Arquitetura perde Zaha Hadid
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quinta-feira, 31 de março de 2016
Silas Martí<br>Folhapress 
São Paulo - Extravagante como as curvas e os ângulos dramáticos de suas construções, a arquiteta anglo-iraquiana Zaha Hadid morreu ontem, aos 65 anos, depois de sofrer um ataque cardíaco. Ela estava internada num hospital em Miami para se tratar de uma bronquite.
Um dos nomes mais celebrados e ao mesmo tempo polêmicos da arquitetura contemporânea, emblema da era dos chamados "starchitects", Hadid se radicou em Londres e despontou no cenário europeu nos anos 1990, ganhando o mundo mais tarde com obras de plasticidade contundente.
Essa linguagem acabou consagrada em 2004, quando Hadid se tornou a primeira mulher a vencer o prêmio Pritzker, uma espécie de Nobel ou Oscar da arquitetura.
Sua geometria orgânica, de formas que parecem se chocar umas com as outras sempre num equilíbrio precário, lembra as curvas de Oscar Niemeyer, só que turbinadas pela pirotecnia do desenho à base de iMacs ultrapoderosos.
Desde seus primeiros projetos, como o posto de bombeiros da Vitra, firma de design alemã, Hadid trata o concreto como massa de modelar, alternando entre obras de angulosidade pronunciada e contornos mais voluptuosos que lembram o corpo da mulher.
Essa sinuosidade já rendeu polêmica - seu desenho para um estádio de futebol em Doha, por exemplo, foi criticado por parecer uma vagina. O mesmo projeto também gerou desgaste quando um crítico da "New York Review of Books" acusou a arquiteta de não se importar com a morte de operários na construção, uma acusação que se mostrou infundada - Hadid processou o autor, que acabou tendo de se desculpar pelo episódio.
Quando não atacada por seu estilo de excessos, às vezes histriônico, Hadid também é alvo de clientes que reclamam do alto custo de suas construções, caso do governo japonês, que cancelou o projeto da arquiteta para construir uma arena para a Olimpíada de Tóquio, em 2020.
Um de seus projetos mais marcantes, espécie de prelúdio à era das curvas mais ousadas, foi a sede da BMW em Leipzig, um complexo todo horizontal, que lembraria qualquer galpão de fábrica não fosse sua fachada de aspecto elástico, com uma curva que liga seus pavimentos.
Mais tarde, Hadid foi acentuando o caráter orgânico de suas construções, algo nítido em projetos como o Centro Aquático de Londres, construído para a Olimpíada de 2012 na capital britânica, no centro cultural Heydar Aliyev, realizado no mesmo ano no Azerbaijão, e o parque Dongdaemun, de 2013, em Seul.
Da mesma forma que gostava de fazer aparições dramáticas, usando vestidos e joias que pareciam esculturas, Hadid pensava sua obra arquitetônica como elemento sensorial, capaz de engendrar coreografias espontâneas no público. No lugar de corredores e escadas, tentava desenhar verdadeiras passarelas.
Seu parque em Seul, que lembra uma serpente com partes do corpo enterradas no chão, ou seu Museu de Arte do Século 21, inaugurado há seis anos em Roma, são exemplos claros de seu pensamento da arquitetura como performance, no caso, um ato arrasa-quarteirão.
Não espanta que ela tenha também desenhado peças de mobiliário e até sapatos, como as sandálias que fez para a grife brasileira Melissa.
Nada funcionais e mais extravagantes - curadores reclamam que as paredes curvas do museu romano não se prestam à exposição de quadros -, as obras de Hadid viraram a coqueluche dos anos pré-desastre financeiro de 2008, símbolos de um momento viciado em ostentação.
É o oposto do que o circuito valoriza agora, na ressaca da bonança, com a próxima Bienal de Arquitetura de Veneza destacando projetos de habitação social. A morte repentina de Hadid coincide com o fim de uma era de excessos.


