Arte apocalíptica
Francelino França
De Londrina
As palavras do Apocalipse, último livro do Novo Testamento e, atribuídas a São João, o Evangelista, sempre foram desafiadoras e enigmáticas. E neste final de século, quando tantas profecias feneceram, esse livro profético ganha novo polimento.
Mas não somente as palavras, mas o sentido de morte e renascimento, camuflados em enigmas, que se redimensionaram. Afinal, esse é nosso destino, nascer e morrer todos os dias e de todas as formas. O apocalipse pode ser tanto a Guerra do Golfo transmitida pela TV, como o nascimento de uma nova hemácia, incumbida do delivery do oxigênio.
A artista plástica Letícia Faria verteu para a linguagem da pintura o famoso livro do Novo Testamento. Isso se deu no início dos anos 90. As palavras formaram a ponte para a criação de 33 obras. Cada segmento bíblico escolhido recebeu uma leitura em separado. Como prefere frisar, ela se apropriou das imagens literárias, remeteu a sua vivência, traduzindo em linguagem plástica. Letícia avisa, seu trabalho não é uma ilustração do Apocalipse. Essa é mais uma etapa de um processo, em que a palavra potencializou a criação artística.
Em determinado momento, ela sentiu necessidade de deixar registrada essa fase num livro. Bancou o sonho até tomar forma concreta. Hoje, finalmente, ela fará o lançamento do livro. Das 33 obras registradas graficamente, 4 estarão expostas. O Apocalipse, de Letícia Faria, contou com o trabalho do designer gráfico Bernardo Faria, há 21 anos integrado ao processo criativo da artista, sua mãe. Dá satisfação poder deixar nossas marcas, diz com um brilho intenso no olhar, certamente se referindo aos filhos e ao livro.
Distante das conceitualizações cristalizadas judaico-cristãs sobre o tema, Letícia Faria crê que as manifestações apocalípticas acontecem todos os dias. Às vezes, com a nossa atuação ou não, filosofa. Que tipo de sensação uma ou várias telas da artista podem provocar? Para ela, o poder do artista reside em dar luz às escavações profundas, para que o espectador ache restos arqueológicos e tome consciência de si mesmo. Neste sentido, Letícia Faria é uma antropóloga das sensações. As imagens estão imbuídas de sensações que se aproximam do que é inominável, sentencia. Juntamente com o registro gráfico de suas telas, há o registro poético feito pela artista plástica sobre cada tela, denominado Poemas Plásticos.
Também hoje, a artista abrirá a exposição das obras Marias. Neste século, quem botou a boca no mundo foram as mulheres, ou melhor, as Marias. Segundo a artista, as mulheres são detentoras de uma maior maleabilidade de se movimentar diante da vida, em relação aos homens. E a exposição Marias, de Letícia Faria, redefine plasticamente as várias Marias que orbitam em nossa existência. Usando técnica mista, se valendo de vários elementos existentes no ateliê (esperando pacientemente ganharem nova utilidade), foram criadas obras tridimensionais para parede. Desde papéis floridos, até lâminas de mogno, cedro e marfim foram usados. As Marias desta exposição nunca apareceram em público, e como todas as Marias, foram batizadas após o nascimento. Maria Vai Com as Outras, Maria Passarinha, Maria Batalha, Maria Lavapé, Maria Czarina, e mais outras Marias. São 13 no total, número carregado de significados para a artista.
O lançamento do livro Apocalipse (edição bilíngue), de Letícia Faria, e Marias, exposição de 13 obras em técnicas mista, acontecem hoje, a partir das 18 horas, na Brentwood, Rua Goiás, 1.774, Londrina PR. No dia 14 de dezembro, acontecerá o lançamento do livro no Museu de Arte Contemporânea, durante o 56º Salão de Arte Paranaense, em Curitiba.Letícia Faria lança hoje em Londrina o livro de arte Apocalipse e abre a exposição Marias
ReproduçãoA série Maria Vai Com as Outras compõe a exposição que Letícia Faria abre hoje em Londrina fazendo um tributo à mulherReproduçãoO 1º Selo (acrílica sobre tela) - Uma das obras de Letícia Faria que integra o livro Apocalipse





