PARIS - O ator italiano Marcello Mastroianni, 72 anos, faleceu ontem de madrugada em sua residência parisiense. Há meses ele sofria com um câncer no pâncreas.
No momento de sua morte estavam junto a ele a estrela francesa Catherine Deneuve, com quem foi casado, a filha de ambos, Chiara Mastroianni, e o ator francês Michel Piccoli.
Marcello Mastroianni foi um dos maiores astros do cinema europeu, intérprete de alguns dos principais filmes da cinematografia mundial, como ‘‘La Dolce Vita’’ e ‘‘Oito e Meio’’, de Federico Fellini.
Em 1970, recebeu o prêmio de melhor ator do Festival de Cannes.
Mastroianni estava doente há vários meses. Em sua última aparição em público, no último Festival de Cannes, maio passado, para ‘‘Três Vidas e uma Única Morte’’, do chileno Raúl Ruiz, onde viveu três papéis, mostrou-se muito abatido, sem, no entanto, perder o bom-humor.
‘‘O ator, o ator... Por que falar sempre do papel de ator?’’, perguntou aos jornalistas que o entrevistavam. ‘‘E um dentista... um dentista não é importante? Sem dúvida, em seu trabalho, ele não mudou de vida, mas quantos dentes não terá mudado em toda sua vida!’’, concluiu, provocando uma gargalhada geral.
Latin lover Marcello Mastroianni encarnou durante 40 anos a imagem do ‘‘latin lover’’, um sedutor desencantado, fanfarrão ou desligado dos acontecimentos ao seu redor.
Em seus mais de 150 filmes, interpretou inúmeros personagens pitorescos da Itália do pós-guerra, característicos do chamado ‘‘neo-realismo rosa’’, assumindo a imagem do eterno sedutor e, mais recentemente, com o peso da idade, o de um convincente anti-héroi.
‘‘Nenhum latin lover vale nada! Esta é uma imagem inventada pelos americanos, que querem rotular tudo, e que sempre me fez rir. Confesso que, pelos ‘machos’, tenho um pouco de antipatia, talvez porque não sou tão viril quanto as pessoas pensam’’, disse, em várias entrevistas.
Sua carreira começou a ser definida quando o cineasta italiano Federico Fellini o escolheu, em 1960, para interpretar o papel principal de ‘‘A Doce Vida’’. Os produtores queriam Paul Newman, mas Fellini exigiu Marcello Mastroianni. A dupla, que ia se tornar inseparável, alcançou a glória com esse filme, uma verdadeira referência para todos os cinéfilos do mundo.
Fellini, como diretor, e Mastroianni, como ator, completavam-se e formaram uma dupla que, às vezes, virava trio, com a participação de Giulietta Masina, atriz e esposa de Fellini, ambos também recentemente falecidos.
Para Mastroianni, que se definia como um preguiçoso, inseguro e avesso a compromissos, trabalhar com os amigos era fundamental. Quando recebia propostas de fazer filmes, dava preferências aos que podia fazer em seu país, para não perder contato com os companheiros de sempre.
Esses companheiros eram Fellini, Mario Bolognini, Michelangelo Antonioni , Vittorio de Sica, Ettore Scola, Mario Monicelli, Dino Risi, Carlo Lizzani , Paolo e Vittorio Taviani, Lina Wertmuller e Marco Ferreri.
Fora esses, trabalhou ainda com grandes cineastas estrangeiros, como o francês Bertrand Blier (‘‘Un Deux, Trois Soleil’’), a argentina María Luisa Bemberg (‘‘De Eso no se Habla’’) e o grego Theo Angelopoulus (‘‘Melissokonos’’).
Fama Marcello nasceu em 28 de setembro de 1924, numa cidadezinha ao sul de Roma, numa família de camponeses modestos. Sua infância foi simples, mas feliz. Gostava de contar que, quando era pequeno, seu pai não tinha dinheiro nem para comprar um pijama.
Quando jovem, fez de tudo. Foi pedreiro, ferreiro, funcionário público, vendedor, caixa de banco, evadiu-se da convocação para a guerra, estudou arquitetura e, durante a Segunda Guerra Mundial, foi enviado pelo alemães a um campo de trabalhos forçados, do qual fugiu.
De volta a Roma, começou a trabalhar, em 1945, nos escritórios de uma sociedade cinematográfica. Para ele, a sorte iria sorrir através da amizade desenvolvida com grandes realizadores, com quem trabalhava.
Mastroianni atuou pela primeira vez em 1949 e, partir de então, passou a fazer parte da equipe de Luchino Visconti, que o dirigiria em ‘‘As Noites Brancas’’, em 1957. Mas ainda não conhecia a fama, que viria pela mão de Fellini e seu ‘‘A Doce Vida’’ (Palma de Ouro 1960 no Festival de Cannes), assim como ‘‘Oito e Meio’’.
Com Michelangelo Antonioni rodaria ‘‘A Noite’’ em 1961. Com o francês Louis Malle, ‘‘Vida Privada’’, em 1962. Visconti e Mauro Bolognini também o dirigiram várias vezes.
‘‘A Cidade das Mulheres’’ (1980), de Fellini, e, em 1982, ‘‘Casanova e Revolução’’, de Ettore Scola, foram outros grandes títulos de seu período de maturidade artística.
Depois de uma longa ausência nas telas, Marcello Mastroianni voltou ao cinema para interpretar ‘‘Pret-a-Porter’’, de Robert Altman, rodada no início de 1995; ‘‘Mais Além das Nuvens’’, de Antonioni e Wim Wenders, em 1995, e ‘‘Três Vidas e um Destino’’, do chileno Raúl Ruiz (1996), que foram suas últimas atuações.

Mastroianni também trabalhou no teatro, onde estreou, fazendo ‘‘Tchin-Tchin’’ e ‘‘Partiture inachevée’’, em Paris, em 1984 e 1987, respectivamente, e ‘‘As últimas luas’’, de Furio Bordon, em Veneza, em 1995.
Latin lover no cinema, Mastroianni viveu várias histórias de amor na vida real, mas jamais quis se divorciar de sua esposa, Flora Carabella, com quem se casou em 1950 e com quem teve Bárbara, um ano depois.
Sua relação mais falada, além da com Faye Dunaway, foi a que teve com a atriz francesa Catherine Deneuve, da qual nasceu Chiara, em 1972. Depois foi a vez da atriz Marthe Keller e da diretora de cinema Annamaría Tató.
Mastroianni adorava suas filhas - chegou a trabalhar com Chiara no cinema e no teatro - e também adorava sentar-se a uma boa mesa, com um bom prato de massas e um copo de vinho, para conversar ‘‘até secar a língua’’.
Nos últimos anos, marcados por uma tosse constante e um tremor permanente nas mãos, que o fazia vibrar a chama do isqueiro com o qual acendia o inúmeros cigarros que ainda fumava por dia, Mastroianni começara a falar da morte, um pouco com ironia, mas também com um certo medo.
Contava que ele e Fellini conversavam muito sobre o tema. Os dois companheiros consideravam a morte injusta, absurda. Quando seu amigo Federico morreu, Mastroianni fez poucos comentários.
‘‘A única coisa que sei é que não quero morrer. Simplesmente porque não entendo por que temos que morer. Há 30 anos, isso não me importava. Agora quero continuar viver a todo custo, apesar de ter que andar em cadeira de rodas e ficar meio zonzo... E estou fazendo todo o possível para continuar assim. Não apenas fumo três pacotes de cigarro por dia, como também pago todos meus impostos, e que impostos!’’

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