ARTE CIRCENSE - Uma comunidade sobre rodas
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 15 de setembro de 2003
Ana Setti Rosa<br> Reportagem Local 
''Gosto mais quando as pessoas me aplaudem'', afirma a ginasta Anastácia, de cinco anos de idade, referindo-se ao que mais aprecia na vida que leva no circo ''Mundo Mágico de Beto Carrero'', em temporada na cidade até o dia 28 de setembro, com apoio cultural da Folha de Londrina. Diz isso depois de fazer uma rápida performance para as fotos e antes de sair correndo, levada pelos pais equilibristas, o russo Roman Jidkov e a argentina Érika Evelin, para a escola. Assim como Anastácia, outras crianças e adolescentes, num total de 20, filhos e filhas de integrantes da comunidade circense vão e vêm, pela manhã e à tarde, rumo a colégios particulares e públicos nas cidades onde estão naquele período, amparados por uma lei que lhes permite as inúmeras transferências e os períodos mais curtos ou mais longos em diferentes bancos escolares.
Essa formação em capítulos é encarada com naturalidade pelas crianças, que, em geral, são muito bem recebidas pelos colegas, até por serem do circo uma novidade que sempre causa curiosidade e admiração , e com muita seriedade pelos pais. Como conta Paulo Robatini, segunda geração de tradicional família circense e que, depois de ter atuado como trapezista, malabarista e palhaço, trabalha atualmente no setor promocional do ''Mundo Mágico'', um mês antes de o circo chegar à cidade ''segue um secretário para cuidar da parte burocrática da atividade'', mas sua mais importante função é localizar e relacionar as escolas próximas, para orientar as escolhas dos pais que estão chegando.
A formação levada com tanto rigor, no entanto, raramente resulta em opções universitárias. A maioria dos jovens acaba preferindo seguir carreira no próprio circo. É o caso de Rui Bartolo Júnior, o ''domador'' da mais ''mimosa'' das atrações do ''Mundo Mágico'', o baby elefante, na verdade ''a'' baby elefante, já que responde pelo nome de Tânia, e, como veio dos Estados Unidos, só ''entende'' o idioma inglês. Rui tinha 10 anos de idade, quando o pai o levou para perto de um elefante e, desde então, se apaixonou pela função. ''Ligeirinho'' ou Manoel de Albuquerque Silva, o motorista trapalhão da ''Ferrari'', utilizada pelos palhaços do ''Comando Maluco'', já conta com seu filho mais velho, de 15 anos, atuando junto com ele, na pele do engraçado ''Beliscão''. Sexta geração de família circense, o cearense Manoel chegou a tentar interromper a tradição, ''mas não consegui'', confessa, complementando que ''sua formação foi e é o circo'' e sua maior alegria continua sendo ''pintar a cara e ver uma criança feliz''.
Esse fascínio, no entanto, tem seu lado áspero, relacionado às exigências do viver errante de uma comunidade circense. São cerca de 130 pessoas viajando pelas estradas, a percorrer cidades do Brasil e da América Latina, às vezes seguindo juntas num extenso comboio, outras vezes fazendo o percurso em grupos separados. Quando chegam para uma temporada, precisam se adaptar ao terreno disponível, nem sempre o mais adequado e, por isso, os traillers se amontoam, formando, em vez de ruas, verdadeiros labirintos.
Se está chovendo, então, ''as mulheres são as que mais sofrem'', reconhece Paulo, pois o chão de terra batida transforma-se em lama movediça e aí não há ''casa'' que pare limpa. O espetáculo também não pode esperar que o tempo melhore e a equipe técnica serralheiros, pintores, eletricistas, marceneiros, entre outros profissionais especializados , além de 30 a 40 pessoas contratadas pelo circo em cada local onde se apresenta, ''têm de armar a lona de qualquer jeito'', diz Paulo, ''é sim ou sim'', não há opção.


