ARQUÉTIPOS
PUBLICAÇÃO
sábado, 15 de março de 2003
Ana Setti<br> Reportagem Local 
Viagem à terra dos mitos
''Viver é muito perigoso'' já dizia o escritor Guimarães Rosa, embora nem fosse preciso recorrer à literatura para saber disso, especialmente nos dias de hoje. Contudo, estamos sempre buscando referências na experiência universal para obter algum tipo de resposta que nos dê alento frente à enormidade dos mistérios que permeiam a vida. Ao longo da história da humanidade, essas referências ou arquétipos - denominação de C.G. Jung para ''imagens psíquicas do inconsciente coletivo'' - compuseram um patrimônio comum a todos nós, que ficou conhecido como mitologia. São histórias de deuses e heróis, além de rituais que, desde os tempos de nossos primitivos ancestrais e de suas pinturas em cavernas e histórias contadas ao redor da fogueira, revelam como o homem lida com o transcendente - aquilo que está além de sua compreensão racional - e enfrenta os ritos de passagem, do nascimento à morte.
Joseph Campbell, pesquisador, professor e escritor, falecido em 1987, aos 83 anos de idade, considerava a mitologia - que foi seu objeto de estudo por toda uma vida - ''o canto do universo''. Acreditava também tratar-se de uma música que todos dançamos, mesmo quando não somos capazes de reconhecer a melodia. Isso porque os mitos, conforme imaginava, têm importante função em nossas vidas, exercendo forte influência em, pelo menos, quatro níveis da busca humana por respostas. O primeiro deles seria o místico, quando vivenciamos a maravilha que é o universo, a maravilha que somos nós e o espanto diante do mistério. ''Os mitos'', dizia Campbell, ''abrem o mundo para a dimensão do mistério, para a consciência do mistério que subjaz todas as formas''.
A dimensão cosmológica, da qual a ciência se ocupa, mostrando qual é a configuração do universo - o segundo nível -, revela apenas novas abordagens para os mesmos velhos mistérios, já que ''os cientistas podem nos dizer como as coisas funcionam, mas não o que as coisas são''. No terceiro nível, o sociológico, os mitos adquirem uma função de ''suporte e validação de determinada ordem social''. São muito variados, mas, como no caso das religiões, possuem inúmeros pontos comuns: ''histórias da criação, nascimentos virginais, encarnações, morte e ressurreição, dias de julgamento...'' Apesar das inúmeras divergências, muitas vezes até belicosas, as religiões pelo menos estão de acordo ''em solicitar de nós o mais profundo empenho no próprio ato de viver'', conforme destaca Campbell.
Isso nos leva à quarta função do mito que, segundo o estudioso, pode ser entendida como pedagógica. Nessa perspectiva, o mito nos inspiraria em relação a ''como viver uma vida humana sob qualquer circunstância'', especialmente ao nos estimular a reaprender ''o antigo acordo com a sabedoria da natureza''. Na aventura que é o viver, o herói mitológico - aquele que vai em busca de algo que é maior do que ele mesmo - pode se revelar um grande aliado. Se seguirmos sua trilha, ''onde imaginávamos viajar para longe, iremos ter ao centro de nossa própria existência. E lá, onde pensávamos estar sós, estaremos na companhia do mundo todo'', como descreve Campbell.
Embora não tenhamos consciência disso, a trajetória do herói é percorrida por todos nós no decorrer de uma existência. Nascer é um feito glorioso; viver, mesmo ciente da inevitabilidade da morte, é outro; buscar um sentido para se levantar de manhã e enfrentar as incertezas da vida, também. E em tudo isso, as passagens difíceis: abrir mão da infância, para se tornar adulto; abrir mão do egocentrismo, para conseguir estabelecer compromissos emocionais; envelhecer com sabedoria, a partir da conquista da mais ampla consciência possível de si mesmo e de seu papel no mundo. ''Viver é um ato de heroísmo'', poderíamos parafrasear Guimarães Rosa, e os mitos, nessa perspectiva, nos ajudariam a enfrentar o desafio, uma vez que nos levam a refletir sobre o que há de mais humano em cada um de nós.
Serviço: Para saber mais: Livro ''O Poder do Mito'', de Joseph Campbell e com Bill Moyers, da editora Palas Athena


