Arrigo Barnabé, um artista de passagem
O cantor e compositor veio a Londrina para filmar 'Passagem Secreta'; outros dois trabalhos sobre sua vida e obra estão a caminho
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 08 de abril de 2019
O cantor e compositor veio a Londrina para filmar 'Passagem Secreta'; outros dois trabalhos sobre sua vida e obra estão a caminho
Marian Trigueiros - Grupo Folha 

Este ano, ao menos dois trabalhos sobre vida e obra do compositor e ator londrinense Arrigo Barnabé estão a caminho. Um deles, o documentário de longa metragem “Amigo Arrigo”, do diretor Alain Fresnot, que estreia no primeiro semestre.
Ainda em meados de junho, será lançado “No Fim da Infância”, primeiro livro de Arrigo que reúne nove textos autobiográficos escritos por ele. São memórias publicadas originalmente na revista Piauí, no site da revista, e também na revista de psicanálise Calibán, nas quais recupera episódios curiosos sobre sua infância e juventude, revela bastidores de algumas de suas criações musicais e suas transgressões. O livro será publicado pela Grafatório Edições, de Londrina, com organização do jornalista Felipe Melhado.
Outro trabalho recente com a participação de Arrigo é “Passagem Secreta”, longa-metragem de ficção, dirigido por Rodrigo Grota, que acabou de ser rodado em Londrina e tem estreia prevista para o segundo semestre deste ano. Nele, o ator é protagonista da trama interpretando Rui, dono de um parque de diversões e uma espécie de inventor misterioso.
No local, há uma passagem para um mundo de escolhas e fantasias que a jovem “Alice” (Luiza Quinteiro) descobre. O roteiro é de Roberta Takamatsu e produção executiva de Guilherme Peraro, da Kinopus, que foi contemplado em abril de 2017 no Edital de Longa BO Infantil do Minc 2016. O filme foi totalmente rodado em Londrina.
Esta não é a primeira vez em que Grota e Arrigo trabalham juntos. Em 2004, o compositor foi responsável pela trilha do primeiro curta-metragem do diretor, “Londrina em Três Movimentos” (2004). Dessa vez, Grota comenta que convidou o londrinense para ser o protagonista por considerá-lo uma figura imponente e um ator nato. “Arrigo tem um rosto que às vezes me lembra o Beethoven e, às vezes, me lembra o personagem Caligari, do expressionismo alemão.
A primeira vez que vi algo dele como ator foi em 1997, ao me mudar para Londrina, atuando no filme “Nem Tudo é Verdade”, do Rogério Sganzerla, interpretando Orson Welles. O filme contava com fotografia do Carlos Ebert, por coincidência”, detalha, referindo-se ao trabalho do fotógrafo neste trabalho.
Durante sua estada por Londrina para as gravações do filme, em que também há participação de sua filha Stella Rea Barnabé, Arrigo conversou com a reportagem da FOLHA e falou sobre a experiência do cinema. “Neste momento de vida, meu encontro pessoal e de prazer tem sido mais com a atuação e interpretação que com a composição”, revela ele, que ficou conhecido por sua inventividade sonora e poética no início da década de 1970 ao trazer uma nova proposta musical baseada na atonalidade e na dodecafonia. Dono de uma timidez que não se vê em ação ou nos palcos, aos poucos, contou ainda sobre as lembranças da juventude vividas em Londrina e do início da carreira.
Apesar da participação recente no filme, sua relação com Londrina hoje se dá, principalmente, de forma afetiva, já que tem vários parentes e sobrinhos na cidade. “Voltar à Londrina e ter contato com a própria história sempre me causa um impacto muito grande.
Aproveitei esses dias e fui à UEL ver um arquivo grande que minha tia Amélia organizou sobre meu avô italiano e pegar algumas informações para um livro. Descobri coisas novas, recordei outras. Impossível não ficar sensibilizado ao ter contato com as memórias da família; essas lembranças sempre me deixam emocionado.”
VIDA E OBRA
Desde que surgiu no cenário da música brasileira, no início da década de 1970, Arrigo sempre causou algum tipo de reação com seu trabalho: da curiosidade ao apreço, mas também do incômodo à rejeição. Suas obras não fizeram parte dos principais selos musicais, também não tiveram espaço significativo nas grandes mídias de rádio e televisão, na chamada “mainstream”, com a alegação de que faltavam elementos comerciais. No entanto, ele e outros músicos são parte de um momento artístico que esteve presente com frequência na imprensa que não só divulgou, mas retratou com afinco a erudição sua inventividade musical.
Com a chamada “Vanguarda Paulista”, que reunia músicos e grupos da época com outras estéticas como Itamar Assumpção, Grupo Rumo, Premeditando o Breque e Língua de Trapo, fez história e, até hoje, tem sido referência em instituições de ensino no país e no exterior.
