por falar nisso, como se deu ao longo de sua carreira sua relação com os ilustradores de seus livros? Você troca idéias antes ou deixa que seu texto fale por si? Um ilustrador, no seu entender, é um co-autor dos livros infantis, ou seja, nesse gênero literário texto e ilustração têm o mesmo peso?
Não dá para generalizar, cada caso é um caso. No momento, estou muito satisfeita com os mais recentes, que vou autografar em maio, na Bienal do Rio: Elisabeth Teixeira em ''Abrindo Caminho'', Nelson Cruz em ''De Carta em Carta'', Claudio Martins em ''Tesouro das Cantigas'', Odilon Moraes em ''Histórias à Brasileira'', Lucia Brandão em ''Do Outro Mundo''. Com uns troco idéias, com outros não. Alguns podem ser co-autoria (minha série ''Mico Maneco''), outros não.
Você também diz, na apresentação do livro, que quis explorar as diferenças entre expressão pessoal e criação artística, ''sem dar impressão de aula''. Intenções didáticas prejudicam os livros infantis ou todo livro para crianças deve ter um objetivo educativo, ainda que velado?
Acho que, em geral, o objetivo educativo, mesmo velado, atrapalha.
Gostaria que você tentasse responder a uma das perguntas que faz na apresentação do livro: Que milagre transforma uma obra que retrata apenas o que está dentro de seu autor em uma obra em que a humanidade cabe dentro? Ou seja: qual a chave para se transformar o pessoal em universal?
Não faço a menor idéia , acho que é aí mesmo que está grande parte do mistério da criação.


