Transformar pensamento em linguagem sempre foi uma batalha para a literatura. Como concretizar, em palavras, aquilo que acontece dentro da cabeça do ser humano? Como ter certeza de que a escrita consegue traduzir aquilo que alguém pensa? Qual a distância entre pensar e transformar o pensamento em verbo?

A pesquisadora londrinense Mayara Dionizio se debruça sobre essas questões em “Antonin Artaud: O Instante Intermitente”, livro que acaba de ser lançado pela editora Madrepérola. Questões que passaram a fazer parte da filosofia a partir década de 1960.

A obra analisa a literatura do escritor francês Antonin Artaud (1896 – 1948) a partir da ótica filosófica de dois pensadores igualmente franceses, o literato Maurice Blanchot (1907 – 2003) e o filósofo Jacques Derrida (1930 – 2004).

Um dos autores mais radicais do século 20, Antonin Artaud lutava, em seus escritos, entre aquilo que pensava e aquilo que seria possível transformar em linguagem. Uma incapacidade de comunicação que envolvia de sombras o próprio conteúdo.

Residindo atualmente em Amiens, cidade do norte da França, Mayara Dionizio é aluna de doutorado da Universidade da Federal do Paraná em conjunto com a Universidade Picardie Jules Verne, onde desenvolve pesquisa sobre a obra de Maurice Blanchot. A seguir, Mayara Dionizio fala sobre seu primeiro livro. “Antonin Artaud: O Instante Intermitente”.

Mayara Dionisio: "Na obra de Antonin Artaud identificamos uma busca incessante pela expressão, a representação do pensamento pela linguagem"
Mayara Dionisio: "Na obra de Antonin Artaud identificamos uma busca incessante pela expressão, a representação do pensamento pela linguagem" | Foto: Willian Santiago/ Divulgação

Em “AntoninArtaud: O Instante Intermitente” você pensa a literatura de Artaud através dos instrumentos, da filosofia. Qual sua intenção em percorrer este caminho?

Bom, se nos voltarmos à obra de Antonin Artaud, identificamos uma busca incessante pela expressão. Quando falo expressão, não me refiro à expressão ordinária da palavra, à representação do dia a dia, falo de uma expressão que de antemão é impossível: a representação do pensamento na linguagem. Existiram vários poetas e escritores que trataram do processo da escrita literária e denunciaram esse limite da linguagem: “quando penso e me coloco a escrever, a palavra não é suficiente para expressar o que pensei, o pensamento escapa à palavra”. Por isso, trata-se de um problema que mobiliza tanto a filosofia quanto a literatura, o teatro, a pictografia, todo instrumento que busque uma expressão completa e, portanto, impossível. Minha intenção é denunciar esse limite intransponível por meio de uma descaracterização dos gêneros, nesse sentido a filosofia se mescla à literatura, à poesia, ao teatro e à pictografia.

Maurice Blanchot e Jacques Derrida oferecem leituras distintas da obra de Antonin Artaud. Qual a diferença entre as duas abordagens?

Me arrisco a dizer que tanto Maurice Blanchot quanto Jacques Derrida foram pensadores do mesmo problema. Contudo, enquanto Blanchot o nomeia como “neutro”, Derrida o intitula de “diferença”. Ambos tratam da palavra como rastro da presença, do pensamento e das implicações dessa ausência na linguagem. Quando Derrida lê Artaud, ele busca defender que a unidade da obra se daria por meio do teatro da crueldade. Blanchot compreende na busca pela expressão teatral artaudiana uma busca ainda pela expressão poética, que teve início na juventude de Artaud, por isso o situa ao lado de Höderlin – que também foi um poeta que lidou com a poesia em seu por vir e em sua impossibilidade de expressão.

No livro você aborda a questão de que nem sempre o pensamento pode ser convertido em palavra. O que essa questão significa para a filosofia?

Ao longo da história da arte, da filosofia e da filosofia estética, o problema da representação sempre esteve presente. Porém, a partir dos anos 1960, essa se tornou uma das principais abordagens da filosofia, da psicanálise e das artes. Como representar um pensamento por meio da linguagem? Essa questão implica diretamente nos limites da linguagem. Ou seja, se eu penso e a palavra não é suficiente para representar o que penso, podemos dizer que existe mesmo a comunicação? Blanchot pensa que a linguagem não comunica, por isso mesmo ela existe. Falamos aos outros como um apelo para ser inteiro, para nos comunicarmos. É pela diferença que há entre mim e o outro que não sou eu, que preciso achar uma forma de afetá-lo, a linguagem opera nesse sentido.

Ao longo das décadas a obra de Artaud vem sendo sucessivamente revisitada com leituras que se multiplicam e oferecem novas abordagens. O que a obra de Artaud possui para impulsionar esse contínuo movimento?

O problema da criação que é denunciado pela obra de Artaud é um problema que implica na criação artística e em outras. Quando Artaud envia à revista Nouvelle Revue Française os seus poemas que, por sua vez, são negados para publicação e, insistentemente, ele escreve cartas ao editor Jacques Riviére explicando porque os seus poemas são “deficientes”, ele está expondo a dificuldade da criação. Isto é, a poesia o expõe ao limite da linguagem, quando ele tenta expressar os seus pensamentos pela expressão poética, o pensamento se deteriora em palavras que não o captam. Essa problemática é iterável, pois a palavra é continua e aberta. Enquanto houver linguagem, enquanto houver arte, enquanto houver filosofia, a obra de Artaud será iterável, pois ele denuncia essa limitação como poucos escritores, artistas e filósofos foram capazes.

Em seu ponto de vista, qual seria a grande contribuição de Artaud para uma leitura do mundo atual?

Minhas primeiras leituras da obra de Artaud foram difíceis, ele aborda a vida como arte de uma forma muito singular. Se não identificamos a questão com a linguagem, a leitura fica fragmentada, até entendermos que o fragmento é o extrato de um pensamento. Nesse sentido, Artaud nos leva a outras formas de compreender as dimensões da vida, por meio de metafísicas inimagináveis. Quando a situação pandêmica veio à tona, o meu primeiro pensamento-imagem foi a descrição que ele faz em o “Teatro e a Peste” sobre a crueldade. Nessa obra, ele demonstra como os acontecimentos da vida estão ligados a uma metafísica da crueldade, segundo a qual você se submete ou é submetido por um princípio divino. Ou seja, se você não aceita a crueldade e lida com ela, ela te acomete como um mal. Ele transfere isso para o mundo, a vida é um espetáculo cruel, é como ele descreve a peste se alastrando pela Europa e as cenas que ela fez surgir socialmente. Artaud nos ensina sobre o que nos excede e o que nos é ausente.

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. | Foto: Divulgação

Serviço:

“Antonin Artaud: O Intante Intemitente”

Autora – Mayara Donizio

Editora – Madrepérola

Páginas – 136

Quanto – R$ 39,90

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