Nenhuma comparação é melhor do que a de alguém que traz no rosto a máscara do riso ao afirmar que o Cirque du Soleil é uma fábrica de sonhos, que o faz pensar sempre como é bom poder ser um operário onde o que mais se faz é sonhar.
''Para mim é como se eu sonhasse todos as noites e, no outro dia, o circo colocasse o meu sonho no palco'', comenta o palhaço Marcos de Oliveira Kazuo, único brasileiro do elenco de ''Alegría'', espetáculo da maior companhia circense do mundo, que está se despedindo do público paranaense para alegrar platéias em Brasília, Belo Horizonte, Rio de Janeiro, São Paulo e Porto Alegre - capitais que fazem parte da turnê nacional da montagem.
Ao conquistar um lugar entre as estrelas de ''Alegría'', Kazuo, que está há seis anos no elenco, revela que aprendeu a sonhar e a fabricar sonhos com o artista londrinense Oscar Espíndola, o Xupetin, considerado por ele um dos melhores palhaços do mundo.
No começo da semana, Kazuo visitou o amigo em Londrina, levando para o Soleil um DVD com a atuação do mestre e de outra artista circense, uma revelação londrinense.
Antes de entrar para essa fábrica de sonhos, transportada por 60 carretas carregadas com 800 tolenadas de equipamentos, Kazuo era atleta de ginástica olímpica e capoeira em São Carlos (SP).
Até que se inscreveu para uma audição do circo do ator Marcos Frota, que estava selecionando acrobatas.
''No dia seguinte, eu já estava no picadeiro. Quando me convidaram para integrar o elenco, disse: 'Se for para viajar com o circo, eu topo''', lembra Kazuo, contando que no início enfrentou preconceito de algumas famílias circenses, já que a tradição do mundo sob a lona reza que filho de palhaço se torna palhaço, filho de mágico vira mágico...
''Eu era um artista, mas não era circense e as pessoas achavam que estava tomando o emprego de alguém'', comenta o palhaço, que depois de entrar embaixo da lona do circo não quis mais sair.
Nessa época, Kazuo conheceu Xupetin, que ajudou a mudar o enredo da história de um acrobata que caiu na graça do riso.
''O Xupetin me dizia que eu era um talento e que deveria ser palhaço. Li o livro do Constantin Stanislavski, 'A Preparação do Ator', que abriu também um caminho. Disse a mim mesmo que iria procurar esse caminho do ator. O Frota ainda comentou que muito ator precisa de técnica e treino para ser palhaço, mas que outros, como eu, já nascem palhaços'', recorda Kazuo sobre o incentivo, que coincidiu com uma audição no Soleil.
Ele conta que ao revelar para os amigos que pretendia participar da seleção, os comentários demonstraram a distância que o separava do sonho, mas, fazendo parte daqueles que nascem com nariz de palhaço, o brasileiro conseguiu integrar o elenco da fábrica de sonhos, o Cirque du Soleil.
Durante dois anos, nos Estados Unidos, atuou como acrobata do número ''Russian Bars'', do Soleil, em que os performers se equilibram uns sobre os outros em saltos sincronizados e giros precisos.
Atualmente, o palhaço interpretado por Kazuo, inspirado em pessoas que convivem com o artista, faz várias entradas durante o espetáculo.
''O meu palhaço é muito simples. Um número que criei com o artista espanhol Antônio Moreno, com quem atuei durante dois anos. O Moreno trabalha muito com bufões e clowns, sendo uma escola para mim, como foi o Xupetin. Acho que com esses dois fui muito bem encaminhado na arte circense'', avalia o palhaço, que também se inspira em suas criações na esposa Talita, uma sansei que conheceu durante a turnê do Soleil no Japão.
Kazuo comenta que o Soleil transmite uma imagem de perfeição e magia que não deixa de ser verdade quando é comparada com a disciplina e o rigor com que os números são treinados à exaustão.
''Assisti aos DVDs de todos os espetáculos do Soleil. A gente fica assustado com a perfeição, a técnica, a música e a iluminação. É um sonho. Ao vivo, a gente vê que é melhor ainda. Mesmo sendo um artista do Soleil, acho tudo muito perfeito. Vi também que somos humanos, que erramos, mas os erros no palco são recompensados com aplausos, quando o artista retoma o número'', afirma Kazuo.
Para ele, o circo tradicional frente às companhias modernas nunca morrerá.
''O circo tradicional somente vai morrer se um dia as crianças acabarem. O circo é a mãe de todas as artes'', conclui o operário do sonho e do riso.

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