Tudo começou com Monica Lewinski. Fui falar do Clinton e seu pintinho e acabei contando minha vida de menino. Agora, não querem que eu pare. ‘‘E aí, quando você vai comer alguém?’’ - me perguntam na rua os ‘‘desconhecidos íntimos’’. ‘‘Eu chego lá ...’’, digo, vagamente envergonhado. Pois bem, vocês hoje falam em sexo virtual; sexo virtual era nos anos 50, quando eu só tinha as aulas incendiárias do Bené e do Alfredinho, que foram meus professores de sexo, um pipoqueiro galã e o aleijadinho D. Juan.
Os praticantes do vício solitário, naquela época, eram mais sós. Não havia Playboy, filmes pornôs, nada; só o silêncio dos corredores, os quartos misteriosos. A fantasia sexual era literária, com princípio, meio e fim, com suspense, até o desenlance, ‘‘ralentado’’ ao máximo para provocar mais prazer. As heroínas sexy eram vizinhas, professoras, viúvas de negro, enfermeiras e mães de amigos.
Nessa época, eu estudava num colégio de padres e tinha um colega cujo estranho apelido era Grapette, devido ao famoso refrigerante que tinha por slogan: ‘‘Quem bebe Grapette, repete’’. Nas sombras daquele colégio secular, tremia um desejo torto que se adivinha nas luzes mortiças, nos sinos batendo. De dia, os padres olhavam as mães dos alunos vestidas como as atrizes do cinema, muito pintadas e de cabelos altos, imitando Ava Gardner ou Lana Turner e, de noite, se recolhiam às tristes clausuras. A sexualidade pulsante era reprimida por todos os lados, matada a rosários, a pano roxos, a velas, na fumaça dos turibulos. Mas o desejo escapava pelas frestas, recalcando-se nos banheiros e se encontrando até em amores do mesmo sexo. Este desejo feriu o ‘‘Grapette’’, que foi encontrado no fundo do vestiário com outro garoto mais forte e capitão de futebol. Daí, o grande escândalo que se formou (e logo se apagou) em torno de ‘‘Grapette’’, sufocado com presteza pelos prazeres, por ser o menino de família rica e, também, generosa contribuinte das campanhas religiosas.
Mas, o apelido da fresca bebida pegou logo: ‘‘Grapette’’. Depois de uma missa num domingo azul tomado de cigarras, vi uma cena de inesquecível crueldade, quando o meu colega foi vaiado por uns 300 alunos aos gritos e risos, pulando pelos pátios atrás dele aos berros de ‘‘Quem bebe Grapette, repete!’’ O pobre acusado fugia em todas as direções, até que eu o ajudei a se enfiar numa sala onde se trancou, vindo logo os padres em seu socorro, brandindo castigos aos manifestantes. Não me esqueço dos olhos muito abertos de pavor do menino, tossindo muito, vermelho, enrolando as palavras num murmúrio, como que rezando. ‘‘Grapette’’ ficou meu amigo, depois disso, se bem que sua amizade vinha misturada a um certo rancor por minha solidariedade em sua humilhação. Seu afeto era custoso, dolorido, confuso, o que lhe fazia me agradecer simbolicamente com ajuda nos estudos, na época das provas finais. ‘‘Grapette’’ era bom aluno e riquíssimo; sua casa, um palácio em Copacabana, com sala de mármore, lustres de cristal e persas imensos. A mãe de ‘‘Grapette’’ era diferente das outras mães. Não ficava palrando com os padrecos jovens nem se pintava muito, nem usava coques bomba-atômica, nem saias justas.
Eu a via no interior da negra limousine com chofer, de óculos escuros e cabelos muito escuros também, em volta do rosto muito branco. Era altíssima e usava uns tailleurs também escuros, como de luto. ‘‘Seu pai morreu?’’, perguntávamos. ‘‘Não - respondia o ‘Grapette’ - está viajando’’. Nas provas finais, estudou noites inteiras, sem dormir, a custa de uma ‘‘bolinha’’ chamada ‘‘Dexamill’’, drágeas azuis que acendiam a alma como cocaína. Falávamos sem parar, numa nervosidade que ia decaindo pela noite até a depressão da madrugada. Uma noite, o ‘‘Grapette’’ afundou dormindo no sofá, na véspera da prova de química, quando o céu já arroxeava. Sacudi-o fortemente, mas ele não acordou. As portas de cristal e bronze estavam trancadas sem chaves. Saí andando pela casa de dois andares, em busca de saída.
