O editorial do ‘‘N.Y. Times’’ terminava assim, no sábado: ‘‘A verdade esta à solta, girando sem controle. Vai dar em quê?’’
Que verdade? - pergunto eu. A verdade americana, a verdade republicana, a verdade brasileira? Que ‘‘verdades’’ se escondem atrás desta súbita onda de ‘‘Verdade’’, que o promotor Kenneth Starr expôs ao mundo?
Que está querendo provar este ser estranho, com sua cara de anos 50, detalhando em relatório cada chupadinha, cada zunir de zip da braguilha do ex-homem mais poderoso do mundo? Está querendo provar que os presidentes têm de ter uma vida sexual prevista na Constituição? E se um presidente for veado? Pode? Ou será ‘‘impichado’’? Se gostar de apanhar de cinto, como provavelmente Starr gostaria. Qual será a tara do Starr? Todo mundo tem sua tara. Qual é a dele? Amar o Clinton? Destruí-lo? A direita americana exibe ao mundo esta Verdade, como um carro alegórico. No entanto, esta ‘‘verdade’’ é um buraco negro que faz desaparecer outras verdades maiores.
A ‘‘Verdade’’ deste filho de um pastor fundamentalista é uma restauração de ‘‘verdades’’ que foram quebradas nas décadas de 60 e 70 por novas formas de comportamento humano. Agora, a ‘‘old time religion’’ volta no sorrisinho do Starr e nas fuças da Tripp. Na cara destas pessoas está patente como é terrível esta vitória do ‘‘Bem’’: a negação de instâncias complexas de uma moral moderna, a busca de ‘‘pureza’’ linear calvinista, de uma correspondência entre o dito e o feito. Há algo de sinistro na vitória de Starr. Ele ganhou a guerra, é verdade. É verdade que Bill mentiu. É tudo verdade e no entanto, é terrível. A verdade de Kenneth Starr, a mediocridade ‘‘patricinha’’ de Monica, todo este folhetim pornô é uma verdade arrancada a fórceps, é uma verdade intrusa que danifica a América e o mundo, é uma verdade que cheira a linchamento, a racismo, a uma Bíblia intolerante. A verdade que ‘‘está à solta’’ é uma verdade moralista que tem uma rima antagônica, mas simétrica, com os programas do Jerry Springer ou com os nossos ‘‘ratinhos e leões’’ da TV.
Como dizia o Nelson Rodrigues, ‘‘se todos soubessem da vida sexual de todos, ninguém falava de ninguém’’. Qualquer um que verrumar a solidão humana acha um ‘‘crime’’ oculto. A verdade absoluta é um sonho totalitário. O que seria da sociedade sem a mentira? O que seria do homem sem a privacidade de sua loucura? Sem dúvida, é verdade é que o Clinton, este ‘‘baby boomer’’ que tentou fazer um acordo entre a modernidade e a ambição, que fumou mas não tragou, que comeu, mas não tocou, que fugiu do serviço militar, mas não desertou, quebrou a cara. No entanto, havia alguma coisa ambiguamente revolucionária na mentira de Clinton, como se ele dissesse que valia a pena fingir de careta para não ser, valia a pena se vestir de confiável e convicto ‘‘conservador’’ para impor modernidade. Clinton se imaginava ‘‘maquiavélico do bem’’; para ele valia a pena mentir, fazer acordos espúrios, receber dinheiro de chineses para atacar o lado ‘‘reacionário’’ da América. E foi desmascarado. O fim do milênio quer transparência, qualquer privacidade pode ser considerada subversiva.
Este filme está passando no mundo inteiro: o Titanic político. Todos os defensores da conciliação política estão caindo. Gorbatchev caiu, Ieltsin perdidaço, Helmunt Khol, FHC enrolado entre aliados e inimigos. Pelo menos está ficando óbvio que a lógica da ‘‘América corporativa’’, verdadeiro nome da globalização, não admite nuances e meio-termos. A lógica inflexível da austeridade contábil é igual a austeridade moral de Velho Testamento que Starr propõe. A conduta do Clinton foi de otário, sem dúvida, pois não viu o ‘‘fio desencapado’’ que a menina era. Foi babaca, narcisista, mas o massacre que o homem mais poderoso do mundo sofre nos ameaça a todos como castração. Sinto meu pobre pênis cortado diante disso.
Outra verdade política que esta verdade ‘‘moral’’ esconde é que há um ataque contra a própria existência da instituição da presidência, da direção política de um país, coisa do passado, resquícios do estado-nação atrapalhando os ‘‘fluxo livres’’ do capital. O ideal da ‘‘América corporativa’’ é uma economia sem Estado.
Este escândalo é regressivo, decadente. Kennedy arrebentado a tiros na limusine foi brutal, mas teve uma grandeza trágica ao dessacralizar o cargo. A queda de Nixon foi um progresso; o mundo avançou com o Watergate, pois a truculência da direita foi denunciada e punida. Já a queda de Clinton, haja ou não impeachment, é um golpe bufo, expondo ao mundo a perda do direito à privacidade, ao sexo e seus mistérios, é o fim de qualquer reverência ao Poder, é o fim do estadista, pela ‘‘tabloidização’’ da vida íntima, como foi com Lady Di. É um golpe para trás.
No Brasil, tudo que é público é considerado privado, como bem sabem os corruptos endêmicos. Na América, tudo que é pessoal, virou um espetáculo público. A pretensa verdade de Starr mostra também que não há onda ‘‘neoliberal global’’ qualquer desejo globalizante, qualquer remoto respeito por um ‘‘bem público’’. Estamos todos expostos às mais vagabundas bobagens privadas dos americanos. Precisamos de um protecionismo contra a loucura individualista dos donos do Ocidente.
Este ‘‘affair’’ privado pode mudar a vida pública do mundo todo. Ontem no ‘‘Times’’ o escritor Robert Wright cita o ‘‘efeito borboleta’’, uma tese da ‘‘teoria do caos’’: ‘‘pode um bater de asas de boroboleta no Brasil provocar um tornado no Texas?’’ Hipótese muito metafísica. Esta fórmula serve-nos bem, mas ao contrário. Ou seja, pode um bater de cílio de uma borboleta chamada Monica causar a derrocada da economia brasileira? Pode. Por que os espetaculadores atacaram o real justamente nesta semana? Porque o FMI, que jurou ficar do lado da América Latina, está com a credibilidade zero. O republicano Trenton Lott, líder no Senado, chegou a dizer que o Michel Camdessus não passa de um ‘‘socialistazinho vindo da França’’. Clinton tentou arranjar mais dinheiro para o FMI emprestar aos falidos, 18 bilhões, e os republicanos negaram. E agora, então? Pode cair Rússia, nós todos, eles pouco se lixam. Nós, os emergentes, temos de ser punidos por nossos ‘‘excessos’’, como o Clinton está sendo. Essa gente, a maioria da América, está interessada nos lucros do tabaco, nos planos de saúde, na indústria de armas, na conquista de mercado e nas eleições de novembro. Se o mundo acabar, com os foguetes dos falidos russos, não faz mal. A teoria do caos pode rolar sim, mas está claro que existem ‘‘borboletas hegemônicas e borboletas periféricas’’. Tudo é mercado. Estamos perdidos. Os republicanos vão fazer conosco o que Clinton afirma não ter feito na gorduchinha do Apocalipse.

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