A psicanálise vai à ópera, ou vice-versa. O músico pop-erudito paranaense Arrigo Barnabé encerra fase de criação emperrada e começou ontem a apresentar no Centro Cultural Banco do Brasil, em São Paulo, a ópera de câmara ''O Homem dos Crocodilos - Um Caso Clínico em Dois Atos''.
Inspirada no caso de um neurótico obsessivo que Sigmund Freud (1856-1939) analisou e apelidou de ''homem dos lobos'', a ópera trata de um músico que se sente impedido de compor porque acha que a tampa do piano vai cair e cortar seus dedos.
Não é uma obra solitária de Arrigo, que pediu auxílio ao poeta, músico e dramaturgo argentino Alberto MuÀoz para a confecção do libreto. Num processo iniciado em 94, a obra se desenvolveu entre São Paulo e Buenos Aires e acabou assim dividida: MuÀoz, que também é formado em psicologia, escreveu o texto; Arrigo elaborou a parte musical.
MuÀoz, recém-chegado a São Paulo para acompanhar a estréia, conta como se deu a associação: ''Um dia recebi uma fita de música sem nenhuma identificação, mas ouvi aquilo e vi que era tudo que eu gostaria de ser musicalmente. Depois de muito tempo, um aluno me trouxe o disco ''Tubarões Voadores' (84), e descobri que era Arrigo Barnabé. Mas me disseram que ele era negro''.
''Acho que me confundiram com Itamar Assumpção'', ri Arrigo. ''Eu soube de sua admiração por mim em 94, quando, num festival de teatro em Londrina (PR), conheci o produtor argentino Carlos Villalba. Ele pedia informações sobre mim, sem saber que eu estava lá nem que eu havia nascido em Londrina.'' Villalba fez a ponte, e Arrigo acabou viajando a Buenos Aires - para comprar ''O Homem dos Lobos'', que no Brasil não encontrava fora do modelo ''obras completas de Freud'', e para conhecer MuÀoz. Encontraram-se, e não só Arrigo se apresentou a seu fã como passou a conhecer as idéias de ''teatro para os ouvidos'', defendidas pelo artista argentino.
A afinidade foi espontânea, e novas coincidências se revelaram. Se Arrigo, de cá, colocava sua obra às voltas com crocodilos e tubarões, de lá MuÀoz já sondara artisticamente a vida dos macacos e escrevera ''A Paixão Segundo os Hipopótamos''. ''Isso não quer dizer que sejamos ''animalistas''', brinca MuÀoz. ''Usamos os animais como signos de representação de atitudes humanas.'' O convite de parceria partiu, afinal, de Arrigo, e foi recebido com entusiasmo por MuÀoz. ''A linguagem musical, para mim, havia alcançado um teto, e a partir daí era só repetição. O encontro com Arrigo significou o encontro com um irmão artístico com muito mais linguagem musical que eu.'' Juntos, foram tecendo relações entre Freud, a obra fundadora de Arrigo (''Clara Crocodilo'', de 80), até a coincidência de a psicanalista de MuÀoz se chamar Clara. A atriz e cantora Cida Moreira, também intérprete de ''Clara Crocodilo'' e também psicanalista, foi convocada para o papel de Clara no espetáculo que promete.


''O Homem dos Crocodilos - Um Caso Clínico em Dois Atos'': em cartaz de hoje a domingo e de 21 a 25 de novembro, às 18 horas, no Centro Cultural Banco do Brasil, em São Paulo. Ingressos a R$ 15.

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