Foi quando tudo começou a flutuar num mistério pois, no alto da escada de mármore, apareceu a mãe do ‘‘Grapette’’. Estava completamente diferente. Seus cabelos estavam soltos e ela usava uma camisola branca que parecia um vestido de baile. Talvez seja a mais bela visão de mulher que tive na vida. Tudo parecia se mover em volta de mim, à medida que eu subia a escada, pois ela me chamara sorrindo, perguntando onde estava o filho que (disse-lhe eu) dormia. ‘‘E você não dorme?’’ perguntou-me. Não sei se era efeito da droga, mas tudo parecia sonho, de uma lentidão impossível, quase em câmera lenta. Ela saiu andando pelo corredor e eu a segui sem saber por quê. Ela oscilava de leve, como tonta. ‘‘Vou pegar a chave da porta’’ ... me disse ela, flutuando para dentro do quarto, onde eu também entrei, pisando numa incrível pele de urso branco no chão, que mostrava-me os dentes. Eu me via naquela casa, ‘‘de fora’’, como um personagem de meus próprios sonhos eróticos. ‘‘Espera a풒, me disse ela. Fiquei parado no meio do quarto e vi, pela porta entreaberta do banheiro, um verdadeiro labirinto de espelho se rebatendo. E foi nesta fresta de banheiro que a mãe do ‘‘Grapette’’ apareceu refletida, tirando a camisola, ajeitando os cabelos e ficando completamente nua. Ela entrava e saía do meu campo de visão, como num caleidoscópio, como um reflexo na água, demorando-se nos espelhos, apertando os seios, multiplicada ao infinito. Eram mil mães do ‘‘Grapette’’ que eu espiava, nuas, lindas, como... que a atriz de cinema a lembraria? Talvez... Maria Felix, que parecia saber-se olhada por mim, ali, trincado, tremendo no escuro do quarto. A mulher saiu do banheiro num imenso robe vermelho, onde se viam paisagens chinesas bordadas. Na minha lembrança, Bené e Alfredinho pareciam duas miniaturas lá longe, cá embaixo, pequeninos, e eu, flutuando no alto. Então, a mãe-Maria Felix (ou Jane Russell?) veio andando e avançou para mim, de imprevisto, aflita, tratando-me como um bebê, dizendo que ‘‘era hora de eu ir dormir, que eu estava despenteado’’, e me arrastou ao banheiro e molhou meu cabelo e repartiu meu cabelo nervosamente e eu me via refletido em mil meninos nebulosos diante daquela mulher imensa me acariciando. Ela penteava-me o cabelo com mãos trêmulas e em seguida me espalhou um perfume no rosto, no pescoço, dentro de minha camisa, com gestos rápidos, deixando-me ver seus seios moventes dentro do robe e aí - espantoso lembrar isso - passou-me rouge no rosto (‘como está pálido!’) e me fez uma pinta negra na face, com um lápis de maquiagem. ‘‘Agora está bonito, parece uma menina!’’ e me esfregou as mãos no peito e, então, me deu um beijo longo no ouvido, que me ficou doendo num zumbido, como uma sirene sem fim. Lembro de seus grandes olhos molhados e sua grande boca junto à minha boca e obedeci como um sonâmbulo quando ela sussurrou, me dando a chave: ‘‘Acorda meu filho e vai’’. Quando passei pelo ‘‘Grapette’’, ele não dormia. Tinha os olhos muito abertos, sentado no sofá, me olhando. Saí na madrugada e fiquei esperando o ônibus, coberto de perfume francês, esfregando o rosto com cuspe. Nunca entendi o que aconteceu naquela noite, mas não estudei mais com o ‘‘Grapette’’.

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