Por que só o Nelson Motta ou Katia Zero têm direito de fazer guia de Nova York? Eu também tenho. Afinal, estou aqui há seis meses o que me faz um turista maduro. Sou, por natureza, avoado, perdido em ilusões à toa, mas isto me torna mais sensível a sustos e novidades do que o viajante pragmático, amarrado na tal realidade objetiva. Eu sou daqueles que dizem, parafraseando Robbe Grillet: ‘‘A realidade é o meu delírio’’. Muito bem. A primeira coisa que você têm que botar na cabeça, oh inefável brasileiro, é que ‘‘voc꒒ não é importante aqui. Aliás, ninguém é importante nesta cidade. Ou melhor, todos o são. Só que o ‘‘voc꒒ não é importante. ‘‘Voc꒒ ou ‘‘eu’’ - esta palavra que nos embala - não tem o mesmo ‘‘enfunamento’’ que tem no Brasil. A gente idealiza americano; mas eles mesmos não se idealizam. O ‘‘Eu’’, aqui, faz parte de um grande ‘‘job’’ que todos estão perfazendo. Tudo rola. Tudo funciona, a TV, o telefone, você. ‘‘Voc꒒ faz parte de uma grande orquestra invisível que te toca. E aí começa a te dar o tédio da democracia. Você começa a ter saudades do teu ego louco, tão cheio de ilusões e feitiços. Daí, o perigo do teu ego tropical esbarrar nos objetos, nas regras do jogo. Por isso, começo aqui meu ‘‘guia psicológico’’ para brasileiro em NY.
Nunca olhe ninguém nos olhos, a menos que tenha um motivo. Por quê? Porque ninguém é objeto de ninguém, ninguém é paisagem do outro. Por que você poderia ficar observando alguém viver sem dizer porquê? Você aqui é o outro do outro. Daí que ninguém se olha, para evitar amolação. A solidão é cortante. Tanto faz sair bonitinho ou esculhambado. Ninguém vê.
Vista-se mal. É chic. Branco então, é o rei da escrotidão: marrom, caquis, pós-tergal e pós-gabardine. Só negro se veste bem, mesmo os esculhambados buscam uma ‘‘atitude’’. Os negros têm uma visão de mundo, se bem que feita de rap, boné e tênis. Se vier uma turma de brothers, desvie-se. São folgados. Como diziam os racistas do meu tempo, só existem dois tipos de negros - os ‘‘obas’’ e os ‘‘sim-senhor’’. Aqui só tem negro ‘‘oba’’. E eles são o que há de melhor em NY, lutando contra os exércitos de brancos azedos de terno cinzento.
Jamais fale no cinema. Nem baixinho. Pois eles todos, de bermudas, comendo pipocas com técnicas impecáveis de silêncio, estão atentos para qualquer sussuro. Uma pergunta no ouvido da mulher amada, um cicio, um muxoxo, um suspiro de angústia, um riso fora de hora, provocam certamente o olhar reprobatório de alguém. Quase saio na porrada com dois gays da fila da frente, porque conversei durante o trailer. ‘‘Queremos ouvir tudo, até o trailer’’. Eu os xinguei e eles me jogaram pipoquinhas humilhantes.
Cuidado com o excuse me. Não fere, mas é irritante. O excuse me te exclui. Se você está, digamos, parado na rua, olhando para um prédio, fora da ‘‘mão’’ dos pedestres, fique certo que alguém dirá a você: excuse me, com um timbre ácido na voz. Eles procuram com os olhos quem está fora da linha e vão lá, só pelo prazer de reclamar, felizes com tua pálida humilhação.
E tem o teu excuse me, diga-o com entonação submissa, feito latino de filme. Outro dia, sempre no cinema, passei na frente de um cara, que veio para mim: ‘‘Você não disse excuse me’’ e me deu um soco, de raspão. Fui revidar e vi que era um aleijado (êpa, ‘‘deficiente físico’’), com muleta. Se eu dou uma porrada, estou frito. Era essa sua diversão. Folgar com normais para recolher o trunfo da desgraça.
Daí, uma idéia boa que o Nizan Guanaes me deu. ‘‘Se algum garçom te tratar mal, ou um caixa ou um guarda, você desmunheca bastante e diz, com sotaque tropical: está me tratando mal só por que eu sou latino, veado e aleijado, se¤or?’’ Todos se atiram ao teu pés, com medo das leis politicamente corretas.
Aqui não existem: ‘‘mas será que...?’’, ‘‘e se?...’’ e nem pensar em ‘‘quebra meu galho...’’
Não existe também ‘‘quase’’: ‘‘Puxa, cara, eu quase te telefonei...’’ Sim ou não. Ninguém é mais ou menos. Aqui ou se é republicano ou democrata. Só há duas categorias. Não há PSDB. Deviam voltar com o bipartidarismo no Brasil; só há mesmo ‘‘careta’’ e ‘‘muito louco’’, conservador ou progressista. Não há ‘‘quase’’. Todo mundo parece o que é. Eles têm obsessão com a verdade. Clinton pode mentir na China, mas pode ter impeachment porque enrolou no caso da Monica.
Perguntas inúteis também não existem: ‘‘o senhor acha que este pano de cortina fica bem?’’
Reclamar sem destino nem alvo não existe. Tente: ‘‘este trânsito está um horror...por que eles não tomam uma providência...?’’ Se o chofer for paquistanês, ele te responde em sânscrito; se for americano nem te olha, se for haitiano não tem forças para falar. Dá para reclamar com alguns hispânicos, só que hispânico não reclama nunca, pois esta é sua mercadoria: a obediência. Eles te olham meio espantados e sorriem: ‘‘Brasileiro...Bebeto y Ronaldo...’’
Não fume. Se fumar, não venha a NY, para não ser humilhado.
Capítulo mulher. Não paquere ninguém. Os executivos de empresas não têm mais coragem de descer no elevador com uma secretária, sem um terceiro, com medo de processo por sexual harassment. Mulher não dá bola. Só em single bar. Ninguém se toca. Não sei como se reproduzem.
‘‘Mich钒, então, nem pensar. Se vires uma louraça de saia de couro numa esquina, não aborde que é polícia. Passando pela loura, diga respeitosamente: ‘‘Hi, officer...’
Aqui só olham para a frente, para o hoje. O capitalismo americano é de curto prazo. o grande sucesso de bilheteria é o filme ‘‘Truman, o show da vida’’. É a história de um homem que, sem saber, era a estrela de um show de si mesmo, visto pelo mundo todo. A cidade era cenário, as pessoas eram figurantes. É assim que se sentem os americanos: figurantes de um filme de ação dirigidos pelos outros. Aqui, a vida real é tão real que não existe. Sinto no ar uma grande fome do erro, do inútil, do vagabundo. Qualquer hora, renascerão os hippies, aposto. Ou seja, como vocês vêem, estou com muita saudades do Brasil.
Um dia, continuarei este ‘‘guia’’. Pois, como dizia Tom Jobim: ‘‘Morar no exterior é bom, mas é uma merda; morar no Brasil é uma merda, mas é bom’’.

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