Apesar de cada músico ter uma poética musical, tinham um objetivo comum: sobrepor as formas tradicionais de canções populares e samba flertando com o rock, reggae, além de figuras de humor e, no caso de Arrigo, sobretudo, a música experimental.
E lá se vão 50 anos de carreira, vários discos gravados depois de “Clara Crocodilo” (1980), como “Tubarões Voadores” (1984) e “Suspeito” (1987), e muitas trilhas sonoras para o cinema, como o filme “Cidade Oculta” (1986), no qual também atuou, e “Ed Mort” (1997).
Neste percurso, “de muita persistência”, - como ele faz questão de frisar - sua marca continua sendo a ruptura e atitude desafiadora à música popular ao trazer elementos da música erudita do século XX com as tendências contemporâneas e urbanas em suas composições.
“Nada foi coincidência ou sorte, fiz um trabalho muito consciente em São Paulo. Procurava contatos e fui, insistentemente, atrás das pessoas nos lugares em que havia uma chance de mostrar meu trabalho”, diz, lembrando de episódios que o fizeram bater, literalmente, à porta de figurões da época como o cantor Ney Matogrosso e no estúdio de Rogério Duprat.
Porém, mesmo sem o tal “apelo comercial” de sua obra, o desbravamento lhe rendeu vários prêmios de arranjo e composição em festivais de música como da TV Cultura e da TV Tupi. A ascensão - de certa forma ingrata na visão de muitos críticos - ainda o levou a receber olhares de fora de São Paulo.
“Uma vez, Nelson Motta nos levou para tocar no Rio de Janeiro. Num dado momento, a plateia começou a vaiar. Foi quando eu disse a frase que foi parar em todos os jornais: “Os ouvidos da província não estão preparados para ouvir o som da metrópole”. Aí se começa a falar da “Vanguarda Paulista”. Pensei: “Estamos ficando importantes, estão dando até nome para a gente”, ri, sobre o marco na carreira.
Entre as lembranças e transgressões da juventude, Arrigo mostra, portanto, uma trajetória de obstinação, mas, também, revela as conquistas e conflitos de um homem de 67 anos.
“Lá no início, mesmo com todos os acontecimentos, me perguntava constantemente: “Será que é por aí? Isso é coerente? Tem consistência?” Tinha muita insegurança e ainda tenho, e não só isso na criação. Sou compositor, não sou instrumentista. Gostaria de ter muito mais domínio da técnica e isso me incomoda”, confessa o compositor que, atualmente, comanda o “Supertônica”, programa de rádio na Cultura FM. “É um programa que tenho muita liberdade. E como não tenho bens, preciso continuar a trabalhar duro. O que ganhei e ganho sempre foi para pagar as contas.”
O COMEÇO EM LONDRINA
Pé vermelho de nascimento, Arrigo Barnabé passou toda sua infância e adolescência na cidade. Foi por aqui que começou suas primeiras “brincadeiras sonoras” ao lado de Paulo Barnabé, Robinson Borba, Itamar Assumpção, Mário Lucio Cortes e Antonio Carlos Tonelli.
“Nos reuníamos nas férias para ouvir Bach, criar e experimentar. Inspirados por Hans-Joachim Koellreutter, uma vez desmontamos um acordeon e ficamos soprando os foles para descobrir novos sons. Quando ouvi "Allegro Barbaro", de Béla Bartók, tive a certeza de que queria compor”, conta.
Ainda muito jovem, aos 18 anos escolheu São Paulo para estudar na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAU/USP). De 1974 a 1979 cursou Música na Escola de Comunicações e Artes da mesma universidade (ECA/USP), formando-se em composição. Antes mesmo da graduação, já colocava em prática as novas ideias nas quais acreditava e criava. A caminhada pela capital paulistana começou praticamente sozinha. Na sequência, juntou-se ao irmão mais velho, Paulinho, e Itamar – que, pouco tempo depois, seguiria outro caminho. “Os dois eram meus interlocutores, com quem eu discutia os arranjos de base: Itamar no baixo e Paulinho na bateria.”
Participante de “Na Boca do Bode”, lendário evento musical que marcou a história cultural de Londrina, lotando o teatro Filadélfia por três dias no ano de 1973, foi lá que Arrigo mostrou pela primeira vez sua música “Clara Crocodilo”, um som atonal, diferente e estranho para o público presente. “Foi uma pequena participação, mas que teve muita repercussão. Foram mais sete anos para chegar ao disco”, comenta sobre o LP homônimo “Clara Crocodilo”, primeiro álbum lançado com Banda Sabor de Veneno, que marcou a história da música popular brasileira, em 1980.


