É cada vez mais intenso o diálogo do compositor Arrigo Barnabé com a música de concerto. Nem suas canções pop atonais escaparam de revisões eruditas. Foi assim que regravou o álbum ‘‘Clara Crocodilo’’ com arranjos orquestrais em 99, e mais recentemente montou o show ‘‘Luar – Canções de Arrigo Barnab钒 para a cantora Tuca Fernandes e o quinteto de câmara feminino D’Elas.
O show estreou em junho numa minitemporada no Teatro Sesc-Ipiranga, em São Paulo, e é um dos destaques da programação de hoje do 21º Festival de Música de Londrina. A apresentação começa às 20h30 no Cine Teatro Ouro Verde. O repertório reúne 15 composições do londrinense, entre as quais ‘‘Londrina’’, ‘‘Canção dos Vagalumes’’ e ‘‘Cidade Oculta’’.
A surpresa do espetáculo é a inclusão de cinco inéditas – ‘‘Luar’’ (feita em homenagem a Tom Jobim), ‘‘Todo Coração’’ (em parceria com Eduardo Gudin e Roberto Riberti), ‘‘Luzes e Sombras’’ (da trilha sonora do filme ‘‘Oriundi’’ e assinada em parceria com Eduardo Gudin e Nelson Motta), ‘‘Lástima’’ (primeira música de Arrigo) e ‘‘Canção Sem Palavras’’ (instrumental, feita especialmente para o quinteto).
‘‘A escrita dele casou muito bem com essa formação’’ – diz a contrabaixista Ana Valéria Poles. ‘‘A música do Arrigo tem uma linguagem específica, um ritmo fora do tempo, cheio de síncopes, difícil de resolver. Executar suas peças foi quase como um curso intensivo para nós’’. A violonista Betina Stegman lembra que ouviu comentários do tipo ‘‘esse show vai ser um suicídio’’, em referência à complexidade de execução das músicas do compositor.
Betina já havia participado de vários projetos musicais de Arrigo, incluindo a regravação de Clara Crocodilo. Foi através dela que ele se interessou em conhecer o grupo. Assistiu a um concerto, encantou-se e decidiu realizar um trabalho conjunto com participação da cantora Tuca Fernandes. O grupo foi criado em 1995 e já lançou dois CDs. Em agosto, completa seis anos de atividade.
Além de Ana e Betina, inclui Adriana Schincariol Vercellino (viola), Marialbi Trisolio (cello) e Helena Scheffel (piano). Todas mantêm atividades musicais paralelas. ‘‘Não daria para sobreviver só com o grupo’’ – diz Ana. ‘‘Não recebemos nenhuma subvenção. O quinteto existe pela vontade de tocar juntas. É uma exceção num país em que a grande maioria dos músicos se reúne para um ou dois concertos e depois se dispersa indo cada um para um canto’’.
O primeiro disco, ‘‘Louise Farrenc by Quinteto D’Elas’’, foi lançado em 1998 pelo selo Paulus acolhendo elogios de toda a crítica especializada. Além de ganhar indicação para o Prêmio Sharp, recebeu o Prêmio Carlos Gomes na categoria música de câmara, concedido pela Comissão de Música do Conselho de Secretaria de Cultura de São Paulo.
No disco, as cinco musicistas executam dois quintetos para piano op. 30 e 31 da compositora francesa Louise Farrenc (1804-1875), que se dedicou à música instrumental num momento em que a vocal dominava. O segundo CD, ‘‘Quinteto DElas – Vol. II’’, saiu no começo desse ano trazendo obras de L.Dussek, F. Ries e J.N.Hummel. Os dois CDs podem se encomendados na livraria Livros & Livros (Rua Pará, 776, tel. 43/334-2569), que distribuiu os títulos editorias e fonográficos do selo Paulus em Londrina.
Para a cantora Tuca Fernandes, apresentar-se com o grupo ‘‘é bastante prazeroso’’. ‘‘Há um equilíbrio sonoro, um contraste entre a voz aguda e os timbres graves da parte instrumental’’ – explica. Tuca atua em projetos musicais de Arrigo desde os tempos em que subtituiu Vânia Bastos na banda Sabor de Veneno, capitaneada nos anos 80 pelo compositor londrinense.
Ela chegou ontem à cidade com pneumonia. No hotel, onde todos estavam hospedados, havia a preocupação se a cantora estaria em condições de subir ao palco hoje.

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