Sujou geral, gente boa. A crise está aí. O peep show voyeur que continua na América não deixa mais dúvidas. Só não sabemos qual será a extensão do crash. Ler os jornais de economia é cair num mar de ‘‘se’’, de ‘‘talvez’’, de ‘‘por acaso’’. Os economistas têm com a linguagem os cuidados dos médicos de pacientes terminais: ‘‘só Deus sabe... fizemos o possível... a falência de seu país era esperada, vocês não fizeram o dever de casa... mas se adotarem medidas enérgicas...’’. A barra pesou, manos, mas acho que, para nós, pobres ‘‘ex-subdesenvolvidos’’, ‘‘ex-emergentes’’ e agora ‘‘neo-insolventes’’ já dá para arrancar algumas certezas da crise, um manual de sobrevivência para o fim de milênio. Eu sou um pobre homem do subúrbio do Engenho Novo mas, para mim, alguns fatos óbvios já ululam:
O primeiro toque, malandragem, é deixarmos de ser otários e pararmos de acreditar em papo de gringo. De certa forma, acho dialeticamente (perdoem a palavra) que nossa lentidão de reformas nos ferrou e ao mesmo tempo, nos salvou de um conto do vigário maior. Reformas sim, privatizações, tudo; mas, cuidado - ‘‘um olho no gato, outro no peixe fritando’’, como canta o Zeca Pagodinho.
Não esquecer, rapaziada, que ‘‘capitalismo’’ (global ou não) não é um regime político; é um modo de produção, como diria Marx.
Como escreveu Fernand Braudel, depois de concluir sua obra titânica ‘‘civilização material, economia e capitalismo? Economia de mercado é uma coisa; capitalismo é outra’’. Ou, como disse Claude Lefort: ‘‘não podemos entender a globalização globalmente’’... Há uma globalização da economia (inevitável); por cima dela, há uma globalização política-ideológica (modificável). Washington tem uma; podemos ter outra.
Está na cara, malandragem, a evidência escandalosa da incapacidade americana para entender o resto do mundo. Sua maravilhosa engenhosidade que os fez líderes do planeta, capazes de ir a Júpiter e amarrar a coca-cola para sempre em nosso destino é inversamente proporcional à sua capacidade de entender os outros. Seu triunfo como civilização se faz à custa de uma obsessão de quatro séculos pelo mercado. Tal competência lhes causou uma cegueira para a diferença. Ficou claro que não dá para os USA (leia-se FMI, World Bank etc.) imporem um só modelo de capitalismo a países que não tiveram a mesma formação cultural e ideológica. Nem todo mundo foi colonizado por puritanos, sob a ética protestante do trabalho. Sua potência, que nós invejamos, quer nos impor uma visão única de sociedade, uma idéia tirânica de liberdade. ‘‘Liberdade’’, aliás, é o nome que eles dão a nossas fronteiras abertas e às deles, fechadas e sobretaxadas.
Os USA acharam que podiam melhorar o mundo ‘‘no barato’’ (on the cheap), como disse o Jeffrey Sachs no ‘‘The Economist’’. ‘‘A América tentou vender seu ethos social no barato: os ricos não precisam gastar dinheiro para ajudar os pobres. Se entrarem no nosso sistema, os pobres podem subir de nível de vida e ficar ricos também, como nós...’’ Não é prático? Só que não rolou. Quebrou todo mundo. O capitalismo vai ter de ser reformado. Já houve vários tipos de capitalismos, pelos tempos afora. A velha receita de farmácia do FMI não funcionou. Todos concordam que uma açodada liberalização financeira global foi um dos gatilhos do bode preto mundial.
Há um retrocesso em andamento. Já raiou no mundo a bruta luz dos fundamentalismos. Não só na Argélia ou no Afeganistão; em Washington também. A inquisição contra Clinton, feita pelos republicanos do Velho Testamento, é a vitória da pior América contra a tentativa de dialogar e compreender o mundo, tentada pelo filho dos anos 60, que está sendo queimado vivo, para a glória da velha bíblia da intolerância. Como disse um democrata ontem no Senado: ‘‘Perto dos republicanos, os xiitas do Taliban tinham de ganhar a medalha da tolerância religiosa.’’ O rigor moralista que querem impor ao Clinton é igual ao rigor das medidas econômicas que nos receitam. O Ken Star é da família daquele casal do quadro de Grant Wood, o ‘‘American Gothic’’.
