Arrigo manda tudo para o inferno
Compositor Arrigo Barnabé faz show com músicas do período da Jovem Guarda dentro do projeto 'circulasons', em Londrina
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 27 de junho de 2019
Compositor Arrigo Barnabé faz show com músicas do período da Jovem Guarda dentro do projeto 'circulasons', em Londrina
Marian Trigueiros - Grupo Folha 

O ano de 2019 está sendo de verdadeiro mergulho na própria vida e obra para o compositor e ator Arrigo Barnabé, cuja história e trabalho foram parar em livro e cinema. Experiência que, inevitavelmente, tem propiciado uma aproximação ainda maior com Londrina, sua cidade natal, onde tudo começou. Além da participação na gravação do filme “Passagem Secreta”, em janeiro, e do lançamento do livro “No Fim da Infância, de Arrigo Barnabé”, que acontece nesta quinta-feira (27), às 19h, no Grafatório, o artista volta à cidade para a realização do show “Quero que Vá Tudo pro Inferno”, recheado de canções da dupla Roberto e Erasmo Carlos. Conforme o estilo de Arrigo, a apresentação será, no mínimo curiosa, e ocorre nesta sexta-feira (28), às 20h, no Teatro Ouro Verde, pelo projeto circulasons.
Na lista do show estão músicas famosas como “Se Você Pensa”, “Sua Estupidez”, “Gatinha Manhosa” e “Detalhes” que, para este repertório, foram recriadas por Arrigo, conhecido por sua inventividade sonora baseada, sobretudo, no atonalismo e dodecafonia. Para unir o experimentalismo de sua obra e a popularidade da Jovem Guarda, ele alterou compassos e andamentos, adaptando-os ao seu próprio universo criado na Vanguarda Paulista. No palco, o cantor estará acompanhado de Paulo Braga (piano), criador do Departamento de Música Popular do Conservatório de Tatuí, e Sérgio Espíndola (violão). “Na época, o pessoal de esquerda achava que o pessoal da Jovem Guarda era alienado, tinha uma coisa assim. Mas eu estou falando de um momento, de um período que vai até 1980”, conta Arrigo sobre o repertório escolhido.
O primeiro contato dele com a Jovem Guarda foi ainda na adolescência, quando trabalhou durante as férias escolares e economizou dinheiro para comprar o LP “Jovem Guarda”. “Fui numa loja do Centro Comercial e fiquei entre o “Jovem Guarda” e o “Dois na Bossa nº1”, com a Elis Regina e o Jair Rodrigues. Eu estava começando a perceber que existiam programas estéticos na música. A MPB de Elis e Jair era um programa estético; a Jovem Guarda era outro programa estético. Mas fiquei escutando os dois e não tinha jeito, comprei o Jovem Guarda, porque era irresistível. E eu escutei bastante”, lembra o artista.
Ao mesmo tempo, ia percebendo que na Jovem Guarda o intérprete não precisava cantar com tanta voz. “Tinha a influência do João Gilberto, que era influenciador do Roberto Carlos.” Entre cantaroladas e danças ao som de “Gatinha Manhosa”, Arrigo conta que se encantou mesmo por “Quero que Vá Tudo pro Inferno”. “Esse disco era irresistível. Tinha coisas estranhas: ele cantava um fado, Coimbra; não tinha unidade. Tinha o “Gosto do Jeitinho Dela”, que é uma coisa da Bossa Nova. Havia coisas estranhas ali no meio”, conta. Desde então, a vontade de fazer um trabalho em cima dessa época não saiu da cabeça. “Em 1985, depois de ter feito “Tubarões Voadores”, precisava fazer um segundo LP pela (gravadora) Ariola. E eu queria fazer um LP de intérprete, não iria compor. Itamar (Assumpção) chegou a fazer um arranjo, um baixo para “Quero que Vá Tudo pro Inferno” e me mostrou.”
Porém, outros trabalhos foram surgindo e a ideia do Roberto Carlos ficou. “Mas eu sempre pensei nisso, sempre achei muito interessante esse universo. No começo dos anos 2000, eu escutava e pensava: Pô, mas isso é que é música popular. Todo mundo entende, não tem código escondido, não tem nada. É um negócio claro. Sempre cantei essas coisas de brincadeira, em reunião com amigos, sempre fiz isso. Vi que as pessoas gostavam, achavam legal. Sempre toquei “Vem Quente que eu Estou Fervendo” em casa, no piano, com minha característica mais marcante, que é essa voz gritada”, diz ele sobre a relação com locutores de rádio e com programas de crime. “A gente escutava o rock, Janis Joplin, Joe Cocker. Essa voz gritada também disfarça a minha desafinação.”
ENCONTRO
Um dos objetivos do projeto circulasons é estabelecer a troca de ideias e informações entre os artistas convidados, o público e os produtores culturais da cidade. Assim, nesta quinta-feira (27), Paulo Braga vai realizar um workshop, às 16h, no Studio Mateus Gonsales, dirigido a pianistas de nível intermediário ou avançado, tanto da música popular quanto erudita. Arrigo também realiza uma espécie de palestra para o público em geral nesta sexta-feira (28), às 10h, no Centro Cultural Sesi/AML. Na ocasião, o compositor falará sobre sua obra, seu processo de criação, bem como temas relacionados à composição de música. O projeto, idealizado e produzido pela musicista Janete El Haouli frente à “TOCA: arte ação criação”, desde o ano passado promove uma série de shows, concertos, oficinas, seminários e encontros com artistas que estão fora do circuito comercial.
FILME À VISTA
O filme “Amigo Arrigo”, de Alain Fresnot e Junior Carone, acaba de ser lançado no festival In-Edit, realizado em junho, em São Paulo, que teve a 11ª edição da mostra de documentários musicais. A previsão é que chegue as cinemas no final deste ano. O longa conta com vários depoimentos, entrevistas e ricas imagens de arquivo, desde sua chegada em São Paulo, até os dias de hoje, e mostra suas diversas facetas, inclusive de ator e de compositor de óperas, trilhas sonoras, músicas eruditas e missas. Desde 1980, quando o artista lançou o LP Clara Crocodilo (1980), Arrigo trouxe à MPB e ao rock brasileiro as inovações e ousadias da música contemporânea, marcando o início da chamada Vanguarda Paulista, juntamente com nomes como Itamar Assumpção e Bocato.
SERVIÇO:
Show “Quero que Vá Tudo pro Inferno”, com Arrigo Barnabé
Quando: Sexta-feira (28), às 20h
Onde: Teatro Ouro Verde (rua Maranhão, 85)
Quanto: R$ 50,00 (inteira) e R$ 25,00 (meia). (Ingressos à venda no Portal Sympla, Loja Ciranda, Restaurante Brasiliano e bilheteria do teatro)
Encontro com compositor Arrigo Barnabé
Quando: Sexta-feira (28), às 10h
Onde: Centro Cultural Sesi/AML (rua Maestro Egídio, 130)
Quanto: R$ 10,00 (As inscrições podem ser feitas pelo e-mail [email protected], mediante disponibilidade de vagas)
Workshop com pianista Paulo Braga
Quando: Quinta-feira (27), às 16h
Onde: Studio Mateus Gonsales (av. Paraná, 71, sala 208)
Quanto: R$ 60,00 (As inscrições podem ser feitas pelo e-mail [email protected], mediante disponibilidade de vagas)


