Jotabê Medeiros
Agência Estado
Arquiteto de mar, praia, campo e, eventualmente, também da urbe, o carioca Cláudio Bernardes conta uma história curiosa sobre a única vez em que se defrontou com o gênio do paisagismo, Burle Marx. Eles iriam dividir um projeto juntos, mas divergiram e Marx deixou a empreitada. ‘‘Eu queria botar água no teto da casa, ele queria um jardim’’, explica Bernardes. Nunca mais se viram.
Ainda assim, há muito de semelhança entre a arquitetura
retilínea de Bernardes e os jardins arredondados de Burle Marx, entre os conceitos de espaço do primeiro e o tour de force ecológico do segundo. A diferença é que Bernardes é mais pragmático. Seu trabalho está agora reunido no livro ‘‘A Arquitetura de Cláudio Bernardes’’ (Doréa Books and Art, 204 págs., R$ 80). O lançamento aconteceu na quinta-feira em São Paulo.
No livro, além das belas fotos de Tuca Reinés, também estão suas idéias um tanto quanto heterodoxas do arquiteto sobre sua profissão. ‘‘Não quero fazer casa para ganhar prêmio, mas para que você possa morar dentro dela’’, ele diz. Filho de outro arquiteto famoso, Sérgio Bernardes, Cláudio, que não gosta de prédios, fixou escritório em São Paulo há três anos, após passar quase toda a vida no Rio. Na verdade, ele descobriu uma incompatibilidade entre sua paixão por grandes espaços e as noções modernas de moradia.
‘‘Sou contra a especulação imobiliária, sintoma do desamor que é ganhar dinheiro para dar algo ruim para as pessoas morarem.’’ Entre os símbolos desse ‘‘algo ruim’’ está a Barra da Tijuca, no Rio, onde ele já teve escritório. ‘‘Não acredito nessa tendência de trazer Nova York para São Paulo ou Miami para a Barra da Tijuca’’, diz. ‘‘As identidades estão se perdendo.’’
Sua arquitetura mistura uma acurada observação do Brasil e de seus contrastes com linhas limpas da moderna arquitetura internacional. É o caso, por exemplo, da Casa da Palafita, construída pelo arquiteto em 87, em Angra dos Reis. Ali, a influência é das palafitas dos Alagados, na Bahia, ou das casas sobre a água no Maranhão. ‘‘Olho as fotos do livro e me surpreendo com a qualidade das casas que ele construiu’’, afirma Oscar Niemeyer.
Mas Bernardes não vai muito longe na questão teórica. Não tem grandes ensaios sobre a própria obra. ‘‘O que eu tento é agredir o mínimo possível a natureza’’, ressalta. ‘‘Meu pai me ensinou que a arquitetura vem de dentro para fora e, se você está bem por dentro, estará bem externamente.’’ Bernardes garante estar feliz com sua ‘‘dupla cidadania’’: divide-se entre o Leblon e a Alameda Gabriel Monteiro da Silva. Duas vezes por semana, está nos Jardins.
‘‘São Paulo é um mélange de raças e princípios’’, afirma o arquiteto, que começou na carreira de maneira singular, trabalhando com o mestre-de-obras Manoel Pereira, em Angra. Hoje em dia, diz, poderia viver em qualquer parte do mundo, porque se entusiasma com facilidade com a vida. ‘‘Não é porque você está à beira-mar que a idéia vem.’’ Para ele, o segredo da inspiração está no espaço. ‘‘É ali que as coisas prendem o pensamento, seja o fogo, o aquário ou a neve caindo.’’
Cláudio Bernardes têm mais de mil projetos assinados pelo País. Ele conta que procurou selecionar o que lhe pareceu mais importante no momento em que organizava o livro. ‘‘Arquitetura é isso, algo que dá um enorme grau de ansiedade pelo futuro.’’

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