O novo estava em
usar o atraso para
fazer o moderno sair
O novo era reformar o
Estado patrimonialista
secular
Foi a seca. Foi o El Ni¤o. Foi o fogo em Roraima. Foi a crise da Ásia. Não foi. Foi o Fernando Henrique Cardoso quem mais prejudicou o governo Fernando Henrique Cardoso. Foi ele que fez cair seus índices. Foi sua personalidade que plasmou esse tipo de governo e sua relação com o povo.
O projeto de FH foi o mais interessante que surgiu no País, a meu ver. Havia uma grande e radical novidade oculta por trás de uma aparente ‘‘aliança conservadora’’: cair de boca, entrar de sola no verdadeiro Brasil, numa espécie de real politic revolucionária, abandonando os slogans imaginários de uma velha esquerda, que via e vê o Brasil como um ‘‘outro lugar’’ a se chegar e não como este buraco óbvio que ulula em nossa cara.
A ótima idéia de FHC era tirar o ‘‘novo’’ do ‘‘velho’’. O novo estava em não mais se pensar o País como um lugar ‘‘além do arco-íris’’ que seria atingido por um modelo político ideal. O ‘‘novo’’ estava justamente na aceitação pura e clara de uma realidade política feita de conchavos, reacionários, corrupção, clientelismo. O novo estava em usar o ‘‘atraso’’ para fazer o ‘‘moderno’’ sair. O novo era reformar o Estado patrimonialista secular. Aproveitar a falência do Estado para entregar a responsabilidade à sociedade civil, numa reforma mais ‘‘antropológica’’ que política. FHC, desde sua tese de doutorado, sempre teve interesse pela convivência de dualidades conflitantes: ‘‘Escravidão e Capitalismo no século 19’’, imperialismo e dependência, metrópole e periferia, política concreta e teoricismo acadêmico. Isto fez dele o nome perfeito para o grande desafio do mundo global: como desviar o rumo do liberalismo selvagem e arrogante do ‘‘pós-muro’’, do ‘‘pós-Gorbachev’’ com o interesse de um país dependente e underdog como o nosso. Neste detalhe estratégico estava toda a novidade que me entusiasmou.
Mas, hoje, quatro anos depois, toda esta rica ambiguidade assumida emaciou-se, fenesceu. Não se conseguiu desvio algum ao liberalismo selvagem. E esta indefinição já está servindo para reviver os mais burros slogans de uma oposição perdida no século 19. De novo, os falsos humanismos irrealizáveis estão ganhando força: ‘‘Acabaremos com a fome com uma canetada!’, ‘‘a reforma agraria será feita em horas!’, ‘‘o desemprego acabará em minutos!..’’ Tudo isso com a força bruta do ‘‘não’’, com o charme delicioso do simplismo. Enquanto isso, os tucanos gralham em nuvens: ‘‘precisamos mudar o marketing, precisamos mudar as táticas!’’ Não precisa nada. O que devia ter mudado há três anos e não mudou (e eu inúmeras vezes critiquei isso e na TV) era a relação com a opinião pública. Não falo, nem falei jamais, de marketing ou propaganda. Isso é pra vender Coca-Cola. Falei e falo do vínculo popular que não houve, de um fio-terra, entre o projeto do Governo e a população, com a explicação detalhada de cada reforma que se devia fazer.
Explicar, por exemplo, por que é injusto uma Previdência que gasta metade da verba para pagar apenas 15% dos seus aposentados e a outra metade para os pobres 85%. Lembram-se de que a Vale foi privatizada sem explicações, como Raul Cortez vendendo uma espécie de anúncio de geladeiras? A tal ‘‘revolução silenciosa’’ que se pretendia fazer só seria possível com a adesão maciça da população, para além dos conchavos do Congresso. Esse diálogo com o povo a cada minuto não era para ser uma ‘‘propaganda necessária’’, como foi entendido por muito tucano flácido do governo. Nada disso. Era o mais importante dos ministérios, a mais crucial tarefa, para reformar hábitos políticos seculares. Fez-se isso? Não se fez. O Governo se limitou a alguns jingles tipo ‘‘Acorda Brasil’’ e apelidou nosso pauzinho de Bráulio, contra a Aids. Resultado: mais de três anos na mão do conchavismo desesperante do Congresso e três anos vivendo de reformas que não chegam nunca, deixando-se de lado a política pontual da chamada ‘‘área social’’ (ridícula expressão tucano-militar - como se houvesse algo fora do ‘‘social’’...).
Esta paralisia ‘‘macro’’ causou o desinteresse ‘‘micro’’. Mas, santo Deus, mesmo sem cair no ‘‘Estado paternalista’’, como dizem os sociólogos, não se poderia ter tido, por exemplo, uma política de saúde ou habitacional mais rápida e radical? Não se poderia ter feito um projeto para o Nordeste, com ‘‘grupos executivos’’, como JK fez, passando por cima dos burocratas e corruptos locais? O Nordeste é uma emergência perene, mesmo sem seca. Sempre foi. Governar o Brasil começa por mexer no Nordeste, na terra e nos homens que mandam lá. É uma emergência em si. Onde está a grandeza de obras? Sei que há o Progert-FAT (será este o nome? Pra que serve?), sei que há ‘‘frentes de trabalho’’, sei que há barragens, que há a ‘‘comunidade solidária’’... mas, meu Deus do céu, como estes projetos da ‘‘área social’’ têm um cheiro nostálgico e triste da época da Educação Moral e Cívica dos militares, que jogavam um consolo ao ‘‘provão’’...
Outro erro grave foi a falta de imaginação política, através de medidas que não dependessem do Congresso, exigindo dos ministros, com mão-de-ferro, que as metas fossem cumpridas. Mão-de-ferro faltou sempre.
Um grande mérito de FHC foi ter inaugurado um governo sem pressas messiânicas e sem populismo fáceis. Seu grande mérito foi abrir caminho para a sociedade civil despertar, sem depender do Estado. Tudo bem. Mas, o ‘‘não-messianismo’’ não significa ‘‘inatividade’’, falta de paixão, falta de generosidade, falta de urgência. Não ser populista não significa ser aristocrata ou ignorar o povo. FHC acreditou na ‘‘Razão’’ como se esta fosse um ‘‘amuleto de Rosseau’’, acreditou em iluminismo num país de ignorantes que precisam de explicações claras, e acabou caindo no mesmo erro ‘‘ibérico’’ que tentou criticar, achando que poderia ser um ‘‘D. Sebastião light’’ ou um ‘‘bonapartista sorridente’’, evitando elegantemente um certo ‘‘neo-populismo’’ que poderia até ser honesto e humilde.
FHC não é um neo-liberal deslumbrado, nem oportunista, nem desonesto. Mas, dada a sua tendência para o compromisso excessivo, acaba dando razão aos maniqueístas burros que o criticam. E, agora, não adianta mais a revoada de tucanos em pânico tentar recuperar ‘‘credibilidade’’ junto ao povo. Acho até que FHC ganha a eleição, pois ninguém quer fazer marola no marasmo. Apesar de sofrer a maior campanha de sabotagem que já vi, da USP à UDR, dos evangélicos aos ateus, FHC tem culpa sim. Foi frio, sem paixão, sem militância, sem utopia, mesmo a tal ‘‘possível’’.
FHC tem um programa político, mas não o executa; assim como o PT não tem programa, mas diz que vai executar. Nesta sinuca estamos nós. Não adianta correrias para mudar o marketing. Quem tem de mudar não é opinião pública. Quem tem de mudar é o Presidente.

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