Arroubo de poesia
PUBLICAÇÃO
sábado, 26 de setembro de 1998
Isadora Andrade Cult Press 
Se o diretor Silvio Tendler pudesse escolher dez personagens históricos para simbolizar o Brasil nesses quase 500 anos de existência, com certeza Castro Alves estaria na relação. As poesias e os ideais políticos do baiano sempre despertaram o interesse do cineasta, que decidiu passar para as telas a breve e agitada vida do personagem. Assim, depois de filmar a trajetória dos ex-presidentes Jango Goulart e Juscelino Kubitscheck, o cineasta se prepara para o lançamento do filme Castro Alves. Ele é a síntese do Brasil: uma mistura de raças, de sangue português, espanhol e sertanejo, teoriza o diretor.
Desde que decidiu filmar a vida de Castro Alves, Silvio percorreu cenários no Nordeste, leu a obra completa do autor e procurou saber mais sobre as aspirações políticas e o jeito revolucionário do poeta. Foram dois anos entre pesquisas e filmagens. Agora, Silvio viaja para a França, onde vai fazer uma nova cópia do filme com uma melhor sonorização. A idéia é valorizar os poemas narrados durante as cenas. O filme foge do comum porque é todo recitado, acredita o diretor. Mas além dos textos e das opiniões políticas que contrastavam com o Século XIX, a produção vai enfocar também o lado sedutor do poeta. A forte relação com o sexo feminino é retratada em várias cenas. Numa delas, Castro Alves faz um ato convocando as mulheres a comprarem escravos para depois libertá-los. Já era uma manifestação feminista, exalta o diretor.
A paixão pelas mulheres era notória. Grande parte de seus textos era dedicada às namoradas e amantes, como o poema Os Anjos da Meia-noite. Mas nem só de amor e revolução vivia Castro Alves. O poeta bon vivant também ficou conhecido através das traduções que fez para as obras de Victor Hugo. Ele era completamente antenado com o que acontecia no mundo e ainda tomava a vida de canudinho, diverte-se o diretor. Para interpretar o escritor, Silvio convidou o ator pernambucano Bruno Garcia. O filme marca a estréia do ator de teatro em longas-metragens.
Dessa vez, Silvio optou por uma linha diferente do estilo documental, utilizado em filmes anteriores como Anos JK e Jango. Para contar a história de Castro Alves, ele preferiu fazer uma mistura de linguagens para dar mais dinamismo às cenas. Assim, abusa de elementos como clipes e fotografias. Conto a história dele através de flashes, diz o diretor, que prefere não enquadrar o filme em nenhuma categoria. Em uma das cenas, Castro Alves presencia o espancamento de um garoto numa praça de Recife e, indignado com a situação, improvisa o famoso verso A praça é do povo como o céu é do condor. Para essa cena, Silvio recorreu a filmagens de fotografias produzidas especialmente para a ocasião. Ele acredita que, dentro dos padrões normais do que se costuma ver de documentário, o filme seria considerado chato. Exatamente para evitar essa situação, Silvio investiu em linguagens variadas. Vou conseguir fazer com que as pessoas saiam admiradas com a vida de Castro Alves, acredita o diretor.
Mesmo assim, o retorno de bilheteria não é sua maior preocupação. Com um baixo orçamento de US$ 600 mil - metade das duas produções anteriores - Silvio diz que o cinema tem a responsabilidade de contar histórias diferentes das mostradas na época de colégio. Segundo ele, Castro Alves sempre esteve associado a uma professora primária chata que o fazia decorar poesias. Mas, se Castro Alves repetir a bilheteria de Jango e Anos JK que tiveram, respectivamente, um público de 1 milhão e 600 mil espectadores, Silvio já vai ter bons motivos para comemorar.
Para filmar Castro Alves, Silvio utilizou locações no Rio de Janeiro, em Salvador e Recife. Apesar do poeta ser baiano, 80% das cenas foram rodadas em Pernambuco. O diretor explica que, além de ter recebido total apoio do governo pernambucano, foi lá que o poeta viveu dos 16 aos 24 anos - período em que escreveu a maior parte dos textos. Com o filme pronto, ele já pensa no próximo projeto. Como não podia deixar de ser, pretende filmar a vida de outro personagem histórico. Dessa vez, as câmeras se voltam para a trajetória do sanitarista Oswaldo Cruz.


