Imagine o quadro: uma sala forrada com jornais com as principais matérias da Folha de Londrina do início dos anos 70 até o começo desta década, um universo de 400 mil recortes, mais de 2 toneladas de papel jornal. Agora imagine toda essa informação acessível em 107 CDs de computador, coisa de duas ou três caixas. Foi este o resultado do esforço de uma equipe coordenada pelo professor de história Jairo Pacheco, da Universidade Estadual de Londrina (UEL). Intitulada ''Organização e Preservação do Acervo da Folha de Londrina'', a empreitada será lançada hoje, às 10 horas, na Biblioteca Municipal.
O projeto captou recursos através da Lei Municipal de Incentivo à Cultura e demorou 26 meses para ser concluído, o que gerou uma polêmica que ainda crepita no âmbito da Secretaria de Cultura (leia texto na página 3). Mas Pacheco se defende frisando o valor histórico do trabalho. ''No final da década passada, a Folha estava com problemas na manutenção de seu arquivo dos anos 70, 80 e 90, que tinha se tornado muito grande. A empresa entendia que havia uma preocupação historiográfica na preservação desse material, mas ao mesmo tempo não encontrava uma solução. Foi o que eu propus'', explica Pacheco.
No trabalho, os 400 mil recortes foram separados por assunto conforme a divisão própria do setor de arquivo da Folha, em sete subáreas: Países, Cidades, Agricultura, Esportes, Nominal (nomes de personagens importantes em diversos segmentos sociais), Cultura e Geral. Em seguida, os recortes foram colados num suporte e microfilmados um a um, o que gerou um montante de 109 microfilmes, formato original previsto no projeto, de 1998.
''Utilizamos o microfilme porque é um formato que tem vida útil de 200 anos. Quando o projeto estava para ser finalizado, percebemos que a tecnologia possibilitava que o material fosse passado para CDs, que são mais práticos: facilitam a impressão dos recortes, a transmissão de dados'', defende Pacheco. Infelizmente, o formato microfilme faz com que as fotos percam definição, já que oferece nitidez semelhante ao xerox, o que não descarta a necessidade de se manter o arquivo de papel. Na digitalização, os recortes foram registrados como arquivos TIF.
Foram produzidas três séries de 107 CDs - uma está na própria Folha, outra ficará sob responsabilidade do Centro de Documentação e Pesquisa Histórica (CDPH) da UEL e a terceira ficará na Biblioteca Municipal, disponível ao público. A busca por um assunto pode ser feita num guia de papel de 176 páginas, onde as sete seções de assunto geraram 15 mil ramificações (dossiês), e a referência procurada pelo leitor apresenta o número total de ocorrências do assunto procurado, as datas da primeira e da última matéria publicadas, e o número exato do CD que contém os recortes que falam sobre o tópico. O guia também oferece 2 mil remissões, do tipo ''leia mais''.
Pacheco conta que, neste grande espectro de informação, é possível perceber, através das impressões dos jornalistas da Folha, a evolução histórica do município em diferentes instâncias. ''Nas matérias sobre cultura, a partir dos anos 70, Londrina já havia atravessado o período em que deixava de ser um típico município interiorano, agrícola, para se tornar um pólo cultural. É o momento de ebulição dos festivais de teatro, de música, numa consolidação das artes na cidade. Na questão política, o jornal se destacou como porta-voz de setores contestadores no período da ditadura, que depois se tornaram politicamente hegemônicos'', explica o professor.
No evento de hoje, na Biblioteca Municipal, Pacheco apresentará o programa ao público e dará instruções sobre seu funcionamento. Enquanto isso, o arquivo de papel do período compreendido nos 107 CDs segue com o CDPH. ''Ele está à disposição da Folha. Minha idéia é que o arquivo siga com a UEL por mais dois ou três anos, para que depois se decida o seu destino'', diz Pacheco.
Leia mais sobre o assunto na página 3.

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