Aroma de cravo e canela
PUBLICAÇÃO
sábado, 16 de junho de 2012
Geraldo Bessa <br> TV Press 
Recriar um clássico é um risco. Primeiro, pela inevitável comparação com o original. Depois, por poder ser considerada uma mera cópia do original. A primeira adaptação para a tevê do livro ''Gabriela, Cravo e Canela'', de Jorge Amado, feita em 1975, por Walter George Durst, entrou para a história da teledramaturgia ao apresentar uma Sônia Braga lasciva e visceral. E imediatamente tornou a atriz uma referência de mulher brasileira.
Para comemorar o ano em que o autor baiano faria 100 anos, a Globo aposta no remake de ''Gabriela''. O resultado pode ser conferido a partir de amanhã, às 23h. ''Comparações serão inevitáveis. Sei da responsabilidade de reviver esse papel. A Sônia é diva! A preparação foi intensa e me deu segurança para mostrar a minha interpretação para Gabriela'', ressalta uma nervosa Juliana Paes, intérprete da personagem-título na nova versão do folhetim.
Sem se importar com possíveis críticas e comparações, Walcyr Carrasco, responsável pela nova adaptação, garante que não assistiu à primeira versão e que, por estar totalmente focado no livro, seu texto não faz qualquer menção ao trabalho de Durst. Por isso, o autor não encara ''Gabriela'' como um remake. ''A novela terá outra 'pegada'. Já li 'Gabriela, Cravo e Canela' muitas vezes. Por isso, assinar esse texto na tevê é como a realização de um sonho. Gosto da maneira como o autor retrata uma sociedade em transformação'', elogia Walcyr.
Em uma Ilhéus do início do século XX, o improvável encontro amoroso entre a retirante Gabriela e o solitário Nacib, de Humberto Martins, tem como pano de fundo os conflitos políticos e morais de uma região sob total influência dos coronéis da Era do Cacau, sobretudo do poderoso Ramiro Bastos, de Antônio Fagundes. ''A cidade inteira fica chocada com a chegada de Gabriela. Ela é a personificação da liberdade: só faz o que quer, segue seus instintos e não tem medo de mostrar seus desejos'', define Humberto Martins.
Com direção de núcleo de Roberto Talma e direção-geral de Mauro Mendonça Filho - mesma dupla responsável pelo ''remake'' de ''O Astro'', exibido no ano passado -, ''Gabriela'' faz parte da retomada de investimentos da Globo em novas versões de tramas clássicas na faixa das onze da noite. ''É um horário perfeito para fazer a melhor abordagem do livro, que é forte, não só do ponto de vista sexual, mas político também. Estou adorando voltar a esta trama, que agora será contada com tecnologia de ponta'', ressalta Talma, que também estava na equipe técnica do folhetim de 1975.
Totalmente captados em alta definição, cada um dos 76 capítulos previstos para ''Gabriela'' teve custo médio de R$ 400 mil. O trabalho para a produção começou em novembro do ano passado, quando autor e diretor foram até Ilhéus e outras cidades do Sertão Nordestino definir possíveis locações. ''Por se tratar de um produto especial para a emissora, as escolhas técnicas foram cercadas de cuidados. Desde a fotografia de cores quentes, passando pela recriação de lugares reais em estúdio, figurinos e maquiagem'', detalha Mauro Mendonça Filho.
As primeiras sequências de Juliana Paes como a personagem foram gravadas no árido interior do Piauí. Enquanto isso, a equipe do cenógrafo Mauro Monteiro construía uma Ilhéus coerente com a década de 20, no Projac - Central Globo de Produção, localizada na Zona Oeste do Rio de Janeiro. ''A cidade é um dos personagens mais importantes da trama e interage com o elenco. Por exemplo: quem está no bar do Nacib, tem de ter a visão exata da janela onde está a Glória'', explica o cenógrafo, referindo-se ao Bar Vesúvio, ponto de encontro dos homens da cidade, onde é possível observar a exibicionista personagem de Suzana Pires. ''Gabriela centraliza a trama, mas o livro tem histórias paralelas bem instigantes, como a moça da janela, as meninas do bordel Bataclan, amores 'shakespearianos', traições...'', valoriza Walcyr Carrasco.
Contrariando o autor, a nova versão guarda uma forte e importante semelhança com a trama do passado: a excepcional trilha sonora da novela. ''Seria estranho ter outra música de abertura que não fosse 'Modinha Para Gabriela', na voz da Gal Costa'', acredita o diretor Mauro Mendonça Filho. Além da música de abertura, manter temas de outros núcleos como ''Filho da Bahia'', interpretado por Fafá de Belém, e ''Alegre Menina'', de Djavan, foi um consenso entre emissora e equipe de produção. ''São versões definitivas. Mexer nisso seria um pecado!'', exagera Talma.


