ARTE - A liberdade possível
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 13 de agosto de 2004
Jackeline Seglin<br> Reportagem Local 
Será possível falar de cidadania, discutir dominação e poder, resgatar a auto-estima e praticar a liberdade dentro de um sistema penitenciário? Talvez. Um caminho pode ser a arte, um meio que vem revelando atalhos para tais possibilidades nos mais variados segmentos excluídos socialmente.
Esta semana, um novo resultado de experiências com arte nesses ambientes foi apresentado no encerramento do 1º Seminário Londrinense de Tratamento Penal e abertura da Semana do Encarcerado da Penitenciária Estadual de Londrina (PEL). É o projeto ''Criando Liberdade'', que começou em abril e será desenvolvido até dezembro, por uma equipe formada por Ed Sombrio, Letícia Ferreira, Cristiano Bezerra e Natasha Labastia.
Patrocinado pelo Programa Municipal de Incentivo à Cultura (Promic), esse projeto de oficinas de teatro e artes plásticas tem como proposta desenvolver a expressão, a liberdade de criação e a ambientação como formas de realização dos direitos humanos no ambiente prisional.
A estréia do espetáculo teatral ''A Roupa Nova do Imperador'', na quinta-feira, reuniu um grupo de 12 internos da PEL que mostraram o trabalho a convidados. Novas apresentações estão agendadas para amanhã e dias 21, 22, 25 e 26, para internos e familiares.
O texto do dinamarquês Hans Christian Andersen conta a história de um imperador egoísta e vaidoso, que vivia adquirindo novos trajes enquanto cobrava altos impostos do povo. Dois malandros dão uma lição no rei ao fazê-lo acreditar que a roupa nova era feita com um tecido maravilhoso, invisível aos olhos de pessoas estúpidas e incompetentes. A fábula foi adaptada por Ed Sombrio, diretor do espetáculo junto com Letícia Ferreira. Cenários, figurinos e adereços são de Cristiano Bezerra, com colaboração de Ricardo Cassela, e as máscaras foram produzidas por Natasha Labastia junto com os participantes.
O resultado do trabalho está no rosto de cada interno e das pessoas da platéia. Está no sentido que a rotina dos jovens internos passa a ganhar. ''É a melhor coisa que acontece aqui dentro. Estou há três anos sem visita, nunca mais abracei ninguém. Agora a gente vê as pessoas aplaudindo, parabenizando, retribuindo um carinho'', comemora Sinivaldo Neves, 28 anos, que já participou de oficinas realizadas na PEL durante o Festival Internacional de Londrina (Filo).
Ricardo Cassela, 26, deve também às várias participações em oficinas de teatro um trabalho garantido na ONG Círculo das Artes, parceira em projetos culturais na PEL. ''Estou aguardando a condicional para sair e trabalhar com artes plásticas. Nunca é tarde'', diz Cassela. Quem também teve a arte e a cultura como aliados na reintegração à sociedade foi João Batista de Souza, 26, que deve sair da PEL em breve, com uma oportunidade de trabalho assegurada pela ONG.
Se alguns dos internos já puderam experimentar atividades com teatro antes, outros têm o primeiro contato com as artes no projeto ''Criando a Liberdade''. Fernando Litran, 22, pretende levar o trabalho adiante. ''Essa atividade ajuda muito aqui dentro. Desde pequeno estou no mundo do crime. Uma hora cansa e você quer fazer outra coisa. O teatro é um passo para a gente se reintegrar à sociedade. Pode ser um novo caminho''.
Ainda agitado pela estréia, Heuler Johnny, 28, não consegue desfazer o sorriso. ''Estou achando o máximo esse trabalho, que é o primeiro de muitos que virão'', diz o rapaz, que inicialmente não queria fazer a oficina. ''Nunca tive interesse. Mas o trabalho tem me ajudado muito. Eu era travado, tinha problemas em me comunicar. Quem diria que estaria aqui conversando agora...''.
O grupo também é formado por Henrique dos Santos, Jonas da Silva, Sidney dos Santos, Izael Ferreira, Ivandro Lopes, Maicon da Silva e Vanderlei Agapito.
O diretor da PEL, Raimundo Hiroshi Kitanishi, inicialmente duvidou que o grupo daria andamento ao trabalho, mas surpreendeu-se. ''O pessoal teve a rotina transformada''.
Ed Sombrio avalia que o resultado do trabalho tem sido ótimo, a começar pela surpresa de ter 80 inscritos para o projeto. ''Não esperava essa demanda. Poderíamos ter um número máximo 40. Estamos com duas turmas de 20'', diz.
Para ele, o mais interessante no processo é a ligação humana. ''É um dos poucos momentos de quebra da rotina deles''. Na opinião dos coordenadores, as oficinas atraem e comprometem o grupo. ''Presos separados pela classificação de seus crimes em alas que sequer podiam se encontrar, a não ser sob rígido esquema de segurança, no ambiente da oficina se reconhecem em suas individualidades e potencialidades, e se respeitam''.


