Arte além das implicações visuais e didáticas
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 28 de novembro de 2001
Rubens Pileggi Sá <br> De Londrina <br> Especial para a Folha 2 
Segunda-feira neste caderno, lendo a resenha de Marcos Losnak sobre literatura infantil e infanto-juvenil, o autor nos diz, no último parágrafo do seu texto, que as dificuldades iniciais de aprender o ''alfabeto visual'' são as mesmas que temos para aprender o ''alfabeto gráfico (a b c d)''.
Pois bem. Como esta coluna se chama justamente ''alfabeto visual'', alguma análise, a título de comparação, pode ser feita entre o enunciado acima e conjunto de textos até agora escritos neste espaço, uma vez que a linguagem desenvolvida sempre procurou alimentar ''a imaginação, a sensibilidade, a percepção, a emoção, a inventividade e o conhecimento, de maneira geral''. Mas, last but not least, tal idéia que pressupõe uma didática, em se tratando de ''alfabeto'' e, mais ainda ''visual'', em relação ao senso comum sobre o entendimento das artes plásticas vem se deixando contaminar por pensamentos de ordem filosófica, política, econômica, social e científica, o que amplia a discussão para além da esfera da visualidade e das questões formais.
Talvez se pudesse correr menos perigo tentando dar lições de história da arte ao leitor interessado em satisfazer sua necessidade de conhecimento. Mostrar a evolução dos estilos, a sucessão dos períodos históricos, fazer análises formais de pinturas clássicas e falar da arte como um corpo de relações separadas do mundo onde está inserida. Como conhecimento ilustrativo. Mas para isto existem os livros e é esta a obrigação da academia. O que se tenta mostrar aqui é que não há estética desvinculada da ética. E nenhuma forma desvinculada de conteúdo. O que fez com que o nosso compromisso e risco assumido fosse, desde o início, pensar a inter-relação entre arte e cotidiano, em conjunto com as regras e modelos de que dispomos para compreender a realidade.
Escrever, descrever, narrar e mostrar o acontecimento e o seu contexto é responder às questões básicas do jornalismo diário: ''quando, como, onde, quanto, para quê e por quê''. É pegar o acontecimento no pulo e suas possíveis implicações. Como uma foto provando o fato. É conjecturar, projetar, ter um súbito entendimento da situação, como em um hai-kai e sua abertura para a imagem e para a imaginação. É fazer também história. Assim, se a leitura de e sobre arte exige mais do leitor, sua compensação vem do fato de tornar-se, também, mais estimulante. Tal é o questão que a arte contemporânea coloca e que nos deixa à vontade para pensar seus caminhos e conexões.
São circuitos que vão além dos visuais para tocar em outros sentidos e percepções físicas, mentais e espirituais, cujas ramificações, aos poucos, vamos nos dando conta. Quer dizer, não é só o buraco na terra que o sujeito escavou, a merda que outro embalou, a carne atirada nas ruas, o sangue vertido em performance, o deslocamento de uma percepção comum, o vigor ou beleza de um traço, de um gesto, de uma cor, mas também porque alguém faz isto, o que é que isto pode servir à minha, à sua vida, que implicações isto tem com o mundo, com o planeta, com a sociedade.
Partimos de uma concepção de que arte com A maiúsculo e autônoma era uma utopia do modernismo do começo do século passado para trás e não podemos nem devemos ser ingênuos e simplistas a ponto de pensar que os artistas, para criar, só dependem de sua inspiração. Mostrar como isto se dá tem sido a orientação desse nosso ''alfabeto visual'' que, sem vender a ilusão de ser o dono da verdade, caminha entre certezas e dúvidas de que as artes plásticas e os escritos de arte incluem, também, o fenômeno perceptivo visual. E além. É este, pois, seu mérito e desafio fundamental.
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