Arnaldo Jabor
O contrário da burguesia não é a boêmia; é o proletariado. É mais ou menos assim a frase de Oswald de Andrade. Ela é muito útil para o Brasil de hoje. Com a massificação dos costumes está havendo uma democratização de mão única. Aos pobres e periféricos é distribuída uma cultura de cima para baixo. Assim, os miseráveis começam a ter hábitos miméticos dos ricos e brancos, que por sua vez chupam a cultura globalizada, consumindo as novidades americanas. Vejam, os bens de consumo estão chegando às camadas mais baixas! Vejam, a modernidade entra na periferia! Vejam, a Nike, a Sony e o cacete-a-quatro estariam domesticando as feras da miséria, pelo saudável escorrimento dos sabores de uma cultura de classe média para os hábitos dos pobres, numa mutação da teoria do trickle down economics para um trickle down culture. Esta mentirosa democratização foi o bordão dos anos noventa, no período de euforia neoliberal. Tudo seria resolvido pelo fim da história. O fim das ideologias acabaria com estas bobagens de classes sociais, de diferenças de pensamento. Esta desculpa moderna deu um gás novo para a burguesia narcisista.
Eu nunca vi, como agora, uma tal desfaçatez dos ricos e famosos, dos bregas e cafonas. Eufóricos com o beco sem saída ideológico-econômico, badalam como nunca. A soma do narcisismo desenfreado e da estupidez resulta no mais empalidecedor espetáculo de sordidez que eu já vi. Não há a mais vaga tentativa de discrição ou de temperança. As colunas sociais, as revistas tipo Caras viraram preciosos museus da cafajestice brasileira. Até agora a democracia neoliberal só serviu para turbinar os colunáveis caretas e suas peruas. Os miseráveis (infelizmente, coitados...) ficaram excluídos pela falta de saída...e tome polca no Leopolldo.
Os sujos e os limpos
Foi neste cenário que os Racionais MCs surgiram. E quinta-feira passada foram ovacionados de pé no MTV Awards. Eu não fui, mas me contaram. Vi o clipe deles. Sem requintes musicais ou poéticos, sai do conjunto de parcos uma verdade que há muito não se sente. Não há neles aquela rebeldia requentada e fajuta dos atuais rocks do mundo, a revolta vagabunda e pasteurizada que nos dá saudade dos antigos e verdadeiros roqueiros históricos.
Enquanto tocava o Diário de um Detento, na platéia, uma menina linda de minissaia dourada suspirou: Eu quero dar para o Mano Brown!
A menina sacou ali uma força nova. Os Racionais engolem o rap e iniciam uma nova antropofagia espontânea. Assim como os tropicalistas comeram e devolveram o internacionalismo pop, os Racionais comeram os restos de São Paulo e vomitam o lixo reciclado. A música é tosca e boa. As letras saem de um bruto e duro (mas novo) repertório. Não é a miséria pensada por pequenos burgueses culpados. É a coisa real, the real thing, voltando. É o apagamento de fronteiras construídas pela má distribuição de renda. É o retorno do reprimido pela democracia formal. Os Racionais são filhos da miséria, mas sua ação é fruto deste sujo desenvolvimento feito de supérfluos e importados, deste progresso virtual do milagre brasileiro parte 2 que nos assola com sua imunda modernidade. O que os Titãs prefiguraram com sua obra-prima Comida, eles realizam na prática. No MTV Award, o Mano Brown falou: Minha mãe já lavou roupa de muito playboy aí da platéia... É muito útil o relançamento desta palavra. Tem playboy demais hoje em dia. Surge uma nova divisão: playboys contra manos. Surge alguma coisa nova para além da única fronteira que existe: a Morte. Neste mundo da Morte ninguém entra; só quem nasce lá. Lamentamos os Carandirus da vida, mas falamos de nariz tapado: Que horror! E é só.
Entre a Morte e nós, os limpinhos, de vez em quando surge algum emissário para nos purificar. O motoboy é um exemplo. Todos somos bons diante do motoboy. Por isso, ele está sendo arrastado como um Cristo de lixo para purificar a opinião pública. O motoboy nos limpa. Os Racionais nos sujam. Eles não são objeto de nossa caridade, nem de nosso iluminismo. Eles são Sujeitos da Miséria. Nasceram dela; não falam dela. Eles têm autoridade no que cantam. Não estão em busca de ajuda, nem de solidariedade. Não são gratos, nem pedem nosso apoio. E isso vai enlouquecer as bichas ideológicas culpadas, que não sossegarão enquanto não os cooptarem. Eles descentram os Jardins.
Em geral, os artistas falam da miséria por vontade de parecer bom e puro, por demagogia, para agradar humanistas ou por lucro (filme contra a miséria é bom negócio). Fala-se da miséria como um vago lamento, como se ela fosse nosso problema existencial. Aqui, não. Os Racionais não são Sudão, não são excluídos chorando, não são marginais tristes, nem são atores ideológicos de um movimento popular de cultura tão ao gosto dos burguesinhos. Eles são a nossa crítica. O que os faz importantes não é porque são fracos; é porque são fortes. O que os faz importantes não é o que dizem; é o fato de estarem aí. Eu não entendo de música pop, nem quero ser o primeiro sedutor dos Racionais para bancar o progressistazinho. Danem-se. Os Racionais não são saída para nada, porém são um sintoma de que nem tudo esta parado. Não acreditamos mais que a luta de classes seja o motor da história, como queriam os clássicos. Mas esta brutal divisão de rendas vai gerar novas tragédias. A miséria cresce e se reproduz como vida raivosa. A morte começou a gerar vida. Pobre só entra na mídia pelo crime. Estes entram pela arte. Manos contra Playboys.
A menina de minissaia dourada quer dar para Mano Brown. Resta saber se ele quer comer.
As periferias vão continuar crescendo, se parindo em novos porta-vozes. Um dia, não vai dar mais para tapar os olhos. E vai ficar mais vergonhoso este eterno baile de vagabundos gargalhando nas revistas, se achando democráticos por serem festivos e porraloucas. Boêmio não é o contrário de burguês... Os Racionais são paulistas. Lá não tem samba, malemolência e outras bossas. Miséria lá é sem cultura. Miséria lá é profissão de ratos. Um novo tempo não virá do Rio nem da Bahia; virá da periferia de S.Paulo.





