O telefone preto tocou. Alguns sabem que eu mantenho um velho aparelho de ebonite, só para receber as ligações de Nelson Rodrigues, lá do céu, em sua nuvem de papel pintado, cercado de anjos de pó-de-arroz e asas de papelão. Atendi, ofegante.
- Você, atendendo o próprio telefone como se fosse o contínuo de si mesmo, rapaz? (Era meu doce mestre).
- Nelson, querido, está triste com a derrota?
- Rapaz, aqui no céu, o João Saldanha, o Scassa e o Ari Barroso estão sentados na beira da nuvem preta, chorando lágrimas de esguicho.
- Por que perdemos, ó Nelson?
- Excesso de esperança. Brasileiro tem medo do óbvio. Era óbvio que venceríamos. Logo, tínhamos de perder. Eu nunca vi nada igual. Nem em 50. No dia do Brasil x França, até os esqueletos do cemitério estavam ouvindo o jogo no radinho de pilha. O brasileiro estava mais patriota que um granadeiro bigodudo e se vestia com a bandeira como se fosse um manto de arminho. Aqui no céu, eu, o João Saldanha, o Scassa e o Ari (já com a gaitinha na mão) olhávamos para baixo pensando: ‘‘hoje é dia’’. Mas, quando começou a tocar a ‘‘Marselhesa’’, com aquele time cheio de crioulos eu pensei: ‘‘vai ser difícil’’. A ‘‘Marselhesa’’ transforma todo mundo em ‘‘vitor hugos’’, em ‘‘robespierres’’ e ‘‘ediths piafs’’. E aqueles negões também me deram medo. Afinal, crioulo é uma invenção nossa. A França tratava aqueles colonizadores à pontapés, na Martinica, na Guiana. Agora, salvaram a pátria, imitando nosso samba.
- Que você acha que aconteceu no vestiário?
- Baixou o ‘‘vira-lata’’ em nós. Na hora do ‘‘chega’’, o brasileiro treme. Quando viram o Ronaldinho em crise, todo machucado, porque os marcadores chupam-lhe a carótida como tangerina, quando Zagallo ficou em dúvida se botava o Edmundo, começou o pânico. O Edmundo para jogar, botava fogo pelas narinas como um dragão de S. Jorge de folhinha. Por que não entrou? Por que não tiraram logo o Ronaldinho no início? Por que a Nike decretou que ele é o melhor do mundo e pronto, quem tinha coragem? O Zagallo é o brasileiro do subúrbio imemorial, da Aldeia Campista, daqueles que iam comprar leite de pijama, de manhã. Você viu? Os técnicos de terno e gravata e ele descabelado, se esgoelando de pijama azul na beira do campo. O brasileiro não tem meio-termo. Ou é o Napoleão de opereta ou é servil como um S. Francisco de Assis de camisola e alpercata. Ou é o vira-lata de batalhão. Ganhou o vira-lata.
á- E você achava que agente ia levar o caneco?
- Os sinais perigosos estavam no ar, desde Adão e Eva. Eu via...via...e falava aqui para o Scassa, de camisola e lira: ‘‘Ó Scassa, olha lá o perigo!’’...mas o Scassa não via nada, tocando lira. Eu via os sinais. Por exemplo: o Brasil jogava pra trás...o Zagallo mandava atrasar a bola para o Taffarel...que é isso? No meio de campo, a bola ia para um lado, para o outro, para trás, os passes não se completavam. Pois o Brasil ganhou do Chile de 4 a 1 e eu entrei em cava depressão. Era um sinal. Temos jogadores, mas não temos time. Na final, o Brasil não entrou em campo, simplesmente. Eu dizia: onde está o Brasil? A França jogou sozinha, o segundo gol foi replay do primeiro.
- Mas por que isso, Nelson?
- Rapaz...são mistérios do Brasil. Nosso time simplesmente ignorou o arco da França como se fosse um galinheiro de fundo de quintal. Era só bola para trás, pro lado. E a França parecia um futebol-totó, todo mundo treinadinho, a bola seguia os franceses com a fidelidade de um cachorrinho lulu. E os nossos jogadores com medo da jogada individual lírica e, por outro lado, sem jeito no conjunto. O nosso time não sabia se seguia o Zagallo ou a própria genialidade. Faltou o Carlos Alberto Torres para dar um basta nele, como em 70.
Além disso, cá entre nós, os jogadores brasileiros estão famosos, ricos e coisa e tal, mas estão rachados ao meio sem pátria. Eles não sabem se são da Europa ou de Bento Ribeiro. Dizem que o Ronaldinho, aquele Rimbaud de 21 anos, tem uma Mercedes Benz com cascatinha artificial e filhote de jacaré. E todo mundo é da Nike. Esse negócio de fazer ‘‘reclame’’... o sujeito ganha milhões, mas fica com medo de quebrar a perna. Está no contrato: quebrou a perna, olho da rua...Não pode. Esse negócio me cheira mal desde que começaram a botar nome de fábrica nas sagradas camisas: como dói ver os times com nomes Huyndai, Kalunga, Coca-Cola nas camisas. Você é brasileiro ou da Coca-Cola? Dizem que é pós-moderno...tudo bem...mas as camisas são sagradas e jogador não é ‘homem-sanduíche’. Qualquer hora, vamos ver escrito na camisa dos times: ‘‘Chegou o novo Chicabon crocante’’, ‘‘Omo lava mais branco’’ ou até ‘‘Vende-se Volks 69 em bom estado’’...Você viu quando entrou o Zé Carlos? Coisa linda...aquele ‘‘jeca tatu’’ de Monteiro Lobato jogando com a alma na boca. Era o Brasil profundo...Que saudades tenho do Zizinho ou do Vava, que jogavam furiosos como cossacos do Dom ou do Didi, elegante como um príncipe de rancho ou do Rivelino de peito erguido como anúncio de fortificante...Brasileiro não pode ficar muito rico...senão fica mascarado...só o faminto joga bem. Como dizia o Nenem Prancha: ‘‘tem de ir na bola como se vai para um prato de comida...’’
Deu nisso...hoje o brasileiro sangra como um Cesar apunhalado. Enquanto cada francês virou um Napoleão se coroando a si mesmo de folhas de louro, a gente esta roendo a própria solidão como uma rapadura.
- E agora, Nelson, como vai ser?
- Não vai ser nada, rapaz, vamos continuar assim variando de depressão para euforia e vice-versa. Precisamos sabe o quê? Acabar com essa conversa de que ‘‘um dia’’, ‘‘um dia’’ gloriosos no futuro, seremos um país moderno e aí tudo estará resolvido e poderemos ser felizes como peixinhos de aquário na sala de visitas. O Brasil tem de acabar com a fome e a miséria, claro, mas tem de amar a própria cara também e não ficar se espelhando nos americanos e europeus. Temos de amar nossos defeitos, pois em futebol e em arte, a obra tem de ser imperfeita. Temos de parar de querer ser Flaubert ou Rockefeller, renegando nossa originalidade. O Brasil, no futebol e na política, não se salvará com epopéias de Cecil B. De Mille, sejam epopéias operárias ou epopéias neo-liberais. A verdade é que qualquer brasileiro quando se desamarra de suas inibições e se põe em estado de graça é único em matéria de fantasia e invenção. Isto é o óbvio ululante.
Mas agora vou desligar, que hoje tem ensopadinho de quiabo no céu. É só...
- Até mais, Nelson...vê se liga...
- E você, Jabor, capricha...

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