A celebrada Curitiba é a encarnação da história do patinho feio. Sem exuberantes atrativos naturais, como o Rio de Janeiro, sem personagens heróicos e artísticos do porte de Castro Alves e José de Alencar e até mesmo sem momentos históricos que cravassem a ferro e fogo a memória brasileira, ela era uma capital fadada à falta de projeção.
Incomodados com essa condição, intelectuais paranaenses elegeram na década de 1920 o pinheiro árvore que mais crescia na região como sendo o grande símbolo da terra, generoso e altaneiro. Não sabiam, até então, que aquilo que estavam cunhando ganharia tanta força que no futuro emprestaria seu desenho para obras arquitetônicas.
O livro do arquiteto e historiador Irã Taborda Dudeque, ''Espirais de Madeira Uma História da Arquitetura de Curitiba'', que está chegando às livrarias, disseca os tecidos social, político e econômico que acabaram por sedimentar os caminhos tomados pela arquitetura local num período de quase 70 anos: começa em 1927 e termina em 1993.
A pesquisa não foi pautada pela diversidade, mas centrada em alguns nomes e obras. ''A minha intenção não foi compreender a arquitetura de Curitiba ou Paraná, mas entender Curitiba através da arquitetura'', afirma. Irã Dudeque revela uma curiosidade: a cidade foi administrada ao longo do século 20 por prefeitos ligados à construção, como engenheiros e arquitetos. Essa coincidência colabora decisivamente para que a arquitetura acabe tendo um sentido determinante: ''Todas as belezas que temos são construídas. Então é muito clara a impressão de que a elite da cidade sempre teve essa vontade de construir, 'nos' construir''.
Voltando à imagem do pinheiro, este gerou não só um discurso filosófico como serviu de inspiração para a criação do Memorial de Curitiba, basicamente feito de aço e vidros. ''Aquilo que no início dos anos 20 era uma construção intelectual, quase acabou virando uma verdade instituída'', continua Dudeque. Até mesmo as casas de concreto de duas águas seguiam ''mais ou menos'' o sistema básico das antigas residências de madeira.
Dividido em 12 capítulos, o livro ''Espirais de Madeira'' faz um passeio pela arquitetura curitibana ao longo de suas 440 páginas e mais de 550 ilustrações entre fotografias, mapas, plantas e cortes arquitetônicos. Entre as centenas de registros históricos destaca-se o da ''casa futurista''.
Ela aparece ainda dentro do conceito original, com a porta principal e duas janelas que curiosamente formavam o desenho de uma cruz. Logo após terminada a construção, seu proprietário, o engenheiro Frederico Kirchgassner, foi obrigado a alterá-la, pois intrigados transeuntes pensavam que fosse uma igreja.
O texto de Irã Taborda Dudeque narrando essas histórias é ágil, sem ranços acadêmicos. Enfim, uma viagem pelo tempo, onde o autor costura informações detalhadas sobre as residências e edifícios surgidos no período, com o contexto social e político que o cerca.
Folheando páginas dos periódicos da época especialmente da revista ''O Cruzeiro'' , o arquiteto trouxe para o livro não só as ilustrações das propagandas e fotos das casas, como achou por bem reproduzir trechos de reportagens e textos publicitários de então.
A dinâmica em todo o processo ganhou pontos por ser o autor também formado em História pela Universidade Federal do Paraná. Ele principia seu trabalho pelas raízes emocionais da cidade que motivaram ao longo do tempo uma contínua construção, erguimento de obras, rios desviados, vias de circulação ora sendo abertas, ora sendo fechadas. A ânsia da metrópole sempre foi a de fincar imagens que justificassem sua grandeza.


''Espirais de Madeira Uma História da Arquitetura de Curitiba'', de Irã Taborda Dudeque. Editado e distribuído nacionalmente pela Studio Nobel, recebeu apoio integral da Siemens através da Lei Municipal de Incentivo à Cultura, e da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo, nos trabalhos de pesquisa. Preço: R$ 45,00.

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