Arnold Schwarzenegger enfrenta o diabo em "Fim dos Dias"
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terça-feira, 30 de novembro de 1999
Por Luiz Carlos Merten 
São Paulo, 30 (AE) - É o Natal do anticristo. Arnold Schwarzenegger, que já foi o exterminador do futuro, enfrenta o próprio diabo em" Fim dos Dias". O filme de Peter Hyams estréia na sexta-feira. Logo em seguida virá "Stigmata", sobre os signos que confirmam, nas pessoas, a chegada do Cão. Dezembro promete muitas emoções. O reino do mal está próximo, mas não vai se concretizar. Ou você tem alguma dúvida de que Super Arnold não vai conseguir vencer o demônio?
Além de diretor, Hyams é fotógrafo de "Fim dos Dias". Ex-jornalista, tem a seu crédito alguns filmes apreciáveis. Não se pode dizer que não tenha feito um trabalho competente. O problema do filme é de concepção. Toca o conceito mesmo. Schwarzenegger já enfrentou muitos vilões ao longo de sua carreira. Seus filmes estão entre os mais barulhentos produzidos por Hollywood. O bom de Schwarzenegger é que ele normalmente não se leva muito a sério. Seus filmes são fantasias não destituídas de humor. "Fim dos Dias" pretende-se sério. Ponto contra.
Como não se trata de um vilão qualquer, mas o Cão, a síntese de todo o mal, o filme tem de ser superlativo. Tudo é over em "Fim dos Dias". Música, imagem, cenografia, tudo é carregado até quase o limite do insuportável. Os movimentos de câmera não são simples travellings, panorâmicas e gruas. Têm de ser todos complicadíssimos, vertiginosos até quase deixar o espectador mareado. E dê-lhe explosões. Se você gosta deste tipo de coisa, este é o filme.
Nos Estados Unidos, parece que o público não foi muito receptivo. "Fim dos Dias" está em terceiro na relação das maiores bilheterias atuais, depois de "Toy Story 2" e do novo "James Bond, O Mundo Não É o Bastante", que, em menos de uma semana, já faturou US$ 80 milhões, contra US$ 31 milhões do novo estrago de Schwarzie. Nada disto tem a ver com arte, claro, mas se o espectador quiser pensar nesses filmes como manifestações artísticas deveria ter sua cabeça examinada. Não são filmes, são fenômenos de consumo.
"Fim dos Dias, Stigmata" e até o novo filme de Roman Polanski com Johnny Depp ("The Eighth Gate") batem na mesma tecla. Ao escolher o diabo como vilão remetem a medos profundos do homem numa data tão significativa como a passagem do milênio. A ansiedade e o medo podem ser genuínos, como se o homem neste fim de século e milênio não estivesse muito seguro do que nos espera no futuro. É como se fosse um salto no escuro.
O filme de Peter Hyams tenta achar respostas para o fenômeno. Ao fazer com que Schwarzenegger combata o diabo procura, por meio da catarse, tranquilizar o público em relação ao desconhecido. "Fim dos Dias" não deixa de ser uma parábola sobre a essência do cristianismo. Diz bem do que seja Hollywood o fato de Schwarzenegger ser a moderna encarnação do Cristo. Quando o filme começa, é um homem em crise. A mulher e a filha foram mortas, o herói vive o vazio de uma existência sem sentido. Para expressar isto, o diretor cria uma cena um tanto disgusting - a do café da manhã do herói. Veja para crer.
Entra em cena o diabo, personificado por Gabriel Byrne. Se conseguir fecundar a virgem interpretada por Robyn Tunney entre as 23 horas e a meia-noite de 31 de dezembro de 1999, será o fim da humanidade. Para impedir que isso ocorra, Schwarzenegger é crucificado, ressurge dos mortos e sacrifica-se
como Cristo, para impedir o fim dos dias. Não falta nem mesmo um milagre, com a redenção final do herói. Como paráfrase bíblica, é ridículo. Schwarzenegger devia continuar enfrentando vilões mais convencionais. Seria melhor para todos.


