Li o livro ‘‘Chic Homem’’ de Glória Kalil. Todas as mulheres deviam dar este tratado de bom gosto a seus maridos, estes seres de bigode, barriga e bermudão que elas (‘‘hélas!’’) amam. Tenho sido um mal-ajambrado pela vida afora, bem o sei, mas, doravante, quero mudar.
Quero ser elegante. Não mais usarei meias pretas em sapatos brancos, nem meias brancas em sapatos pretos. Quero o ton sur ton da suave harmonia com a paisagem em torno. Não quero mais gritar em aeroportos, nem rir nas churrascarias, entre chuletas e picanhas, quero ser fino, não quero mais fitar as mulheres com olho cúpido, medindo a amplidão de suas bundas; quero um détachement sofisticado, como se os prazeres me causassem um certo fastio. Mas, quero roupas lindas, quero gravatas inimagináveis, muito além dos Kenzo, Ermenegildo Zegna, quero mais, quero uma gravata transcendental, estrelada, quero dar laços four in hand, ou laços semi-windsor, ou borboletas que drapejem pelos lugares onde eu for, que voem e pousem entre seios decotados e me voltem fielmente para o colarinho, quero gravatas-borboleta sonhando que são mandarins sonhando que são minhas gravatas-borboleta. Quero ser temido (e amado) e poder abrir mão, delicadamente, de usar minha tremenda violência de James Bond, eu, o 008, lutando com punhais e smoking impecável. Quero ser esguio e debonaire, como quem acaba de largar um bastão de golfe, depois de um hole one, quero ser gentil com caddies e rude com lords e financiers, quero espreguiçar em clubes de cavalheiros, lendo o ‘‘Foreign Affairs’’ com displicência, sob o olhar compassivo dos grisalhos mordomos. Não que eu queira ser um ocioso, apesar de meus rusty nails no ‘‘Fiar’s Club’’, apesar de minha cadeira cativa no ‘‘Harry’s Bar’’ de Veneza. Quero mostrar que também trabalho com vigor e que o vento de plataformas de petróleo me desfaz o cabelo, eu, com a barba levemente crescida e meu corpo magro e bronzeado pela capa de neoprene amarelo ou, se não em alto mar sob os gritos das gaivotas, ao menos de cardigan cinza num sala de Oxford, a comentar, entre risos, um pouco de Wittgestein, não a obra do filósofo, mas as fofocas sobre sua veadagem. Quero chambrays, quero sedas, quero madras, índigos, panamá, albene cor-de-rosa ou pele-de-tubarão. Quero ser elegante sozinho, mesmo sem ninguém me ver, apenas meus espelhos ‘‘em abismo’’ me rebatendo ao infinito, inumerável, na alta madrugada, com minha suéter de cachemir rasgado, folheando um livro de Malraux sobre Goya e ouvindo a ‘‘‘chacona’ da Partita em ré menor’’, desatento como quem ouve os ‘‘BG’s’’.
Quero ser elegante mesmo na melancolia, quero ler Cioram como livro de auto-ajuda, tomando com desalento golinhos de Calvados como chaser de Metaxa.
Quero ser elegante mesmo na vergonha, na ignomínia, mesmo em flagrante delito de adultério, eu, diante de uma dama pálida de medo em lingerie, sob a pistola de madrepérola do marido traído, treinado em duelos do Bois de Boulogne, e eu trêmulo em cuecas, desde que minhas cuecas sejam Calvin Klein, cuecas inconsúteis, tênues, vaporosas, sob as quais possam se adivinhar as delícias de meu adormecido membro, pássaro feroz pronto para o amor ou para a vulgaridade. Quero fugir em desalinho, calçando minhas botinhas Prada, ameaçado pelo cocu magnifique, com sua bengala de castão de prata esculpido em focinho de galgo, mas quero que sua dor-de-corno seja densa e discreta, esperando que eu saia vestindo atabalhoadamente minha jaqueta Yamamoto para que só então ele esbofeteie minha bela amante em calcinhas da ‘‘Victoria’s Secret’’. Quero que ela receba bofetadas do marido, sim, impávida e digna, mas não sem espiar no espelho, de esguelha, com uma ponta de chique masoquismo, as gotas negras de rímel que a dor dos tapas fará correr por suas faces brancas de pavor e contentamento.
Quero ser elegante neste país cafageste, entre homens de bermuda rosa e camisas verdes ornando barrigas de chopes, queria ser elegante, por exemplo, no Congresso, eu, político temido, usando um belíssimo terno ‘‘Matsuda’’ de seda negra com apliques mínimos de cor, réstias vermelhas e azuis, e eu, chiquérrimo, na tribuna, discursando sem adjetivos, citando Sêneca, a próposito do superfaturamento de um canal de esgotos do Piauí.
Eu queria cheirar bem com o olor do feno de meus celeiros, da maçã seca de meus pomares. Não quero ser nem pavão nem camaleão, ou seja, nem me exibir como um Luis 14, nem copiar os bofes do Hugo Boss. E, mais que tudo, eu não queria jamais coçar meu saco em público como proíbe Glorinha, talvez um leve ajeitar de ovinhos, um suave frêmito discreto na braguilha, não queria ser grosso e berrar palavrões ao volante, nem cantar moças desconhecidas, nem cuspir no chão, nem fazer xixi na tampa do vaso, nem falar de boca cheia, nem mascar palito em público, muito menos fósforo marca ‘‘Olho’’, nem mesmo o poético marca ‘‘Beija-flor’’, nem esquecer de dar descarga mesmo no mais sórdido botequim, onde sempre te espera a lembrança, de alguém que ali passou, boiando e te olhando do fundo do vaso, esse sim, o vestígio do ‘‘outro absoluto’’. Quero ser elegante até diante da morte, deixando-a manifestar-se, deixando o tempo envelhecer os sulcos de meu rosto como envelheceu lindamente minha pasta de crocodilo, meu paleto de corduroy ou meu Montrachet 1961.
Quero tanta coisa, meu amor, quero você, mulher intemporal, vestida por véus de fadas trazidos no bico de andorinhas, junto a mim, respirando no meu ritmo, para que, juntos, numa sacada de Nova York, olhemos com elegância e resignação mesmo a chegada das nuvens de ‘‘antrax’’ do Iraque ou o crepúsculo dourado do paquistão, que farão toda a gente da cidade (mesmo na Armani da Madison Av., ai de nós!) esvair-se em hemoptises infinitas, ao som de um último quarteto de Beethoven, sepultando nosso sonho de charme ocidental. E pensaremos então que talvez a suprema elegância fôsse não termos existido...

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