Arnaldo Jabor
Tínhamos o quê? Uns 13 anosQuero falar de política e ninguém deixa. Encontro amigos na rua que me dizem: continua, continua as histórias da adolescência... Muitos sujeitos que eu criticava na política estão contentes também: continua, pensam. Não se alegrem muito, que eu voltarei. Mas, por hoje, ainda vai.
Não é verdade que meus únicos professores de sexo foram o pipoqueiro Bené e Alfredo, o aleijado de perninhas secas. Os padres de meu colégio também muito contribuíram para minha formação neurótica. Já contei isso aqui, mas vou repetir, também a pedidos: Conta a história das bronhas e do padre. Nelson Rodrigues dizia: que seria de mim sem minhas obsessões e repetições? Faço como ele.
Hoje, talvez a masturbação não tenha a importância que teve no meu passado profundo. Este exercício de imaginação criadora muito contribui para a literatura nacional, estimulando nos jovens a capacidade narrativa, a análise psicológica, a dramaturgia, ao invés do mundo das imagens de hoje. A masturbação hoje virou uma indústria virtual, com telefones 900, com vídeos pornôs, internet, em suma, a mais completa rede de estímulos interativos. Hoje a punhetinha é um luxo informático; no meu tempo era uma necessidade de sobrevivência. Como era tudo proibido, o sujeito se refugiava na solidão do pecado, do vício solitário, como se dizia, sinistramente. Quantas vezes praticaste o vício solitário?, perguntavam os padres no confissionário. A expressão tinha uma tristeza doce e humilhante. Lembro-me dos jovens padres tontos de tesão pelas mães dos alunos, que iam aos colégios com toaletes provocantes, muito batom, cabelos altos. Que faziam eles para evitar o pêndulo do vício solitário? Minha fé vacilava. Será possível que Deus estivesse tão preocupado assim com nossos pobres pintinhos? Eu rezava para ter fé. O padre-perfeito examinava minhas espinhas como um guarda de fronteira: As espinhas aumentaram muito nas férias, hein? Eu esfregava Lugolina na cara para esconder as brotoejas delatoras. Você sabe por que o vício solitário é um pecado mortal? - perguntava o padre. Por que cada vez que você o pratica, são milhões (milhõesss...- ele repetia) de seres humanos que poderiam nascer e que morrem ali na vala comum dos esgotos! Minha culpa era total. Além de odiado por Deus, além da humilhação de ver as meninas passando intocadas com suas bundinhas lindas e pequenos seios, além de contemplar em desespero os primeiros biquínis na praia, eu era um assassino de milhões...Eu era um reles criminoso covarde que, além do mais, não comia ninguém.
E, com a culpa na lama, continuei exterminando milhões de homens, destruindo-os no banheiro. O padre Barros berrava no púlpito: Tua alma vai para o inferno, queimar por toda a eternidade!... Deus me parecia um sujeito violentíssimo, nos obrigando a sofrer para sempre, por nada. Mas, padre, o cara passa uma vida santa. No último dia, antes de morrer, falta a uma missa. Vai para o inferno?. Por toda a eternidaaadee.. ecoava o bom padre Barros, implacável. Aí, surgia a pergunta agnóstica, que acabava com a fé dos garotos: Deus é infinitamente bom?, perguntávamos. Sim, infinitamente... Ele sabe tudo que vai acontecer? Sim... respondia o padre, já desconfiado. Então, se ele sabe que fulano vai pecar e vai para o inferno, para que ele cria o cara?. Nenhum padre me respondeu esta questão atéia, até hoje. E minha fé resistia, mesmo assim. Eu me perdia em discussões metafísicas diante do mar, já que as mulatas do Rio não eram para meus beiços.
Um dia, chegou as colégio um padre moderno, prafrentex, como diziam. Esperança. O padre falava uns palavrões, falava em esperma, masturbação. Era jovem e forte (muitos anos depois, vi-o sem batina, vagando pelo Posto 6), jogava futebol conosco, brigava. Ótimo, minha fé se fortaleceu; era possível um Deus mais democrático, como o padre que jogava ping pong. Até um dia o padre (nos falava de livros, filmes) nos contou uma das histórias cristãs mais belas (a seu ver) sobre a sexualidade juvenil. Tínhamos o quê? Uns 13 anos. Era a história de um rapaz escoteiro virgem de 18 anos, forte e bonito, (o nome do livro francês era, creio, Estrela da Manhã..) que estava acampado no Havaí. Uma tarde, ele sai a cavalo pelas praias desertas, galopando, feliz em sua castidade. Aí resolve parar na areia branca, para descansar. Eis que... (ouvíamos em suspense)... surge uma linda mulher havaiana, seminua, vestida apenas com uma saia-de-palha, coberta de flores (o padre caprichava nos detalhes), que se aproxima do nosso herói virgem na areia e começa a dançar a hula hula, ali, diante dele, sorrindo e oferencendo-lhe os seios nus. Ouvíamos sem ar, constelados de espinhas.
Eis que nosso herói vai ficando fascinado pela linda havaiana que dançava e vai ficando apaixonado, febril, amolecendo como num sonho (nossa esperança aumentava). Até que a moça morena e cheia de curvas chega bem perto dele e oferece os lábios carnudos e vermelhos. Tiritávamos de emoção.
Foi então um milagre!, berrou o padre, eufórico.
Nosso herói, à beira do colapso, reuniu suas últimas forças e, rezando entre os dentes, pulou no cavalo e saiu galopando e chorando para longe da linda havaiana. E continuou puro e sem pecado!, bramia o padre. Ele foi forte e venceu a tentação! O silêncio foi brutal e desesperado. Dava para se ouvir a indignação em seus vícios. E foi assim. Minha fé morreu ali, naquela sala de aula jesuíta, no fundo dos anos 50.





