Arte com identidade humana
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 21 de maio de 2003
Katia Michelle Pires<br> Equipe da Folha 
Curitiba - Mais do que uma discussão sobre a obra que apresenta, o trabalho do artista plástico, músico e jornalista Bené Fontelles levanta o infinito questionamento sobre a definição da arte. A apropriação de imagens, objetos e materiais que estão na natureza ou foram criados pelo homem para uma função específica, que não a obra de arte, são dispostas por ele na exposição ''O Ser na Casa'' que abre hoje na Casa Andrade Muricy, em Curitiba. Se o trabalho exposto é arte ou não, cabe ao espectador definir.
O artista expõe 12 sudários e inúmeros objetos de uso pessoal e recolhidos pelo País, a maioria no Nordeste. Os sudários são os panos utilizados para embrulhar os mortos, mas também podem ser definidos como os lenços usados para enxugar o suor ou aquele histórico tecido marcado pela imagem de Jesus Cristo. No caso da exposição em questão, Fontelles utilizou colchas e edredons usadas por ele próprio ou doados por amigos para reproduzir seu próprio corpo. O contorno ele cuidou de preencher com fios de algodão, de lamparina, pó de conchas do mar e até peles de bovinos numa espécie de protesto contra os animais abatidos para alimentação do homem.
Os sudários de Fonteles são apenas parte da extensa mostra que o artista apresenta depois de 21 anos sem expôr em Curitiba. As outras salas da Casa Andrade Muricy são preenchidas por obras bastante curiosas em seu sentido artístico. São pedaços de rede de pesca colecionadas pelo artista em suas caminhadas pelo litoral brasileiro; tiras de borracha vendidas em feiras nordestinas; telas em branco manchadas pelo tempo e deixadas pelo artista plástico baiano Rubem Valentim depois de sua morte, há 12 anos, e materiais em ferro e alumínio, como formas de assar pão, que o artista se apropria para formar uma imagem única.
''Minha intenção é valorizar a arte popular'', explica o artista. Ao mesmo tempo que reuniu materiais em suas andanças e viagens, Fontelles lança mão de objetos pessoais para transformá-los em obra de arte. Roupas que vestiu por muito tempo e sandálias que o acompanharam em seus roteiros fazem parte da exposição. ''Tudo tem um sentido, nada foi pego ao acaso'', diz o artista.
Uma cadeira em ferro marcada pelo fogo, por exemplo, tem um sentido especial. Ele conta que em 2000 sofreu uma queimadura no rosto e em várias partes do corpo por causa de um acidente com uma panela de pressão. ''Foi quando comecei a fazer os sudários e a utilizar o algodão nas obras, a arte foi uma terapia'', revela. A cadeira, nesse caso, recuperada em um incêndio de uma reserva indígena lembrou-lhe essa situação.
Outra curiosidade da mostra é uma banqueta de couro, colocada cuidadosamente ao lado de um buda disposto em uma vitrine e sob um machado indígena pendurado no teto. A instalação encontra-se na sala dos sudários ''vestidos'' com couro animal. ''O banquinho é para o público sentar e sentir o próprio buda em contemplação'', diz, rapidamente complementando. ''Quero dizer que essa é uma sugestão, mas quem decide é o público. Cinquenta por cento da exposição quem faz são os espectadores''.
São eles, os espectadores, que decidem se vão contribuir ou não com alguns conceitos do artista. Em uma das salas ele colocou ratoeiras de tela de arame feitas no Ceará. Embaixo dos objetos a célebre frase de Gandhi ''todo aquele que tem coisas que não precisa é um ladrão''. A intenção é convidar o público a deixar nas ratoeiras coisas que não precisa mais. Os objetos de valor serão doados ao Projeto Fome Zero.
Bené Fonteles nasceu em Bragança, no Pará, em 1953. Começou a expôr o seu trabalho a partir da década de 70, em Fortaleza. Já realizou dezenas de exposições no Brasil e no exterior, incluindo uma retrospectiva de toda a sua obra intitulada ''A Casa do Ser'' no Museu de Arte de São Paulo, em 1990. Como escritor editou ''O livro do Ser'' (Editora Vozes-1994) ;''Giluminoso - a po.ética do ser'' livro/cd sobre Gilberto Gil (UNB-IMprensa Oficial-1999) e Rubem Valentim-Artista da Luz ( Edições Pinacoteca do Estado de São Paulo, 2001), além do recente ''Ney, Ousar Ser'', que traz biografia e fotos do cantor Ney Matogrosso. Como compositor gravou os discos ''Bendito''/83 e ''Aê''/91 com participações especiais de Luiz Gonzaga, Egberto Gismonti, Tetê Espindola, entre outros.
Desde 1987 Bené também é coordenador do Movimento Artistas pela Natureza que realiza por todo o país seu ''Projeto de educação ambiental e consciência ecológica através da arte''.
Serviço: ''O Ser na Casa'', de Bené Fonteles. Abertura hoje, às 18 horas na Casa Andrade Muricy (Alameda Dr. Muricy, 915). Visitas guiadas com o artista no dia 25, às 11 horas e no dia 27, às 19 horas. A exposição ficará aberta até o dia 14 de junho. Entrada franca.


