São Paulo, 19 (AE) - A fundação da música brasileira está apoiada em cinco pilares fundamentais, a saber: Chiquinha Gonzaga, Ernesto Nazaré, Antônio Calado, Henrique Mesquita e Anacleto de Medeiros. Os dois primeiros, pianistas, despertaram o interesse de instrumentistas (da área clássica e da popular) contemporâneos. Tornaram-se figuras conhecidas. Calado e Mesquita são conhecidos e respeitadíssimos no meio musical (mais uma vez, popular e erudito). Anacleto de Medeiros é um quase esquecido.
O pouco que se conhece, popularmente, dele está associado às letras que Catulo da Paixão Cearense escreveu a posteriori para suas melodias - letras de gosto duvidoso. Catulo mudava o nome original das músicas e, eventualmente, o ritmo delas. O xote "Iara", por exemplo, virou "Rasga Coração". Villa-Lobos usou o tema em seu "Choros n.º 10", mas não deu crédito a Anacleto. Em 1981, Rogério Duprat lançou, pelo Estúdio Eldorado, o elepê "Anacleto de Medeiros". Uma preciosidade, aliás lançada em CD. Foi o primeiro disco dedicado à obra. A gravadora Kuarup lança, agora, "Sempre Anacleto", com o Art Metal Quinteto e a Banda de Câmara Anacleto de Medeiros. Se você não encontrar o disco em sua loja habitual, vai achá-lo no site da gradora: www. kuarup.com.br.
É uma nova abordagem, que tem números em comum com o disco de Duprat, mas é dedicada especificamente à música feita por Anacleto para a Banda do Corpo de Bombeiros do Rio de Janeiro - mais especificamente, para a banda do 4.º Batalhão de Incêndios, do Humaitá, zona sul do Rio. Anacleto de Medeiros estreou para o público, regendo a banda, em 15 de novembro de 1896. "Ao contrário das bandas da época, que deviam soar duras e formais, esse conjunto impressionava pela doçura e musicalidade de seus executantes, entre eles exímios chorões como Casimiro Rocha, Antão e Pedro Augusto, Irineu de Almeida, apenas para citar alguns, agrupados por um líder carismático e autêntico", escreve Antônio Augusto, trompista do Art Metal Quinteto, no texto do encarte do CD.
O que se quis, em "Sempre Anacleto", foi reproduzir, mas de cem anos depois, a sonoridade obtida por Anacleto com a Banda do Corpo de Bombeiros. Assim, os integrantes do Art Metal Quinteto - Nailson Simões e David Alves (trompetes), Antônio Augusto (trompa), Marco della Favera (trombone) e Eliezer Rodrigues (tuba) tocam com mais dez músicos de sopros (trompetes
flauta, flautim, requinta, clarinetas, clarone, tuba, sax alto, saxes tenor, trompa). Eles, mais o baterista e percussionista Oscar Bolão, formam a Banda de Câmara Anacleto de Medeiros. A regência é de Antônio Augusto e os arranjos, de Vicente Ribeiro. Um educador - Anacleto de Medeiros nasceu na Ilha de Paquetá, na Baía da Guanabara, em 13 de julho de 1866. Morreu no Rio, em 14 de agosto de 1907, depois de um ataque cardíaco. Sua mãe era uma escrava liberta. Quem o criou foi um benfeitor, certo doutor Pinheiro Freire. Anacleto formou-se no Conservatório Imperial de Música em 1866, quando era tipógrafo da Imprensa Nacional. À diferença de seus colegas de classe, como Francisco Braga, Anacleto não caminhou para a música erudita, mas usou seu conhecimento para a música popular.
Foi um educador musical, como Villla-Lobos o seria, lembra Antônio Augusto, citando Batista Siqueira. Fundou e regeu muitas bandas, até assumir a do Corpo de Bombeiros e receber o reconhecimento definitivo. Foi quem sistematizou o xote, deverivado do europeu schottish, reestruturado por "denguices do choro" combinados ao "requinte da execução sinfônica", como diz José Ramos Tinhorão. O xote virou ritmo nacional.
Musicas - O Art Metal Quinteto selecionou 12 músicas de Anacleto para o disco. Acrescentou a elas a valsa "Cecy", de Chiquinha Gonzaga, escrita em homenagem ao maestro, inédita em disco. Há outro número inédito, agora de Anacleto, o dobrado "Pavilhão Brasileiro". O CD começa com outro dobrado, "Jubileu". Segue com o xote "Iara" (que Catulo rebatizou como Rasga Coração; esse título inspirou Oduvaldo Viana Filho a escrever a peça famosa). Há outros xotes (Cabeça de Porco, Implorando), um tango (Os Bohêmios), quadrilha (No Baile), a maravilhosa valsa "Terna Saudade" (uma das mais belas melodias de toda a música popular, a polca Três Estrelinhas, que Pixinguinha regravaria, em 1922, na Argentina, com os Oito Batutas).
Anacleto foi educador e animador. Regeu orquestras de baile, compôs para o carnaval. Exigia de seus músicos no mínimo a perfeição - regia com uma vareta, não uma batuta. Ouça-se a obra: Anacleto de Medeiros foi o antecessor mais íntimo de Pixinguinha, que ecoa sua música. Todas as qualidades do grande compositor, grande inventor da música brasileira, estão vívidas neste lançamento extraordinário. Ao prazer de ouvir o disco soma-se o prazer de conhecer, reconhecer, um mestre maior.

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