Esta semana, em Vitória, reunem-se representantes dos partidos da esquerda tradicional, para um seminário de autocrítica e projetos alternativos ao modelo atual. Esta reunião pode ser fundamental para o Brasil. Aqui vão alguns tópicos que considero essenciais para o debate - temas subjetivos e objetivos:
- Não culpar somente o mundo, perverso e liberal, pela perplexidade das esquerdas. Tentar uma auto-crítica funda: ‘‘onde temos errado no modo de ver o mundo?’’ Como pudemos subestimar tanto a discrepância entre os objetivos grandiosos (vide 64,68) e a ausência de meios práticos para atingi-los?
- Entender as causas da sabotagem de membros do PT a governadores do PT como Vítor Buaiz e Cristovam Buarque. Entender por quê o poder conquistado gera uma vaga desconfiança de ‘‘desvio de direita’’, mesmo em seus eleitores.
- Analisar se o PT prejudicado ou não pelo ‘‘ideologismo’’ de intelectuais pequeno-burgueses, em contraposição a extrema novidade do sindicalismo de Lula no ABC em 70-80.
- Avaliar se suportamos a idéia de ‘‘democracia’’ como a real tolerância de diferenças e ambiguidades, por vezes até ‘‘irritantes’’. Não estaremos usando ainda ‘‘democracia’’ como uma palavra tática, ‘‘burguesa’’ como nos tempos do leninismo?
- Como lutar contra os perigos de um liberalismo selvagem, sem achar paranoicamente que ele é um complô de homens ‘‘maus’’ tramando em Washington contra nós? Como evitar a ‘‘teoria conspiratória’’ da História?
- Entender que política se faz dentro de um ‘‘mundo real brasileiro’’, feito de vícios coloniais, de heranças ibéricas. Velhos hábitos culturais marcam nosso caráter, além da economia e ideologia. Ver em que medida estes vícios atacam a própria esquerda. Vide: ‘‘Raízes do Brasil’’ de Sérgio Buarque de Holanda.
- Entender que pode haver progressos materiais na história torta (mas, concreta) do mundo, que é incontrolável e implanejável. Até casual. Ex: ditadura militar gerou o ABC.
- Como trabalhar pelo progresso, tendo de abandonar a idéia superada de que o ‘‘Homem é o sujeito da História’’, como pensavam os socialistas utópicos? Como ser progressista sem ser voluntarista? Ou seja, como casar a luta política com a invencível circularidade desordenada do mundo? Como fazer um programa ‘‘de esquerda’’, sem a idéia (inviável hoje) de ‘‘revolução’’? Como fazer projetos sem cair em utopias regressivas e nostálgicas?
- Como parar com a idéia de que sutileza é ‘‘frescura pequeno burguesa’’ e que uma sadia obviedade ignorante é sinônimo de ‘‘seriedade ideológica’’? Ou seja, que dúvida é ‘‘hesitação pequeno-burguesa’’ e que complexidade é ‘‘frescura’’? Ou ainda, como acabar com a idéia de que radicalização é ‘‘coisa de macho’’ e alianças ou diálogos ‘‘coisa de viado’’?
- Entender a tese de Marx de que ‘‘se chega à simplicidade pela aceitação da complexidade e não o contrário’’. Ninguém doma o complexo pelo uno. Isto é totalitarismo.
- Como evitar as seduções do ‘‘finalismo’’ e da ‘‘boa consciência’’? Ou seja, como evitar que a beleza dos objetivos (justiça, progresso) faça-nos descuidar dos meios práticos de atingi-los?
- Incluir na pauta a importância política do Desejo humano. Como ensinou Freud. A não-consideração deste desejo e suas pulsões foi uma das causas da queda do socialismo. ‘‘O Inconsciente é o discurso do Outro’’ (Lacan) e não o ‘‘discurso da pequena burguesia’’. A esquerda precisa de psicanálise.
- Evitar o uso de conceitos ‘‘holísticos’’, os grandes vícios lusitanos abstratos e genéricos: Homem, Totalidade, Unidade, Ordem, Absoluto, Universal, Realidade Brasileira (qual delas?). Incorporar e usar conceitos como: ‘‘sobre-determinação’’, ‘‘co-extensividade’’, ‘‘ironia’’, ‘‘contingência’’, ‘‘ambivalência’’, ‘‘parcialidade’’. Além do uso de ‘‘ou isto ou aquilo’’ (ou/ou) incorporar o uso de ‘‘isto e aquilo’’ (e/e). (Ingl: ‘‘either/or; both/as’’.
- Entender a diferença entre solidariedade e corporativismo. Perguntar-se: estou defendendo o povo ou corporações arcaicas?
- Fazer auto-análise: estou ajudando os pobres ou, com minhas declarações de amor, vivendo às custas deles?
E ainda mais concretamente:
- Como melhorar a vida do povo sem fortalecer a economia como um todo, dentro do mundo atual?
Como diminuir o déficit público sem reforma fiscal?
Como governar estados com a folha de pagamento estourando 100% do orçamento?
Como resolver impasses tipo: dos 70 bilhões arrecadados pela Previdência, 35 bilhões pagam aposentadoria a 90% dos aposentados. Os outros 35 bilhões pagam aposentadorias de marajá a 10% dos inativos.
Como acelerar a reforma agrária dentro do sistema jurídico e burocrático atual?
Como fazer uma política industrial, para nos defender dos novos enleios do imperalismo global?
Como seria, sem adjetivos, concretamente, uma política de inclusão social?
Ou seja, como dizia Lenine: ‘‘Que fazer?’’
Ou, como dizia Freud: ‘‘investigue seus motivos insconscientes’’. Espero ser útil, Vitória...

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