Internado como louco, o poeta, dramaturgo e ator francês Antonin Artaud (1896-1948) é tema do monólogo ‘‘Cartas de Rodez’’, que estreou dia 1º no Rio discutindo a lucidez do seu trabalho e o valor poético do seu sofrimento. No cinquentenário da morte de Artaud - considerado um dos maiores dramaturgos do século - o questionamento que sua vida permite sobre a fronteira entre loucura e sanidade ocorre justamente no Instituto Philippe Pinel.
Pela primeira vez, esse instituto psiquiátrico recebe um espetáculo teatral em seu auditório, com capacidade para 50 pessoas. O cenário é basicamente composto por livros, cadeiras e manequins. ‘‘Procuramos um espaço onde as palavras de Artaud possam ecoar de forma mais forte. Queremos que os internos não só voltem ao convívio da sociedade, como que a sociedade também entre no Pinel’’, diz a diretora do monólogo, Ana Teixeira, 33.
O texto de ‘‘Cartas de Rodez’’ é composto basicamente por uma seleção das cartas do dramaturgo a seu psiquiatra, dr. Ferdiére, durante o período (1943-1946) em que esteve internado como louco no Asilo de Rodez, na França.
O espetáculo é estrelado pelo ator francês Stephane Brodt - que integrou a famosa companhia teatral francesa Théatre du Soleil.
A reforma psiquiátrica em curso no Instituto Philippe Pinel, que procura alterar as formas tradicionais de tratamento dos usuários dos serviços em saúde mental, permite não só a encenação da peça ‘‘Cartas de Rodez’’. Na segunda-feira, às 18h, na Fundição Progresso (rua dos Arcos, 50, Lapa, centro do Rio), foi lançado o décimo programa da série ‘‘TV Pinel’’. Usuários e funcionários do Pinel se dedicam a gravar um programa, em formato televisivo, em que se misturam vários quadros de entrevistas jornalísticas e ficção.
No quadro ‘‘Horário Maluco Eleitoral’’, usuários imitam candidatos políticos, com plataformas que vão da oferta de eletrochoques a remédios para todos os ‘‘malucos’’ da cidade. Em ‘‘Enlouquecer’’ são mostradas cenas do cotidiano que enlouquecem qualquer um, como o trânsito da cidade ou o pagamento de contas no fim do mês em agências bancárias. Gravados em Super-VHS, com cerca de 50 minutos de duração, esses programas costumam ser exibidos na TVE, no ‘‘Canal Saúde’’, e no ‘‘Canal Comunitário’’ do sistema de TV paga NET.
Para o diretor do Pinel, Fernando Ramos, promoções como a ‘‘TV Pinel’’ e a peça ‘‘Cartas de Rodez’’ se inserem no projeto da reforma psiquiátrica. ‘‘Em 1990, criamos o Hospital Dia e, desde então, trabalhamos no sentido de devolver o paciente ao convívio social, reduzindo o número de internações e reintegrando essas pessoas à família e, até, ao trabalho’’, diz. O espetáculo fica em cartaz no Instituto Philippe Pinel até 1º de novembro.

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