Vai começar novo ciclo: estatismo, nacionalismo, protecionismo. Inclusive nos USA.
Vai surgir a chantagem atômica, como nos filmes de James Bond. ‘‘Moratoria sim, e daí? Vai encarar?’’, dirá a Rússia. ‘‘Ahh... a gente sequestra os aviões da Aeroflot!’’ Quem terá peito? Varig é mole...
Vai ter de haver uma reformulação da dívida externa dos países pobres. Talvez até um novo Plano Marshall (estás falando nele de novo), do contrário teremos uma cascata de moratórias. O G7 vai ter de aumentar sua mesa-redonda para caberem os países pobres: América Latina, Ásia, África. Sem um entedimento desta mútua dependência dos fracos e fortes, a nossa peste pode pegar neles, como a Aids, que saiu dos macacos verdes da África e entrou no rabo dos americanos brancos.
No entanto, manos, o drama do capitalismo global é que ele nos vendeu a idéia de uma ‘‘saúde econômica’’ para todos, que faria a leve, linda e solta circulação das mercadorias. Mas o capitalismo precisa da dependência e da fraqueza dos fracos. A miséria não é uma falha; é uma produção. Esta bela ‘‘utopia das vantagens comparativas’’ esbarra no seguinte problema: quem vence? quem é o mestre e quem o servo? O ideal dos economistas republicanos é que vivamos, fregueses doentes e dependentes, mas sem morrer.
Mas, aí é que vem o ‘‘esgano’’. Como organizar este quase impossível ‘‘mercado solidário’’? Teria de haver ‘‘meio lucro’’, meio interesse’’, ‘‘meia hegemonia’’. Isto não está no livrinho de Walt Street. Ou seja, a encrenca é: só o capitalismo americano pode salvar o mundo, mas como a raposa vai organizar a proteção das galinhas contra as raposas?
Ficou também evidente a ineficácia da maior potência do mundo diante da política externa; estão todos seus inimigos vivos e passando bem, construindo suas bombinha e seus ‘‘antraxes’’ para nos sufocar: Sadam Husein, nacionalistas indianos, Khadafi, e até ‘‘amigos’’ arrogantes e sinistros como o escrotérrimo Bibi Netaniah.
Outra certeza deste pobre que vos fala é que nós, os emergentes, vamos ter de ser senhores de nosso próprio destino (desculpem a expressão). Temos de desenhar um projeto de Brasil (arggh...) dentro das possibilidades da nossa pobreza real. A teoria da dependência não estava afinal tão superada assim. FHC vai ter de lembrar do que escreveu. Não podemos continuar dependentes nem da doença sexual da boneca muito louca do Starr nem dos fundos de pensão das velhinhas da Califórnia.
Todo mundo fala em ‘‘Terceira Via’’, mas ninguém sabe como é: a única ‘‘terceira via’’ que eu conheço (e que deu o maior auê) é o blow job’’ (‘‘boquete’’) de Monica Lewinsky no Clinton.
Há algo de terrível e agourento quando uma vagina gera crise financeira. O privado, a petite histoire, o nada, a bobagem contaminado o público, o universal é sinal de fim de tempos, é sinal de extrema fragilidade do sistema geral do mundo. Os USA acusam os emergentes da Ásia, Latinos etc... de não terem feito o seu homework. Está na cara que eles também não fizeram. Agora, os USA vão ter de fazer seu ‘‘dever de casa’’.
Algumas conclusões vagabundas: o socialismo durou 70 anos. O neoliberalismo 7. Como dizia minha avó: ‘‘Quem nasceu para pataca nunca chega a vintém.’’ O réveillon do ano 2000 vai ser o maior mico preto.

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