Arnaldo Jabor
Cheguei em meu site e Maria não estava. Minha casa parecia diferente, as paredes deslizavam obliquamente numa perspectiva nova, a porta de nosso quarto fez um ruído de alarme e se abriu, relutante. Nossa cama emitia um brilho sinistro, cores oscilando nos lençóis, como aquelas ondas de luz no corpo das lulas. Nossa cama era um mar vazio. E ali estava o bilhete terrível: Fui embora, logged off, não aguentava mais. Não me procure. Fiz o contrário. Com o rosto coberto de lágrimas apertei meu botão search. Desesperado, soluçava. http://www.maria.br e eu sabia que ela não estaria ali. A resposta eu já sabia: site desligado temporariamente. Try later. Talvez alguma amiga saiba dela. Quem? http://www.regininha.aquela vaca.br. Incapaz de reconhecer endereço. Tente de novo. Claro, aquela vaca era minha opinião, não um comando. Ok. http://www.regininha.br. Oi, querido, que milagre!... Ela fazia um upgrade de sensualidade na voz. Regina, sua v...Regininha, meu amor, você sabe da Maria? Não...Isso são horas de me ligar? Estou horrível, nem me olha... Ela virava o rosto para o lado da tela e cobria-o com os cabelos. Quatro e meia da manhã, para saber da Maria? Olha, se você conectar aqui, eu posso fazer um café... Não ...obrigado. Ela te disse onde ia? Para dizer a verdade ela estava muito puta a última vez que me conectou. Falou que ia se vingar. Vingar de quê? Eu tenho sido bom com ela.... Olha, a Maria quer se vingar da tua bondade...Você é metido a perfeito, fit, com capacidade de aceitar qualquer comando, performance otimizada, com uma obediência de carneirinho...Mulher não gosta disso não, quanto mais a Maria... Ela te falou alguma coisa? Ela me deu a entender que queria conhecer novos sites, navegar por aí, surfar no desconhecido...vai ser difícil você achar ela...sei lá, pergunta ao ricardã[email protected]. Pode ser que ele saiba... Olha, se quiser, apareça...
A casa variou de forma. Não vou ligar para aquele vírus, falei. A Maria... não está lá não... Ela é louca, mas não é óbvia. Aliás, as loucas sempre surpreendem... Isto é que me fazia apaixonado, creio...esta mutação permanente, como as lulas...Eu via na memória seus rostos mutantes. Agora, andava usando cabelos cor-de-cenoura, curtinhos, lábios negros; podia entrar assim no quarto e surgir, noutra porta, loura e branca. Podia mudar o corpo, ora, era magra em dietas relâmpagos, ora ficava redonda, quente, mudava as vibrações dos gritinhos, dos gemidos noturnos, ora com voz rouca, ou mesmo com voz de homem, falando em meu ouvido, o que me enlouquecia na hora do prazer. Como achar [email protected], sob tantos disfarces? Difícil achá-la nesta web cheia de cavernas. Eu tinha saudades da Mega Internet, aquele mastodonte arcaico, mas ainda dando a nós pobres mortais a sensação de realidade, com seus comandos lentos. Mas, não adiantava chorar o passado, o mercado não pára. Eu tinha de agir. Como convencê-la a conectar comigo de novo? Eu a imaginava navegando em rios de esperma, seu rosto emergindo aqui e ali, seu rosto na neve, no gelo, com outros homens fortes, amando-a em sites de ilhas tropicais, homens beijando-a por dentro do corpo e ela gritando que sua felicidade era não estar mais conectada comigo. Lembrei-me, por segundos, de uma única vez em que perdi a cabeça e fui violento com ela. Dei-lhe uma bofetada. Seus óculos azuis voaram longe e vi seus olhos luzindo de amor. Na época, não entendi. Esta lembrança me elouqueceu mais. Comandei um navegador mais rápido o Supermeta Crawlewr, ainda em testes, e percorri milhões de mulheres em segundos, seus lábios e sorrisos e coxas e seios piscando na velocidade da luz, todas se oferecendo na Superweb. Mas, não vi nenhum dos disfarces de Maria, que eu saberia detectar. Fui fundo. Tentei outras linguagens. Fui na Pos-Java, desci pela Vega 2000, ousei mesmo entrar na terrível GatesBill Windows 2050. Nada.
Corri por praias brilhantes, sites abandonados, ruínas... Até que, com a lama na boca, tentei o mais temido recurso. Digitei-me no perigoso http://www.reality.br. Fiquei neste lugar somente por alguns segundos; fui logo fugindo por entre favelas na lama, mãos me agarrando, balas perdidas, olhos esbugalhados, farrapos humanos ali naufragados. Nada de Maria. Precisava de ajuda. Help: try www.tao te king/IBM. Teclei, Enter. A frase me apunhalou: only nothing can into no-space (só o nada entra no não-espaço). Era isso, talvez, a saída. Eu ia achar Maria, chegando a nada, fui trazendo nossas fotos de volta: Maria vestida de sarong em Neo-Haway, Maria em Nueva York na neve, Maria nua em bordello virtual em Tokyorama, Maria de dominatrix, couro e ferro, Maria de Nossa Senhora, em Notre Dame de Paris-Tours. Fui trazendo-a de volta, deitado em nossa cama. Fui teclando-me em Artificial Life. Folder depois Plasma Physics. E comecei a ter sucesso. Maria foi surgindo palpável, ali, se materializando na cama. Parte de seu corpo estava presente, sua voz rouca começava a murmurar a meu lado, sua pele eu começava a sentir...Entrei em Moleculartronics, ativei Macrogenetics e Maria estava quase toda ali, de volta para mim, entre lágrimas, quando o sinal se deu: Não há memória suficiente para trazer [email protected], totalmente. Desligue extensões. Try again. Não hesitei. Fui desligando meus controles, meus braços, minhas pernas, minha voz, fui chegando ao mínimo, me desligando, nothing into no-space, cheguei quase a deixar só meu coração batendo para um cérebro solitário no espaço vazio. Maria chegava inteira a meu lado. Fui vendo suas coxas, seu cheiro, seus cabelos (que estavam verdes e longos), sua mãos me tocando, vi chegando seu sexo. Eu ainda tinha boca para Maria. Meus lábios se encostaram nos seus e cheguei a sentir sorriso de escárnio com que sua boca me recebia sempre. Mas, foi só. O alarme: No more memory. Desligue todas extensões ou dobre seus megabytes. Isto significava minha morte, para ela poder chegar. Tudo se apagou. Maria Unknown. Abort. Eu estava sozinho na cama de novo, um leve eco de riso ao longe e, em mim, um desejo: Try again. Eu tentei. Help, re-start, emergency. Nada. E fiquei rolando na cama, sabendo que não ia conseguir dormir nunca mais. Não conseguiria me desativar em direção ao nada, ao espaço, qualquer lugar sossego. Finalmente, em desespero, ativei Control Esc Quit e consegui dormir um pouco, sabendo que acordaria chorando e que veria uma mensagem piscando em mim: No way. Não adianta tentar.
Exatamente como estou agora, chorando e tentando achar esta mulher, porque sei que, sem [email protected] não conseguirei viver. Help, Search...





