ARTE A SERVIÇO DA CIDADANIA
Elisa Marilia Carneiro
De Curitiba
Aconselhado a se mudar de Cuiabá, o escultor prepara várias obras no Paraná. Entre elas, 14 estátuas sacras para Londrina e uma homenagem ao trabalhador da cantaria, para Quatro Barras
O juiz mato-grossense Leopoldino Marques do Amaral, assassinado no dia 7 de setembro, depois de denunciar a corrupção no sistema judiciário, escreveu cinco livros. Quatro já foram publicados. O quinto, ainda sem título definido, deve ser lançado no próximo ano. Mas a capa já está pronta. Será uma fotografia da obra Monumento à Injustiça do escultor paranaense Jonas Lima Corrêa Neto. As duas obras expressam a mesma indignação: o desrespeito pela Cidadania e pelos Direitos Humanos.
Segundo o escultor, o conteúdo das obras é o mesmo: desnuda a corrupção estabelecida em alguns fóruns cíveis do País e expõe a indignação dos menos favorecidos. Antes de ter sido assassinado, o juiz havia pedido autorização ao escultor para usar a obra ilustrando a capa do livro. Hoje, Jonas Lima vive em Quatro Barras, na Região Metropolitana de Curitiba. Fui aconselhado a me mudar, com a minha família.
A escultura, que está na Praça da República, em frente à Igreja Matriz, no centro de Cuiabá (MT), tem uma história intrigante e de coragem. Em 1994, Jonas foi contratado pelos juízes Aparecido Chagas e Tadeu Curi, respectivamente diretor e vice-diretor do Fórum Cível de Cuiabá, para fazer uma escultura para a nova sede do Fórum.
Uma estátua da Deusa Thêmis da mitologia grega com 4,5 metros de altura simbolizando a justiça e a esperança de quem entra no prédio, foi entregue para a inauguração do prédio em novembro de 1994. As pessoas têm de passar por baixo do braço da deusa estendido com a espada, para entrar no Fórum de Cuiabá.
Mas Jonas não conseguiu receber o total da dívida do trabalho que lhe consumiu quase um ano de dedicação. Ficaram faltando US$ 3 mil, dos US$ 10 mil combinados. Nesse meio tempo o Fórum mudou de diretoria, invertendo os papéis de diretor e vice-diretor, mas sempre prometiam o pagamento, reconhecendo a dívida.
Jonas recebeu parte do pagamento com cheques de empresários. Um deles, equivalente a R$ 2 mil, da Construtora Encol. Mas não fiz qualquer acordo com empresários e sim com diretores do Fórum, confirma. Jonas lembra que alguns empresários ainda tentaram negociar a dívida por R$ 5,2 mil em troca de o escultor negar as acusações feitas aos dirigentes do Fórum, que afirmam não ter nenhum acordo com o escultor. Isso eu jamais faria. Minha dignidade não tem preço, retruca.
Em protesto, e para colocar a população a par do que estava acontecendo, Jonas jogou, durante uma madrugada, uma lata de tinta negra na escultura. A mancha desceu da cabeça até os pés. Agora minha obra estava completa. A justiça como ela realmente é: manchada, suja.
Pela ousadia, Jonas foi condenado a seis meses de detenção. Mas o autor tem o direito de interferir na sua própria obra, como está descrito na Lei do Direito Autoral. Não fui um vândalo nem destruidor do patrimônio público como me acusaram. Amigos solidários ao escultor pagaram uma fiança de R$ 50,00 e ele foi liberado.
Nessa mesma época, os dirigentes do Centro de Direitos Humanos Henrique Trindade, de Cuiabá, encomendaram ao escultor, uma estátua em comemoração ao Dia Internacional dos Direitos Humanos. Depois de muito refletir, Jonas Corrêa resolveu pelo Monumento à Injustiça.
É a mesma Deusa Thêmis, do Fórum. Mas agora, vestida como uma prostituta é vulgar; usa salto alto é prepotente; está sentada sobre as tábuas das leis e sobre os suplicantes por justiça é indiferente; sua espada está em repouso não ameaça ninguém; na balança desequilibrada, pesa o ouro é gananciosa; sua base é a bandeira brasileira atinge todo o País; aos seus pés estão um homem negro, velho e desesperançado e uma menina entregue à sua própria sorte é indiferente; no colo, há um índio morto abandonado é arrogante. Uma doação do escultor, a escultura foi instalada na praça no dia 10 de dezembro de 1996, Dia Internacional dos Direitos Humanos.
Essa estátua tem o mesmo espírito do Amaral. É crítica, combatente e polêmica, reconhece a viúva do juiz Leopoldino do Amaral, a advogada Rosemari Monteiro. Ela conta que a estátua é um referencial para a população de Cuiabá. As pessoas olham e param em frente a ela. Quem não tiver acesso aos livros e à imprensa, basta olhar a escultura e imediatamente vai entender e reconhecer os problemas sociais do País.
A arte, segundo Rosemari, tem o papel fundamental de levar às reflexões. Mais do que qualquer coisa, esse trabalho do Jonas retrata o conteúdo dos livros do Amaral. Parece que foi feito sob encomenda. O Amaral gostava tanto, que tinha uma réplica em miniatura na mesa de trabalho. Há uma crise moral que assola o País e temos o dever de descortinar ou pelo menos avisar que isso não acontece sem que as pessoas saibam.
Jonas Lima Corrêa Neto é natural de Pinhalão, no Norte pioneiro do Paraná. Foi criado em Curitiba e depois de casado foi trabalhar em Cuiabá como instalador da Telefonia de Mato Grosso. Mas nunca deixei de fazer esculturas. Sempre gostei.
Em 1986 começou a dedicar-se integralmente à escultura. Fez diversos trabalhos em Cuiabá. Agora, tendo de sair da cidade, veio morar em Quatro Barras. Já tem diversos trabalhos encomendados, como uma instalação para a entrada do município de Quatro Barras, retratando o profissional da cantaria; e 14 esculturas sacras entre elas uma do Cristo ressuscitado para a Igreja Nossa Senhora Auxiliadora, em Londrina.
Em Curitiba, Jonas estudou no Colégio Estadual do Paraná, onde frequentou a Escola de Arte. Foi na escolinha do Estadual que comecei a desenvolver a escultura, com o professor Sérgio Del Giacoma, lembra.
O próximo trabalho do escultor será uma escultura para ser colocada no túmulo do juiz Leopoldino Marques do Amaral, em Cuiabá. O trabalho foi encomendado pela viúva e Jonas Corrêa adianta que está estudando um trabalho como um Pensador, de Rodin.





