Ele elaborou imagens modernas para substituir o visual de figuras milenares. Um trabalho difícil e que demandou ousadia. O estudante João Batista Júnior, acadêmico do último ano do curso de Desenho Industrial da Universidade Norte do Paraná (Unopar), redesenhou os 22 arcanos maiores do Tarô de Marselha. Para isso, se inspirou na moda e buscou na história vários elementos representativos. Sua fonte de inspiração foram as criações do estilista austríaco Thierry Mugler. ‘‘Um estilo extravagante, inovador, original, versátil e atemporal de uma linguagem iconográfica preciosa’’, define João Batista.
Os arquétipos da Roda da Fortuna: outra carta inspirada em modelo e cenário dos desfilles de MuglerO estudante procurou criar uma nova imagem para o tarô, sem, no entanto, modificar sua tradição esotérica. ‘‘O trabalho enriqueceu a simbologia pagã das lâminas. Essas novas imagens são apresentadas como extensão dos velhos símbolos e permitem ao leitor conectar-se através do tarô com seu cotidiano. Foi feito para o final do primeiro milênio, preservando o espírito do século 15’’, diz João Batista, explicando que procurou uma aproximação com o leitor, uma empatia maior das pessoas com relação às cartas. ‘‘O tarô tradicional às vezes assusta’’, diz.
Dorico da Silva/ReproduçãoA carta da Estrela significa a esperança e na versão de João Batista Júnior ganha design contemporâneoPara João Batista, o tarô é um tema difícil e, por isso, ele resolveu pesquisar somente os 22 arcanos maiores - de um total de 78 cartas. ‘‘Mesmo porque, os menores têm uma simbologia muito complexa’’, argumenta. João Batista leu aproximadamente 18 livros sobre o assunto no período de um ano.
Ele se inspirou em várias coleções e elementos de fotos de Thierry Mugler, na opinião do estudante, um dos quatro melhores em criatividade neste começo de século. ‘‘Ele trabalha muito com fantasia, o que leva aos sonhos. É uma ligação direta com o tarô’’.
Apresentando uma linguagem mais atual, João Batista conta que teve que trabalhar a simbologia sem modificar a tradição e o significado das cartas. ‘‘Cada cor ou expressão da figura que for modificada pode mudar tudo no tarô’’, observa. Ele explica que o Tarô de Marselha tem três cores básicas: azul, amarelo e vermelho. ‘‘São as cores primárias. O que eu fiz foi usar a simbologia dessas cores’’.
Dorico da Silva/ReproduçãoO Diabo do tarô aparece com corte moderno de cabelo, tal e qual a modelo de Mugler: alguém já viu um similar por aí?O estudante trabalhou com ilustrações em técnica mista de lápis de cor e aquarela e imagens digitalizadas. Antes de chegar à cada figura final, buscou várias alternativas. Para cada carta, João Batista criava dois ou três esboços. Mas os desenhos foram feitos em menos tempo. Demorada foi a pesquisa, que tomou mais da metade do ano.
O processo de criação foi bastante complicado. ‘‘Pensei em um tarô que contasse a história da moda, um outro que tivesse o trabalho de vários estilistas. Aí vi que estaria desvirtuando o tarô. Foi difícil direcionar para um estilista, mas cheguei ao Thierry Mugler, que se encaixava perfeitamente à proposta’’.
Além do redesign das figuras, João Batista criou novas molduras e um verso especial para as lâminas, feito a partir de um frasco do perfume Angel, do próprio estilista. ‘‘O que não deixou de ter seu significado. O verso da carta traz o símbolo do infinito e faz referência aos quatros elementos: ar, água, terra e fogo’’.
A idéia de João Batista não deve ficar somente no projeto. Ele já entrou em contato com editoras com a intenção de apresentar as cartas. Alguns especialistas no assunto viram o trabalho do estudante e a avaliação foi positiva. ‘‘Um deles chegou a dizer que a carta da ‘Justiça’ é uma das mais bonitas que ele já viu’’, conta, empolgado.
João Batista fez seu primeiro curso de moda em 1984 e, dois anos depois, foi para São Paulo trabalhar. Também morou três meses na França, deu aulas numa escola de moda de Belo Horizonte, passou mais um ano na Suíça e em 93 retornou a Londrina, onde iniciou o curso na Unopar. O redesign das cartas de tarô foi resultado do trabalho de conclusão deste curso. Ao escolher o tema para sua monografia, João Batista Júnior quis unir um trabalho de ilustração - ele desenha desde criança -e moda. Redesenhar as lâminas foi o meio.Dorico da Silva/ReproduçãoA carta da Imperatriz em versão moderna: vestido baseado no modelo de Thierry MuglerJackeline Seglin

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