ARRIGO, CROCODILOS E AFINS
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 20 de fevereiro de 2001
Ranulfo Pedreiro De Londrina 
Décadas se passaram e o revolucionário álbum Clara Crocodilo finalmente chega ao formato digital, pelas mãos do próprio Arrigo Barnabé. O disco foi um marco na carreira do compositor, apresentando uma série de elementos que ainda hoje soam atuais: o atonalismo associado a reflexos de música pop, referências cinematográficas e linguagem de histórias em quadrinhos.
Além de Clara Crocodilo, o autor também relançou o disco Tubarões Voadores. Ambos saíram pela Thanx God Records, selo de Arrigo e Carlos Careqa. Há tempos sem tocar em Londrina, sua cidade natal, Arrigo Barnabé falou à Folha2, por e-mail, sobre sua carreira, suas novas composições e sua relação com o Paraná.
Que tipo de música você fazia antes de entrar em contato com o dodecafonismo (utilização das 12 notas da escala cromática, que Schoenberg organizou em série como base para composição)?
Eu fazia e continuo fazendo um atonalismo livre. O dodecafonismo é um aspecto, uma forma de sistematizar o atonalismo, criado por Arnold Schoenberg, e foi muito útil para mim. Acho que é uma ferramenta excelente, embora nunca tenha praticado o dodecafonismo ortodoxo, com aquele rigor todo postulado por Schoenberg. Utilizei muitas vezes técnicas seriais, em, por exemplo, Office-boy, Infortúnio, Orgasmo Total, Crotalus Terrificus, Diversões Eletrônicas, etc... Mas nunca escrevi uma peça totalmente dodecafônica.
Clara Crocodilo foi composta em módulos. É verdade que você se inspirou na arquitetura para fazer esse tipo de composição?
De fato, Clara Crocodilo foi composta em módulos. Existem várias razões. Quando eu fiz o preparatório para Arquitetura no Anglo Latino em São Paulo, os professores entraram com esse conceito de módulo. Construir um peça geométrica plana, de papel cartão, que pudesse ser duplicada, e permitisse criar estruturas geométricas em três dimensões. Bom, o Le Corbusier também desenvolveu uma técnica de projeto que tinha a ver com isso, o Modulor. Também a leitura do livro de Umberto Eco, A Obra Aberta, onde ele comenta experiências de compositores contemporâneos com estruturas abertas, tudo isso influenciou. Os módulos foram criados em parceria com Mário Lúcio Cortes, uma mente brilhante, que cursava engenharia eletrônica no ITA e era meu interlocutor em Londrina, quando nos encontrávamos nas férias escolares. Tínhamos bastante interesse também (acredito que a partir da leitura de Umberto Eco) em trabalhar com o acaso controlado, fazer uma composição que pudesse ter diferentes leituras.
É verdade que Tubarões Voadores foi inspirada em um documentário que você assistia quando criança?
Tubarões Voadores é uma história em quadrinhos de Luis Gê, estava pronta e eu não resisti à idéia de fazer uma experiência sobre a qual eu e o Luís Gê já havíamos conversado várias vezes: trilha sonora para HQ, ou HQ com áudio, enfim, uma aproximação de linguagens, especulação sobre as fronteiras... De fato, meu pai tinha um projetor 16mm em casa, e o único filme que tínhamos era de uma pesca ao tubarão, um filme antigo, documental. Mas não tem nada a ver com a música. É só uma dessas coincidências que ajudam a criar a lenda.
Em alguns discos, como Suspeito e Façanhas, aquela pegada revolucionária revelada em Clara Crocodilo e Tubarões Voadores está mais amena, você parece olhar para outras direções. Por quê?
Suspeito foi uma experiência com o mercado. Obviamente ligado a problemas de conseguir um espaço na mídia eletrônica e atuar como cantor, já que minhas composições atonais exigiam cantoras bastante especializadas, e um grupo muito bem ensaiado para executar a parte instrumental. Assim, cada vez que um músico deixava o grupo, substituí-lo era um problema. Tudo isso complicava muito o trabalho, e ficava cada vez mais difícil a sobrevivência. A partir de Suspeito passei a atuar mais só, às vezes com uma cantora. Em 1992 comecei a desenvolver um trabalho de dois pianos com Paulo Braga (que já tocava comigo desde 1988). Assim, em 1992 resolvi gravar ao vivo Façanhas, que misturava as apresentações em casas noturnas com a idéia do recital de dois pianos acústicos.
Você fundou um selo próprio e só então Clara Crocodilo original e Tubarões Voadores foram lançados, sem falar na versão de Clara Crocodilo ao vivo. Arrigo Barnabé assusta o mercado?
Hoje em dia você tem vários nichos no mercado, e existe espaço para quase tudo, mas é quase como um hobbie, você jamais vai viver de disco. O Clara ao Vivo vendeu quase 5 mil unidades, quer dizer, não se pagou. Talvez daqui a uns dois anos eu consiga recuperar o que investi nele. Foi um CD feito sem patrocínio. Com essas leis de renúncia fiscal que existem agora você pode conseguir apoios financeiros e fazer o CD sem nenhum gasto. E existe um pequeno mercado para uma música menos digerível, onde você pode colocar seu trabalho. Quer dizer, aos poucos o mercado alternativo vai se reforçando e ganhando poder, mas ainda muito distante das grandes corporações que investem pesado no descartável.
Quais são seus projetos? Você tem algum CD novo na manga? Como são as composições que Arrigo Barnabé faz hoje e quando teremos acesso a elas?
Tenho planos para um CD com peças instrumentais: Algumas Idéias Sobre Macbeth para quarteto de cordas, dois pianos, três percussionistas e banda de rock (de 1995); Celebração Introdução e Canon para violino e piano; e Um Caso Para Psicólogos para violino, viola, violoncelo e contrabaixo, ambas de 2000. Agora devo procurar patrocínio para esse trabalho.
O que há de novidade na música hoje, no mundo e no Brasil?
Olha, eu só tenho estudado e escutado os clássicos: Pierrot Lunaire de Schoenberg, os últimos quartetos de Villa-Lobos, trabalhos camerísticos de Stravinsky, a obra pianística de Messiaen (principalmente os 20 Regards...) Ligeti, VarSse e quartetos do Bártok. Não consigo mais pensar em termos de novidade. Atualmente estou lendo Memórias de Subsolo, do Dostoiévski, e um ensaio da Hanna Arendt sobre Arte e Cultura.


