Arquiteto holandês discute arquitetura e urbanização no Sesc
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quinta-feira, 13 de maio de 1999
Por Antonio Gonçalves Filho 
São Paulo, 14 (AE) - A arquitetura contemporânea é uma mistura de onipotência com impotência. Incoerência e arbítrio são características do arquiteto moderno. Quem está fazendo esse discurso não é Tom Wolfe, o homem que culpou a Bauhaus pelo nosso caos. É o arquiteto holandês Rem Koolhaas, que participa amanhã (15), às 16 horas, no Sesc Belenzinho (Rua Tobias Barreto
1.699), do ciclo de palestras Intervenções em Megacidades. A atividade é preparatória do projeto Brasmitte, parceria do Sesc de São Paulo com o grupo de intervenção urbana Arte/Cidade, sob curadoria do filósofo Nelson Brissac Peixoto.
Koolhaas tem 55 anos e fundou há 24 anos o Office of Metropolitan Architecture (OMA), em Roterdã, um escritório de arquitetura para dialogar com outras formas de cultura moderna. É a incoerência em pessoa. Assume isso em seu livro S,M,L,XL (Small, Medium, Large, Extra Large), em que tenta expor suas idéias sobre urbanismo e globalização. Para quem considera a arquitetura uma aventura caótica, como Koolhaas, o livro deveria servir de guia para evitar as armadilhas de um mundo globalizado
aparentemente sem fronteiras, mas o arquiteto holandês não consegue ser didático. A palestra de amanhã pode, portanto, representar uma boa oportunidade para Koolhaas explicar melhor seu conceito de "grandeza".
Se é possível explicar o que é grandeza para Koolhaas, ela pode ser definida como a reinvenção arbitrária do espaço, uma transposição do que Lúcio Fontana fez na tela para a realidade da metrópole. Ou seja, Koolhaas propõe um mundo sem fronteiras, que acompanhe a expansão do universo, explorando as possibilidades que essas metrópoles oferecem, ou seja, a "beleza" de sua "grandeza". Outro conceito polêmico de Koolhaas diz respeito à uniformização das grandes cidades, que não deve ser vista como signo negativo dos tempos, mas como sinônimo de liberdade.
Para isso ele inventou outro conceito, o da "cidade genérica", sem características particulares ou sem história, incoerente. Ele propõe a absorção desse congestionamento de signos levando em consideração a própria experiência de globe-trotter. Já viajou 650 mil quilômetros, passou 550 noites de sua vida em hotéis e desenhou projetos para cidades no coração e na periferia do mundo.
Há quem considere os projetos do OMA tediosos, mas, em sua defesa, Koolhaas diz que adora arte que provoque tédio. Bach provoca tédio com sua sintaxe contrapontística, segundo ele, mas é genial. Já com a avant-garde Koolhaas não tem paciência. Sua máxima: onde nada existe, tudo é possível, mas onde há arquitetura, nada mais é possível. O século 20, observa, tem uma beleza terrível, citando como exemplo o amálgama babilônico do complexo de Les Halles e o Beaubourg, a ressurreição do delírio do faraó em plena Paris histórica.
Koolhaas é também teórico. Escreveu um ensaio sobre o muro de Berlim como arquitetura que provocou, no mínimo, desconforto. Comparou-o às ruínas de Pompéia, escrevendo que o muro foi a transgressão que acabou com todas as transgressões. Afinal, o princípio que norteou sua construção, afirma, são os mesmos que comandam a arquitetura moderna: divisão, enclausuramento e exclusão. O muro, conclui, sugere que a beleza da arquitetura é proporcional a seu horror.
Na Holanda, exemplos dessa teoria podem ser vistos em Utrecht (auditório da universidade ) e em Haia (o prédio da prefeitura). Há quem goste dos projetos de Koolhaas. Há quem deteste. Em sua defesa ele argumenta que os urbanistas têm sido incapazes de inventar projetos na escala exigida pela demografia apocalíptica do globo.


