Arnaldo Jabor
á- Sr. Presidente, o senhor conhece uma mulher chamada Monica Lewinsky?
á- Sim, conheço.
- Quando ela trabalhava na Casa Branca, vocês ficaram, alguma vez, sozinhos no Salão Oval?
- Não me lembro bem, senhor procurador Kenneth Starr...
á- Mais especificamente, presidente, o senhor e Monica ficaram sozinhos alguma vez, entre meia noite e seis da manhã em seu gabinete?
- É possível...eu me lembro que uma vez, foi logo depois da crise do México, quando eu emprestei 40 bilhões para aquele país, creio que Monica trouxe uma pizza para eu comer...durante a noite de trabalho...
- E o senhor comeu?
- Como?
- O senhor comeu a pizza?
- Sim, lembro-me até que era uma mix de calabresa com marguerita...
- O senhor lembra da pizza, mas não lembra da moça?
- Veja bem, senhor Starr, no meu gabinete entra gente dia e noite...
- O senhor...ah...já deu algum presente para Monica? Um enfeite de chapéu? Ela afirmou isso em depoimento.
- Não sei...eu só sei que dei um chapéu de presente para o Arafat, um albornoz novo, sabe aquele pano na cabeça?...
- E um livro de poesias de Walt Whitman, o senhor não deu?
- Sr. Procurador, eu me lembro de ter dado um livro ao sr. Benjamim Nethaniahu, em sua última visita, uma cópia do Alcorão, com fundo falso, para guardar dinheiro. Eu não tenho tempo para detalhes...
- O detalhe é tudo para o grand jury, presidente...
- O que é preciso é que o mundo saiba que isto é um depoimento mais político que jurídico. É a vingança de vocês republicanos que, até hoje, não perdoam a queda de Nixon.
- Por favor, senhor presidente, stick to the point (atenha-se ao assunto)...
- Mas este é o assunto: trata-se de uma investigação política de direita...
- Qual foi a última vez que o senhor falou com Monica Lewinsky?
- Bem...creio que foi antes do Natal, quando eu estava no meu gabinete e ela conversava com minha secretária. Eu botei a cabeça para fora...
- Como?
- ... eu botei a cabeça para fora da porta e disse-lhe: Alô! Monica, tudo azul?
- Depois, o senhor não a viu mais?
- Sr. Procurador, depois veio a crise do Iraque, logo depois do escândalo da Linda Tripp, quando a baranga vingativa declarou ter gravado as pretensas revelações de Monica...O senhor quer o quê? Eu perdi a cabeça com aquelas fitas mentirosas...
- Por que então, ao estourar o escândalo, a sra. Hillary, primeira-dama, teria jogado um abajur na sua cabeça? Um segurança afirma ter visto...
- Eu não tenho mais seguranças. O senhor maldosamente quebrou meu direito ao sigilo...eu não posso mais falar com ninguém que trabalha comigo...tudo pode se virar contra mim, um dia!
- Jogou ou não jogou?
- Eu é que quase joguei milhares de bombas no Iraque! O Sadam Hussein ameaçando jogar micróbio no mundo todo e eu vendo a sua cara na TV me acusando, senhor Starr. Eu via a sua cara e confundia-a com a do Sadam, eu ia arrasar Bagdá por causa do senhor. Graças a Deus, a Madeleine Albright deu aquele vexame público no debate com os estudantes e a mídia ficou contra a guerra, senão...
- O senhor teve relações com ela?
- Com a Madeleine Albright? Não dá para encarar...isto é, eu afirmo que nunca tive relações sexuais com a secretária de Estado Madeleine Albright!
- Não, senhor presidente; eu pergunto se o senhor teve relações com Monica Lewinsky?
- Que tipo de relações?
- Ahhh...sexuais, senhor...
- Mas, eu já declarei na TV que não tive relações sexuais com esta moça!
- Mas, ela afirma que vai levar um vestido com manchas de sêmen para a Corte...vai ser...meio estranho...Ela afirmará que teve relações com o senhor...
- Depende do que o senhor chama de relações sexuais.
- Presidente...aquela velha coisa, him on top, her on bottom...relações...eu falo daquilo, presidente...papai e mamãe...sabe como se fazem os bebês?
- Seja mais claro, senhor Starr.
- Relação Sexual como é definido pelo novo código civil politicamente correto...
- Não.
- Fez o quê, então?
- Nada...senhor Starr...nada.
- E se o DNA da mancha de sêmen der positivo?
- O quê? Vocês pretendem colher sêmen do presidente dos USA para mostrar ao grand jury e ao mundo? Jamais!
- Teve o quê com esta moça, presidente? Diga, presidente...Eu preciso saber!...Diga tudo!...
- Não, Starr, eu não tive nada com ela...nunca te direi...Nunca ninguém odiou tanto ninguém no mundo como o senhor. Há quatro anos que o senhor me persegue!...Me larga!...Sai de mim!...
- Presidente, atenha-se...
- Você quer a verdade? Quer? Pois, vou dizer a verdade! O que vocês querem não é me impichar não, porque, ai, o Al Gore fica no meu lugar... Vocês querem é transformar minha vida num inferno, para eu fazer um governo horrível. Mas, por mais que vocês tentem, seus republicanos de merda, a Bolsa sobe sempre. Cai a Rússia, sobe a Bolsa. Se acharem um cadáver no meu quarto, a Bolsa sobe assim mesmo! O americano tem orgulho de mim porque eu sou bonito e vocês não comem ninguém...Eu estou dando a vocês o melhor governo do século e é isto que vocês não perdoam! Vocês não perdoam, seus caretas, que eu fui contra a guerra do Vietnã, eu fumei maconha (mas não traguei), não perdoam que eu tenha uma consciência global da crise. Apesar de ser um imperialista ianque, como nos chamam lá fora, eu sou mais moderno, e não tenho esta cara de republicano...Aliás, por que todo republicano tem a mesma cara, mesmo gravata, mesmo bode preto na alma? Vocês são a loucura da América, vocês não querem emprestar dinheiro para ajudar países que fazem aborto...E se a Rússia quebra, a China? O mundo acaba, e aí?
á- Sim ou não, diga, presidente!
- Não digo, Starr, não digo!
- Abra seu coração, presidente!...A América espera!...
- Não digo!...Ou melhor...Sabe o que mais? Eu vou contar tudo, sim... Claro!... Isto é um golpe de direita, mas eu vou dar a volta por cima e vou destruir você!...Sabe quando, Ken Starr? Agora! Vou contar tudo!
- Conte, presidente!...
- Eu menti sim!...Menti, sim...mas foi para proteger aquela moça inocente, aquela moça de lindos lábios que trouxe tanta alegria ao Salão Oval! E eu digo agora para a América e o mundo: Eu amo Monica...Eu amo Monica Lewinsky! E tem mais; você está me perseguindo, Starr, porque sabe que eu nunca serei seu...porque você me ama, Starr, você queria que eu fosse o seu big he. Nunca serei, Starr! Você me adora!...Mas eu nunca serei seu! Caia o mundo, morra a Ásia, acabe o Brasil, esta é a minha verdade: explode, coração! Monica querida, você será minha para sempre!!! I love you! Oh yes, yes, yes!
- No, Bill! No! No! No!
- Yes, Starr! Yes, yes, yes!...





