NOVOS PREFEITOS DO BRASIL PRECISAM IR A BAHIA
O Projeto Axé para os meninos de rua é uma aula de inovação política.

Arquivo FolhaVocê já foi a Bahia, ver o Projeto Axé? Não? Então vá! Todos os prefeitos do Brasil deviam ir ver o Projeto Axé em Salvador. Vai lá, Conde, vai lá, Pitta, vai lá fulano e sicrano... Vai lá PFL, vai PT. Todos precisamos de uma aula de administração pública, de uma aula de imaginação contra a burrice burocrática. Milhares de crianças de rua já foram salvas, integradas na cultura da cidade. Talvez só em Salvador pudesse ter nascido esta idéia. A música, os rituais, o sincretismo, tudo leva a uma liberdade maior de invenção. Do chão, sai este sal da África, este ‘‘ax钒, há 400 anos. Os intelectuais que realizaram este projeto enxergaram o óbvio: nenhuma fórmula antiga resolve um problema novo. Só a imaginação dá conta do absurdo. O absurdo de crianças de 4 anos vagando pelas ruas não pode ser atacado por vias ‘‘humanistas’’ tradicionais. Os meninos de rua é que ensinaram aos educadores ‘‘como’’ deviam ser ajudados. A criança é que pergunta: quem é você que quer me ajudar? O educador do Projeto Axé começou questionando o próprio desejo de fazer o Bem.
Miséria fora do lugar
Todo mundo que fala da miséria não vive nela. Os que vivem não falam. Ninguém sabe bem porquê é contra a miséria. Em geral, tecemos uma colcha-de-retalhos feita de culpa, caridade, horror estético, mania de limpeza, obsessividade, medo, ódio aos pobres, amor a si mesmo, militância burra ou até mesmo fascismo purificador. Ninguém pergunta ao miserável como quer ser tratado. O miserável é nosso objeto; não um sujeito. Miseráveis não têm desejo. Para eles, bastam os galpões de abrigo, as sopas, os banhos de desinfecção, a invisibilidade. Temos de tirá-los das ruas por uma questão de urbanismo. Se não víssemos os pobres, tudo bem, pensa nossa hipocrisia. Mas o que aflige nossos corações burgueses é que os meninos de rua teimam em sair da periferia e das favelas longínquas e vêm passear nos centros. Eles são a miséria fora do lugar. Tudo fica imperfeito com sua presença. Os mendigos velhos são fáceis de engolir: ‘‘ahhh... vagabundo, bêbados... acabou assim’’ dizemos. Já o menininho te olhando do meio fio, é mais difícil. Com os mendigos velhos, a culpa é deles. Já com os meninos de rua, a culpa é nossa. Os meninos de rua desorganizam nossa paisagem. Com os meninos de rua, ficamos muito expostos. Eles nos ameaçam com sua fragilidade. O menino de rua se acha normal. Nós é que nos sentimos anormais em sua presença. Ele vira um problema existencial para nós.
A razão suja
Diante deste absurdo que nos olha em todos os sinais de trânsito, em cantos de vitrine, em portas de igreja, o Projeto Axé jogou fora o totalitarismo purificador das soluções higiênicas. Jogou fora a piedade, a caridade, a linearidade dos processos e partiu para a invenção. Sacaram: 1 - Não adianta esperar o todo para resolver a parte. 2 - Não adianta contar com a sentimentalidade branca; só a miséria ensina os caminhos. 3 - Não adianta trabalhar sem imaginação; só com atalhos (‘‘by passes’’). 4 - Contra a resistência ‘‘molar’’, só as ações ‘‘moleculares’’. 5 - Não adianta contar com a velha bondade positivista e isolacionista. 6 - É preciso incluir as modernas descobertas da ciência social na prática.
O projeto Axé não tira ninguém das ruas, como quem esconde a sujeita. O Axé vê a miséria como o outro lado de um erro. É uma psicanálise de campo, despertando nos meninos pobres a idéia de que eles podem desejar, ter projetos e não serem apenas escravos fugitivos do desejo dos outros. ‘‘Quem sou eu? Que quero eu?’’ perguntam os meninos que encontraram o Axé. Eles tem de nos ajudar a salvá-los, porque eles são nosso sintoma, nós fazemos parte do erro onde eles são a ‘‘parte suja’’. Através deles entendemos a crise de nossa razão.
Jovens sem inocência
Uma visita ao Projeto Axé me deu a vontade de ter sido educado por eles. Os meninos de rua que fazem roupas, tecidos, cerâmicas, estamparias, estudam, lêem, fazem teatro, dança, têm os olhos mais sábios e fundos que os meninos caretas e protegidos das escolas particulares. Estas crianças são jovens, lindas, esperançosas mas não são inocentes. Já beberam a água suja dos rios.
Os educadores todos são profissionais recebendo salários decentes, sem cristianismos fáceis nem bondades autoritárias. Não há lugar também, no Axé para ‘‘basismos’’ e militâncias tradicionais. Ninguém está ali para fazer daquilo uma plataforma para nada. Aquilo é aquilo memso, o fim é a coisa mesma. Não há nenhum fim além do desejo de fazer viver. O custo de uma criança no Axé, por mês, é dez vezes menor que o custo de uma criança no corredor kafkiano da burocracia e nos depósitos sujos de menores. Antes de mais nada, o Axé é uma boa idéia! Só se pode fazer política hoje, no enigma do mundo atual, com criatividade. Verbas não bastam. Vejam o exemplo da Saúde. Quem adianta dobrar verbas pelo CPMF para caíem no poço sem fundo das fraudes do SUS? (Por que será, aliás, que o exemplo genial do Hospital Sara Kubitschek não foi seguido até hoje? Por que sabotaram-no com descaro?) As tentativas acadêmicas de acabar com a miséria levam diretamente à idéia de genocídio. Ou vocês acham que as favelas vão acabar na prancheta ‘‘clean’’ de urbanistas burgueses, sem a participação administrativa das comunidades? Só funcionará uma política de safenas sociais, atalhos de fuga contra os milhões de vagabundos e fisiológicos que vivem às custas do orçamento público. A burocracia é a base física da falta de esperança. Prefeitos e governadores têm de fazer um curso de pós-graduação no Projeto Axé.

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